Exposição “Águas Subterrâneas: Narrativas de Confluência” no Instituto Tomie Ohtake

"O Jacaré Teimoso" (2025), obra feita com cola de pele animal e pigmentos vegetais, em exposição no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Jorge Almeida

O Instituto Tomie Ohtake recebe até o próximo domingo, 8 de março de 2026, a exposição “Águas Subterrâneas: Narrativas de Confluência”, um dos projetos centrais da Temporada França-Brasil 2025. A mostra é realizada em parceria com o Institut Français e o Frac Poitou-Charentes, e já passou pela França antes de chegar ao Brasil.

A exposição surgiu de uma conversa simbólica entre o rio Charente, na região francesa da Nova-Aquitânia, e o sistema Tietê–Pinheiros, em São Paulo. A curadoria parte do conceito de “confluência”, estabelecido pelo pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos: uma colisão que adiciona sem tirar. A partir daí, a mostra sugere que a água seja observada não apenas como recurso natural, mas como lembrança viva — atravessada por histórias coloniais, conflitos ambientais e possibilidades de futuro.

Em São Paulo, o projeto mantém a base apresentada na França, mas recebe novos incrementos. A artista Suzanne Husky passa a juntar esta etapa com obras inspiradas no relatório do IPCC (2022), pesquisando o papel do castor na regulação dos rios europeus e relacionando ecologia, cartografia e cuidado ambiental.

Já Julien Creuzet reformula sua obra a partir da realidade paulistana. Se, na França, ele trabalhava com arquivos do rio Charente, agora volta seu olhar para o Tietê e o Pinheiros, criando uma cartografia poética que mistura mapas, símbolos técnicos e objetos cotidianos para discutir memória, poder e paisagem urbana.

A mostra também evidencia como as questões da água passam por infraestrutura, política e desigualdade. Barbara Kairos revisita o episódio do “jacaré do Tietê” para falar sobre imaginário e degradação ambiental. Capucine Vever investiga a paisagem fluvial a partir de arquivos e da escuta do rio Garona.

Entre os brasileiros, o Coletivo Coletores sobrepõe mapas e imagens para debater o direito à água e ao território. Daniel de Paula instala a obra Mãe no Parque Linear Bruno Covas, deslocando uma turbina da antiga Usina Henry Borden para a margem do rio Pinheiros, numa reflexão direta sobre industrialização e impacto ambiental.

Davi de Jesus do Nascimento traz a força simbólica das carrancas do rio São Francisco, conectando ancestralidade e proteção. Luana Vitra trabalha com cerâmica, cobre e ferro para abordar extração mineral e transformação do território. Marcos Ávila Forero apresenta um vídeo realizado com comunidades afro-colombianas do rio Atrato, resgatando formas de comunicação por meio do som da água. Já Rastros de Diógenes cria um cosmograma que articula cultivo, cura e imaginação climática, enquanto Vitor Cesar e Enrico Rocha transformam a sigla DNOCS em poesia visual e sonora, questionando políticas hídricas no semiárido.

No conjunto, a exposição trata de escassez, contaminação, memória e reparação. Mais do que falar sobre água, propõe uma mudança de perspectiva: entender rios e cursos d’água como protagonistas de uma história que envolve infraestrutura, corpo, território e poder.

SERVIÇO:
Exposição: Águas Subterrâneas: Narrativas de Confluênci
Onde: Instituto Tomie Ohtake – Rua Coropés, 88 - Pinheiros
Quando: até 08/02/2026; de terça-feira a domingo, das 10h às 19h
Quanto: entrada gratuita 

Por Jorge Almeida

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