Exposição “Assim Como Rafael, O Que Fiz É Furto Qualificado” no MAC-USP

 

“Amuleto de Vingança da Esfinge” (2023), de João Guilherme Parisi, em exposição no MAC-USP. Foto: Jorge Almeida

Selecionada pelo edital de exposições temporárias 24/25 do Museu de Arte Contemporânea da USP, a exposição “Assim Como Rafael, O Que Fiz É Furto Qualificado” reúne 19 pinturas do artista paulistano João Guilherme Parisi (2000-) e segue em cartaz até o próximo domingo, 1° de março.

As obras revisitam a tradição da pintura ocidental a partir de um aceno simples e, ao mesmo tempo, instigante. Parisi retalha detalhes — sobretudo pernas e pés — de obras consagradas da história da arte e os reorganiza em novos arranjos, quebradas e desarticuladas de seu contexto original. Ao fazer isso, desocupa a historíola clássica e cria outras probabilidades de significado. 

Formado em Artes Visuais e atualmente pesquisador em museologia, o artista conversa com o pensamento de Georges Didi-Huberman e Aby Warburg, especialmente o conceito de que certos gestos atravessam o tempo e reaparecem carregados de memória. Mas, dessemelhante da tradição que estabelece esses gestos dentro de uma linhagem histórica bem definida, Parisi confina essa genealogia. Ele fantasia novas associações e, muitas vezes, cogita com detalhes que passariam despercebidos pelo olhar inquieto. 

O próprio título da mostra já indica para essa discussão. Ao falar em “furto qualificado”, o artista zomba o modus operandi recorrente na história da arte: artistas sempre se amoldaram de imagens uns dos outros. A referência a Rafael Sanzio e Michelangelo expede à notória narrativa de que Rafael teria se apropriado de soluções visuais vistas na Capela Sistina. Parisi assume esse “roubo” como metodologia consciente e questiona ideias ainda valorizadas no sistema da arte, como originalidade e genialidade absoluta.

Em suas pinturas, a citação aparece de forma direta, mas nunca reverente. Obras como “Tiradentes esquartejado” (1893), de Pedro Américo, ou “Noli me tangere” (1561), de Angelo Bronzino, servem de ponto de partida para recortes que isolam pernas, pés e gestos de tensão. Esses fragmentos recebem títulos irônicos e contemporâneos, que desmontam qualquer ênfase e implantam índole, acidez e até escárnio na leitura.

Há também um aspecto pessoal nesse processo. Todas as pernas e pés retratados são do próprio artista, mesmo quando ele simula figuras femininas ou personagens históricos. O recorte da cintura para baixo desloca o olhar do espectador, causa certo desconforto e retira a centralidade do rosto e da expressão, tradicionalmente associados à identidade.

Entre os destaques estão obras como “Curso Ilustrado de Autodefesa” (2025), “Amuleto de Vingança da Esfinge” (foto), de 2023; e “Lavapés” (2023), todos em óleo sobre tela.

SERVIÇO:
Exposição: Assim Como Rafael, O Que Fiz É Furto Qualificado
Onde: Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP) – Av. Pedro Álvares Cabral, 1301 - Ibirapuera
Quando: até 1°/03/2026; de terça a domingo, das 10h às 21h
Quanto: entrada gratuita


Por Jorge Almeida

 

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