Flaubert e Zola: como dois gigantes da literatura viram a revolução mais radical do século XIX *
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| Foto meramente ilustrativa. |
Nova obra revela contradições e ambiguidades dos escritores diante da Comuna de Paris
Gustave Flaubert, crítico feroz da burguesia em suas
obras, revelou-se conservador e antidemocrático diante da maior revolução
popular do século XIX. Émile Zola, tido como simpático ao socialismo,
demonstrou crescente pavor à medida que a violência dos communards se
intensificava. Essas são algumas das revelações de A representação
da Comuna de Paris nas obras de Gustave Flaubert e Émile Zola,
lançamento da e-Manuscrito que chega ao público em 2025.
O livro, assinado pela historiadora Maria Iracema
Giannella de Abreu Pereira e prefaciado por Leandro Karnal, mergulha nas
cartas, romances e artigos dos dois escritores para desvendar como a literatura
registra — e trai — as ideologias de seu tempo.
A Comuna de Paris de 1871 durou apenas 72 dias, mas
permanece como um dos episódios mais fascinantes da história moderna:
trabalhadores tomaram o poder na capital francesa e instauraram um governo
revolucionário que aboliu o trabalho noturno, separou Igreja e Estado e criou
escolas laicas.
Em tempos de crescentes tensões sociais,
manifestações populares e questionamentos sobre representatividade,
enfrentamentos entre diferentes visões de sociedade, revisitar a Comuna de
Paris por meio da literatura é também refletir sobre nosso presente. A Comuna
permanece como referência fundamental para entender as dinâmicas entre revolta
popular e transformação política, entre ideais revolucionários e pragmatismo
político.
Como destaca Leandro Karnal no prefácio Literatura
e barricadas: utopias de 1871, a pesquisa demonstra como "a criação
literária não apenas reflete, mas também constitui e questiona as ideologias e
visões de mundo de uma época".
Mas como dois dos maiores escritores franceses do
século XIX registraram esse momento? A resposta surpreende.
Flaubert, autor de L'Éducation
Sentimentale (A educação sentimental) — romance que
desmascara a hipocrisia burguesa —, revelou-se em sua correspondência privada,
especialmente sua correspondência com George Sand, um homem profundamente
conservador. Suas 107 cartas escritas em 1871 (23 delas reproduzidas
integralmente no livro) expõem "profunda desconfiança em relação à
democracia e ao socialismo", segundo a pesquisa.
Zola, por sua vez, cobriu os eventos como jornalista
nos jornais La Cloche e Le Sémaphore de
Marseille. A análise de seus artigos e de romances como La
Curée (O regabofe) e L'Assommoir (O
abatedouro) revela uma adesão à Comuna muito mais nuançada e ambígua do que
se supunha.
A obra não se limita à análise literária. Ao
explorar a reforma urbanística comandada pelo Barão Haussmann entre 1853 e
1870, Maria Iracema mostra como a transformação de Paris criou uma cidade
segregada.
Trabalhadores foram expulsos do centro para a
periferia. A cidade ficou dividida entre ricos e pobres. Essas tensões urbanas
— tema central em O regabofe de Zola — culminaram na explosão
revolucionária de 1871.
As contradições de Flaubert e Zola nos lembram que
as relações entre classes sociais, poder político e cultura são sempre
atravessadas por ambiguidades que não cabem em categorias simplistas.
A pesquisa se destaca pelo rigor na seleção e
análise do material. A maioria das cartas e documentos examinados não possui
tradução especializada para o português, o que torna o domínio do francês pela
autora fundamental para a qualidade do trabalho.
Maria Iracema Giannella de Abreu Pereira, mestra em
História pela PUC-SP e profunda conhecedora da civilização francesa, traz para
a pesquisa não apenas rigor acadêmico, mas também a sensibilidade de quem
conhece intimamente a língua e a cultura sobre as quais escreve.
No prefácio, o historiador Leandro Karnal destaca a
importância da obra: "Maria Iracema Giannella de Abreu Pereira tem
sólida formação francófona. Sempre buscou a literatura como um objeto de
análise. Escolheu dois monstros franceses: Zola e Flaubert."
Sobre a autora
Maria Iracema Giannella de Abreu Pereira nasceu em
1967, em São Paulo. Bacharela e mestra em História pela PUC-SP, e bacharela em
Administração pela Faap, traz formação multidisciplinar para sua pesquisa.
Casada e mãe de quatro filhos, é francófona e profunda admiradora da literatura
e civilização francesa. O livro é fruto de sua dissertação de mestrado
defendida no Programa de Pós-Graduação em História da PUC-SP.
Créditos: Julio Sitto | A4&Holofote Comunicação
* Este conteúdo
foi enviado pela assessoria de imprensa

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