O eco de Bad Bunny e a menopausa brasileira que samba, tem identidade e se faz ouvir, por Fabiane Berta*
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| Foto meramente ilustrativa. |
Inspirada pela ideia de pertencimento expressa pelo cantor porto-riquenho, médica propõe uma mudança de olhar sobre o climatério no País, com pesquisa própria e escuta das mulheres nos 27 Estados
Há poucos dias, um artista latino subiu ao palco em
Los Angeles e fez algo raro em tempos de adaptação permanente: não se traduziu.
Bad Bunny recebeu o Grammy de Álbum do Ano cantando integralmente em espanhol
e, diante de uma plateia global, reafirmou sua identidade sem suavizar a origem
ou pedir licença para existir.
A força daquela cena ultrapassou a música, falava
sobre pertencimento e ocupar espaço com a própria identidade sendo reconhecido
por isso. Enquanto assistia, pensei nas mulheres que atendo todos os dias.
Pensei na menopausa brasileira, que há décadas tenta caber em protocolos que
não nasceram aqui.
A menopausa, no Brasil, também tem sotaque e, ainda
assim, segue frequentemente tratada como se fosse universal, homogênea,
intercambiável.
Somos 104 milhões de mulheres. Cerca de 30 milhões
atravessam o climatério neste momento. A maioria absoluta da população feminina
do País viverá essa transição. Ainda assim, muitas percorrem esse período
sozinhas, entre consultas apressadas e explicações simplificadas demais.
Há quem acorde de madrugada com o corpo encharcado
de suor e conclua que algo está errado. Há quem perca uma palavra durante uma
reunião e sinta que perdeu também a própria segurança. Há quem chore no
trânsito, se irrite sem motivo aparente, sinta o desejo diminuir e carregue
culpa por isso. E há, sobretudo, quem ouça que “é assim mesmo” e volte para
casa sem orientação.
A experiência da menopausa não é idêntica no Norte
amazônico, onde o calor ambiental se mistura aos fogachos, nem no Sul, onde o
frio contrasta com ondas súbitas de calor interno. Não é igual no sertão
nordestino, onde o acesso à informação ainda é desigual, nem nas grandes
capitais do Sudeste, onde a sobrecarga profissional e familiar intensifica
sintomas como insônia e ansiedade.
Genética, clima, alimentação, renda, acesso a
serviços de saúde e carga de trabalho moldam essa vivência. Ainda assim, grande
parte do conhecimento científico que orienta condutas clínicas foi produzida a
partir de populações do hemisfério norte, com realidades distintas da nossa.
Durante anos, importamos protocolos, traduzimos
diretrizes, adaptamos condutas. Pouco investigamos a fundo como a mulher
brasileira, com sua diversidade étnica, cultural e socioeconômica, atravessa
essa fase.
Defendo que a menopausa no Brasil precisa ser
estudada em português, com dados nacionais, escuta qualificada e recorte
regional. Mapear sintomas, impactos cognitivos, alterações de humor,
sexualidade, qualidade do sono e efeitos metabólicos a partir da realidade
local não é um capricho identitário, e sim uma questão de saúde pública.
Escutar mulheres do Oiapoque ao Chuí significa
reconhecer que o corpo feminino não é um conceito abstrato. Ele trabalha,
cuida, produz renda, sustenta famílias, lidera empresas, ocupa cargos públicos.
Quando esse corpo sofre sem assistência adequada, toda a sociedade sente.
O carnaval começa nesta semana e a metáfora é
inevitável. A avenida é o espaço onde o Brasil se apresenta como é plural,
intenso, diverso. Nenhuma escola de samba pede que seus integrantes deixem o
sotaque em casa.
Talvez devêssemos fazer o mesmo com a menopausa. Se
o suor escorrer, que não seja apenas motivo de constrangimento. Se a memória
falhar, que isso não se converta em estigma. Se o corpo pedir pausa, que haja
legitimidade nesse pedido.
A menopausa brasileira não precisa ser traduzida,
ela tem sotaque. Neste Carnaval, ela samba, não para ser explicada, mas para
ser reconhecida, acolhida e compreendida. Maioria não se adapta em silêncio.
Maioria se faz ouvir.
Agradecimentos: Luciana Vitale | Máxima Assessoria de Imprensa
** Este conteúdo
foi enviado pela assessoria de imprensa

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