Do salão à galeria: exposição leva o trançado ao centro do debate artístico contemporâneo *

 

Foto meramente ilustrativa.

"Cabeça-Território, Raiz-Continente", articula pintura, escultura e instalação para investigar território, memória e tecnologia ancestral

A artista visual Suelen Lima inaugura no dia 7 de março, na Galeria Retina, em São Paulo, sua primeira exposição individual, “Cabeça-Território, Raiz-Continente”, com curadoria de Paulo du’Sanctus. A mostra reúne pinturas, esculturas e instalações que apresentam o trançado como prática artística, espiritual e política, conectando África e Brasil por meio da memória da diáspora.

Desenvolvida a partir de sua atuação como trancista no Salão Afro Preta Brasileira, a pesquisa de Suelen nasce do gesto cotidiano de trançar cabelos. Entre fios sintéticos, óleo sobre tela e esculturas trançadas, a artista constrói uma narrativa visual que questiona o apagamento histórico das profissionais trancistas e reposiciona o trançado no campo das artes visuais contemporâneas. “O mapa é o corpo. O corpo é território. O trançado é tecnologia ancestral e produção de conhecimento”, sintetiza a artista.

A exposição se organiza em três eixos: território, memória e deslocamento, que estruturam tanto a narrativa curatorial quanto a experiência do visitante.

No núcleo dedicado ao território, destaca-se um mapa do Brasil construído integralmente com tranças sintéticas. A obra substitui a lógica cartográfica tradicional por uma cartografia orgânica, em que os fios entrelaçados evocam as rotas da diáspora africana e sugerem fluxos históricos não lineares. “Quando eu trancei o mapa, pensei no Brasil como cabeça. Território também é memória acumulada. As tranças criam caminhos que revelam camadas da nossa história”, explica a artista. “É uma cartografia afetiva, mas também política”.

No eixo da memória, Suelen combina óleo sobre tela com fibras sintéticas utilizadas no cotidiano do salão. A justaposição de materiais tradicionalmente legitimados pela história da arte com elementos associados ao fazer periférico cria um contraste intencional. “Existe uma política do material. Ao colocar fibra sintética ao lado da pintura a óleo, eu questiono hierarquias: o que é considerado nobre? O que é considerado artesanal? Quem define isso dentro do circuito?”, provoca.

Já no eixo do deslocamento, obras como “Travessia” abordam movimentos migratórios e deslocamentos forçados, utilizando o trançado como metáfora de continuidade e resistência. 

A série “Diálogos de Salão” amplia essa discussão ao trazer o salão de beleza como espaço de sociabilidade, escuta e transmissão de saberes. Ao inserir esse ambiente no contexto expositivo, Suelen tensiona os limites entre arte institucional e práticas historicamente invisibilizadas. “O salão é território político. É onde mulheres negras constroem identidade e fortalecem redes. Levar isso para a galeria é ampliar o reconhecimento desse espaço como produção cultural”.

Formada em Artes Visuais pela Faculdade Paulista de Artes, Suelen consolida nesta exposição um ponto de virada em sua trajetória. Embora já tenha participado de mostras coletivas, como na Pinacoteca Municipal de Piracicaba, esta é a primeira vez que apresenta um conjunto autoral que sintetiza anos de investigação. “Essa exposição representa a afirmação pública de uma pesquisa construída entre o salão, o território e o ateliê. É um reposicionamento simbólico do trançado como patrimônio imaterial da cultura negra”, afirma.

Com realização da Galeria Retina e produção da Preta Brasileira Cultural, a mostra também provoca uma reflexão: quem define o que é arte? Ao levar materiais comuns do salão para a galeria, Suelen amplia o debate sobre identidade, memória, raça e território e propõe uma reeducação do olhar.

A abertura acontece no dia 7 de março, das 14h às 18h. A visitação segue de 8 a 28 de março, de quinta a sexta-feira, das 14h às 19h, com entrada gratuita. No dia 27 de março, às 19h, será realizada uma roda de conversa com o curador, a artista e trancistas convidadas, marcando o encerramento da exposição.

Serviço
Exposição: Cabeça-Território, Raiz-Continente
Artista: Suelen Lima
Curadoria: Paulo du’Sanctus
Realização: Galeria Retina
Produção: Preta Brasileira Cultural
Abertura: 7 de março, das 14h às 18h
Visitação: 8 a 28 de março (quinta a sexta), das 14h às 19h
Local: Galeria Retina - Galeria Metrópole
Avenida São Luís, 187 - 1º andar - São Paulo (próximo à estação República)
Entrada: Gratuita
Agendamento: Necessário para visitas guiadas

Créditos: Carolina Lima

* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de imprensa

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