Titãs: 40 anos de “Cabeça Dinossauro”
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| "Cabeça Dinossauro", dos Titãs, completa 40 anos de lançamento em 2026. |
Considerado por muitos como um dos melhores (senão, o melhor) disco do Rock Brasil dos anos 1980, o icônico “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs, completa nesta quinta-feira, 25 de junho, 40 anos de lançamento. Gravado entre março e abril de 1986, o álbum foi o primeiro disco dos Titãs produzido por Liminha (que, neste, dividiu os créditos com Pena Schmidt e Vítor Farias), considerado um dos melhores produtores do país. A capa do disco é baseada em um esboço do pintor italiano Leonardo Da Vinci, intitulado “A expressão de um homem urrando”, enquanto na contracapa, outro desenho do pintor, “Cabeça Grotesca”.
A
prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto em função do porte de heroína em
novembro de 1985, juntamente com a vontade dos Titãs em mudar a sonoridade de
suas músicas, resultaram em “Cabeça
Dinossauro”, o seu terceiro disco de estúdio, lançado em junho de
1986, considerado um dos melhores discos da história do rock brasileiro.
Diferentemente
dos dois trabalhos anteriores – o auto-intitulado “Titãs” e “Televisão” – que, apesar de contar com boas canções,
apresentavam uma sonoridade um tanto confusa, “Cabeça Dinossauro” é pesado, é rock and roll, com
influência punk, mas com leve pitadas em reggae e funk. Além disso, os seus
temas abordavam instituições como Igreja, polícia, família, e também críticas
ao capitalismo, tudo de maneira “ácida e feroz”.
O
disco abre com a faixa-título, “Cabeça Dinossauro”, cuja expressão surgiu do nada,
provavelmente os integrantes estavam bêbados ou caindo de sono, quando a banda
estava em um ônibus-leito e Branco Mello soltou a expressão “Cabeça Dinossauro!”,
daí Paulo Miklos e Arnaldo Antunes completaram os outros dois versos da música
com “Pança de Mamute” e “Espírito de Porco”
(sim, a música só tem três versos) e sua batida na bateria foi inspirada em
tambores indígenas do Xingu, a banda fez questão de mencionar isto ao creditar
como música incidental no encarte do disco. E Branco Mello é quem a canta.
A
faixa seguinte é “AA
UU”, da dupla Sérgio Britto e Marcelo Fromer, um punk-rock que
trata sobre o cotidiano de um burguês. A música foi escolhida pela gravadora
para ser o primeiro single de “Cabeça
Dinossauro”.
A
canção seguinte é “Igreja”,
em que Nando Reis critica a religião cristã, sobretudo a Igreja Católica. Ateu
declarado, Nando escreveu em seus versos, algo do tipo: “Eu não gosto de bispo / Eu não gosto de Cristo / Não digo “Amém””.
A música causou polêmica até entre os integrantes da banda. Arnaldo Antunes,
por exemplo, discordava do teor da música e, em sinal de protesto, não apareceu
no clipe e, nos shows, se retirava do palco cada vez que “Igreja” era
executada. Apesar da situação que envolvia a temática, a música fez sucesso, e
ainda foi cantada por Caetano Veloso junto com os Titãs em um especial da Rede
Globo que reunia, além da banda paulista, Barão Vermelho e outros convidados. No
entanto, a inspiração na letra veio por conta da censura ao filme do cineasta franco-suíço
Jean-Luc Godard (1930-2022) "Eu Vos Saúdo, Maria"
("Je vous salue, Marie"), de 1985, pelo governo Sarney.
Em
seguida, surge “Polícia”,
composta por Tony Bellotto. Cantada por Sérgio Britto, a música é uma das
preferidas dos fãs, tanto que até hoje, nos shows, o público sempre solicita
para que os Titãs a executem. Além disso, o Sepultura gravou um cover deste
clássico titânico para a versão brasileira do álbum “Chaos A.D.” e, antes, Herbert Vianna citou alguns
versos de “Polícia” em “Selvagem”, no álbum
ao vivo d’Os Paralamas – “D”
-, de 1987.
Já
“Estado Violência”,
a quinta música de “Cabeça
Dinossauro”, é a primeira contribuição de Charles Gavin como
compositor. Em sua introdução, os instrumentos vão sendo inseridos aos poucos
na música: primeiro vem a bateria, depois o baixo, seguido do teclado, as
guitarras e, finalmente, a voz (de Paulo Miklos). A canção critica o estado de
direito nacional. Foi regravada pelo Biquíni Cavadão no álbum “80”. Originalmente,
a música tinha outro nome: “Homem
Palestino”, que Charles havia escrito quando era integrante do Ira!.
