Artigo: Salve, Jorge!
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| "São Jorge e o Dragão" (déc. de 1880), de Gustave Moreau. |
Como abordei recentemente
a respeito do álbum “África Brasil”, de Jorge Ben, em virtude de ele ser um dos
devotos mais famosos de São Jorge. E, hoje,
23 de abril, dia de São Jorge, um dos santos mais populares não só do catolicismo
como de outras denominações religiosas. No Rio de Janeiro, embora não seja o
padroeiro daquela Federação, é feriado estadual. A devoção ao Santo Guerreiro
inspirou muitos artistas nas mais diversas áreas, como nas artes plásticas, na
música, entre outros, além de ser uma figura presente em instituições
esportivas.
São Jorge, também chamado de
Jorge da Capadócia ou de Lida, é uma figura que atravessa séculos entre
história e tradição. Segundo os relatos mais difundidos, foi um soldado romano
no exército do imperador Diocleciano, que acabou martirizado por sua fé cristã.
Mesmo cercada de elementos lendários, sua trajetória ganhou enorme força
simbólica, a ponto de ele se tornar um dos santos mais venerados tanto na
Igreja Católica quanto na Ortodoxa e na Anglicana. A imagem que o eternizou é a
do guerreiro que derrota o dragão — uma representação clara da luta entre o bem
e o mal.
Sua memória é celebrada
principalmente em 23 de abril, data creditada à sua morte, e também em 3 de
novembro, ligada à consagração de uma igreja construída em Lida, atual Israel,
onde estariam suas relíquias. Ao longo do tempo, São Jorge se consolidou como
um dos grandes santos militares e padroeiro de diversos países e cidades ao
redor do mundo, além de ter uma devoção muito forte no Brasil, especialmente no
Rio de Janeiro, onde é padroeiro do estado.
Aqui, aliás, ele ganha ainda
mais camadas de significado. Nas religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e
a Umbanda, São Jorge costuma ser associado a Ogum — o orixá guerreiro —,
reforçando essa ideia de proteção, coragem e abertura de caminhos. Essa força
simbólica também se espalhou pela cultura popular, principalmente na música
brasileira, onde o santo aparece com frequência em canções de artistas como
Jorge Ben Jor, Zeca Pagodinho, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Clara Nunes.
Canções como “Jorge da Capadócia”, “Ogum”, “Pra São Jorge”
e “Lua de São Jorge” mostram como essa devoção atravessa diferentes
estilos e gerações.
No futebol, São Jorge também é padroeiro de alguns clubes. No Brasil, obviamente, a sua figura está fortemente associada ao Corinthians. Inclusive, hoje aconteceu uma cerimônia de inauguração da estátua de São Jorge que foi instalada na Neo Química Arena. Antes do Timão, o Ancona, da Itália, já levava o santo em seu escudo. Além dele, outros clubes europeus levam em seus escudos a cruz de São Jorge, como Milan, Barcelona e Genoa, além de ser o símbolo da seleção inglesa.
Aliás, vale registrar que,
torcedor declarado do Corinthians, Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016) sempre
enalteceu o seu amor pelo clube de Parque São Jorge, incluindo aí desde
lançamento de publicações, como o livro “Corintiano Graças a Deus” (2004), e também
matérias em veículos esportivos, como a revista Placar, até pedido ao Papa
Paulo VI para que São Jorge, padroeiro do Timão, não tivesse seu título cassado
em um reordenamento do calendário oficial da liturgia em 1969. Na reforma,
alguns santos seriam excluídos por conta de que a existência de alguns não era considerada
suficientemente comprovados ou figuras das quais a devoção era mais restrita a
apenas em algumas localidades, como o próprio Santo Guerreiro. Em seu livro,
Dom Paulo Evaristo Arns afirmara: “Santo Padre, nosso povo não está entendendo
direito a questão. São Jorge é muito popular no Brasil, sobretudo entre a
imensa torcida do Corinthians, o clube de futebol mais popular de São Paulo’.
Paulo VI entendeu o problema: ‘Não podemos prejudicar nem a Inglaterra nem o
Corinthians’”. Dom Paulo guardou o bilhete do pontífice até sua morte, em 14 de
dezembro de 2016.
Mesmo com uma história que
mistura fatos e lendas, a devoção a São Jorge se manteve viva ao longo dos
séculos justamente por isso: mais do que um personagem histórico, ele
representa uma ideia universal de fé, coragem e resistência que continua
fazendo sentido até hoje.
Para encerrar, deixo uma relação
de 20 músicas brasileiras que celebram o Santo Guerreiro como sugestão para ouvir.
1. Jorge da Capadócia - Jorge Ben Jor (regravada também por Caetano Veloso, Fernanda Abreu e Racionais MC's)
2. Ogum - Jorge Ben Jor e Zeca Pagodinho
3. Pra São Jorge - Zeca
Pagodinho
4. Medalha de São Jorge -
Maria Bethânia
5. Lua de São Jorge - Caetano
Veloso
6. São Jorge - Alcione
7. Líder dos Templários -
Jorge Vercillo, Jorge Aragão, Jorge Ben Jor e Jorge Mautner
8. Alma de Guerreiro - Seu
Jorge
9. Guerreiro de Oxalá - Clara
Nunes
10. Domingo 23 - Jorge Ben Jor
11. Guerreiro do Rei Nagô -
Clara Nunes
12. Ogum Menino - Glória
Bonfim
13. Ogum Chorou Que Chorou -
Alcione
14. São Jorge - Racionais MC's
15. Cavaleiro de Aruanda -
Ronnie Von
16. Meu São Jorge - Lia de
Itamaracá
17. São Jorge - Hermeto
Pascoal
18. Cavaleiro do Cavalo
Imaculado - Jorge Ben
19. A História de Jorge -
Jorge Ben
20. São Jorge - Juçara Marçal
Além dessa lista, menções
honrosas para: "Se", de Djavan (sim, é a que tem o verso
"São Jorge, por favor, me empresta o
dragão") e "Lua Bonita", de Zé do Norte e Zé Martins,
gravada por Raul Seixas (em que ele canta majestosamente algo como "Lua bonita, Meu São Jorge é teu senhor, e é
por isso que ele 'véve' pisando no teu esplendor").
Salve, Jorge!
Por Jorge Almeida

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