A
canção mais curta de “Cabeça
Dinossauro” é “A
Face do Destruidor”, de Arnaldo e Miklos. Com 34 segundos, com
suas bases gravadas ao contrário, a sexta música do disco é formada por nove
versos ditos duas vezes em menos de 30 segundos e quase incompreensíveis. Em
função de sua curta duração, não foi tocada nas rádios. A letra está presente
no livro “Psia”, de Arnaldo
Antunes, lançado no mesmo ano do álbum.
A
sucessora de “A Face de Destruidor”
é “Porrada”
composta por Arnaldo Antunes e Sérgio Britto, que é uma “pedrada”. Após a saída
de Arnaldo, em 1992, Sérgio passou a cantarolá-la nos concertos da banda.
E
Arnaldo Antunes era o grande compositor da banda naquele período, tanto que das
13 faixas do disco, ele é autor ou co-autor de oito. Uma dessas é “Tô Cansado”,
feita com Branco Mello que, musicalmente falando, é quase que uma emenda de “Porrada”. Mas aqui,
o interlocutor parece que está “p. da vida”, com tudo e com todos, tanto é que
ele diz “estou cansado da minha cara”.
Ou será que ele está adotando a prática de Jaiminho, o carteiro do seriado
Chaves e está querendo “evitar
a fadiga”?
A
banda resolveu incluir na obra a clássica “Bichos Escrotos”, que já tocavam desde 1982, mas
não pôde ser gravada nos dois álbuns anteriores. Em função do verso “vão se foder”, a música foi censurada
nas rádios. Mas devido à sua enorme popularidade na época, algumas emissoras
tocaram a canção com uma versão com a tal frase vetada (com o som agudo de
censura), às vezes até a própria versão original, culminando com o pagamento de
multa. O ex-integrante (e também co-autor) Nando Reis regravou “Bichos Escrotos” no
seu CD/DVD “Bailão do Ruivão”
(2010). Vale lembrar que a canção, apesar de ter sido composta por três
vocalistas (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Nando Reis), quem a canta é outro
vocalista, Paulo Miklos.
Os
colegas de penúria, Arnaldo e Bellotto foram os responsáveis pelo “rock-reggae”
do disco: “Família”, que,
cantada por Nando Reis, trata do cotidiano de um dos pilares da sociedade. O
curioso é que Nando contrasta em “Família”
toda a sua ferocidade constatada em “Igreja”. A faixa foi regravada pelo Grupo Molejo, além
de ter sido também o título do álbum do grupo.
A
antepenúltima faixa de “Cabeça…” é “Homem Primata”,
que apesar de ter sido composta há mais de 25 anos, ainda é atualíssima. Assim,
como “Bichos Escrotos”, o
refrão da música, criado por Marcelo Fromer e Ciro Pessoa, foi composto ainda
nos tempos em que a banda se chamava “Titãs do Iê-Iê”. Então, Nando Reis e
Sérgio Britto se juntaram a Fromer para terminar a composição durante a turnê
de “Televisão”. Em sua
letra, é abordado críticas ao capitalismo, o tal de “Capitalismo selvagem”.
A
penúltima música, “Dívidas”,
mais um “rock-reggae”, Branco Mello trata da crise financeira que os
brasileiros viviam no período com o Plano Cruzado, em que pagávamos tributos
abusivos. Se analisarmos, a situação atual não mudou muito não, pelo menos a
minha (risos).
E
o “gran finale” é um “divisor de águas”: “O Quê?”, um poema de Arnaldo Antunes (também
presente em “Psia”) musicado com
o auxílio de instrumentos eletrônicos, inclusive a bateria. A faixa ilustrava
uma mudança na sonoridade da banda, que pode ser constatada no disco seguinte
dos Titãs, o “Jesus Não Tem Dentes no País
dos Banguelas”, de 1987. Também é a maior faixa do álbum, com
5’40”.
Em
suma, o agora ‘quarentão’ “Cabeça
Dinossauro” é obrigatório, indispensável, necessário, atemporal, clássico, contemporâneo,
atual, enfim, independentemente do adjetivo, será sempre um marco não só do
rock nacional, mas da música brasileira de todos os tempos.
Abaixo a
ficha técnica e o tracklist da obra.
Por Jorge
Almeida

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