Exposição “A Terra, o Fogo, a Água e os Ventos – Por Um Museu de Errância com Édouard Glissant” no Instituto Tomie Ohtake

 

"The Wait (Móveis Como, 1953)" (2025), de Tarik Kiswanson, em exposição no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Jorge Almeida 

O Instituto Tomie Ohtake está com a exposição “A Terra, o Fogo, a Água e os Ventos – Por Um Museu da Errância com Édouard Glissant” em cartaz até o próximo domingo, 25 de janeiro, e surgiu por meio de um diálogo entre o pensamento poético e filosófico de Édouard Glissant e as ponderações que o Instituto Tomie Ohtake vem elaborando nos últimos anos sobre memória, origem e museu, notadamente a partir da mostra Ensaios para o Museu das Origens (2023). Idealizada como um museu em movimento, a mostra integra a Temporada França-Brasil 2025 e sugere idealizar, de forma sensível e aberta, o que poderia ser um “Museu da Errância”, ideia desenhada por Glissant, mas nunca inteiramente efetivada.

Movida na seleta La Terre, le feu, l’eau et les vents, a exposição surge da ciência de errância como prova da relação: um modo de ajuizar o mundo que renuncia origens únicas, genealogias fixas e identidades fechadas. Nisto, o museu se oferece como um arquipélago, feito de encontros efêmeros, deslocamentos, traduções e atravessamentos entre tempos, territórios e linguagens. Nesse significado, memória não é algo constante ou determinante, mas um procedimento em constante movimento, atravessado por rupturas, apagamentos e reinvenções.

A curadoria, assinada por Ana Roman e Paulo Miyada, estabelece a exposição a partir de dois conceitos fundamentais no pensamento de Glissant — a palavra da paisagem e a paisagem da palavra. Para o autor, a paisagem não é um contexto, mas uma força atuante que acomoda formas de ver, de falar e de lembrar. Território e linguagem se contagiam reciprocamente, fazendo da experiência estética um campo onde natureza, cultura e história se entretêm.

É nesse cenário que o público brasileiro tem ingresso, pela primeira vez, a parte da coleção pessoal de Glissant, hoje reservada no Mémorial ACTe, em Guadalupe. O conjunto reúne obras de artistas com quem ele conviveu e sobre os quais escreveu, como Wifredo Lam, Roberto Matta, Agustín Cárdenas e Victor Anicet — nomes marcados por trajetórias de diáspora, deslocamento e produção em trânsito entre diferentes contextos culturais. A esse nicho juntam-se manuscritos, cadernos, documentos, vídeos e entrevistas inéditas, entre eles o Caderno de uma viagem pelo Nilo (1988), no qual Glissant transforma a experiência do deslocamento em exercício poético e filosófico sobre a ideia de origens múltiplas.

Esse acervo histórico dialoga com trabalhos de mais de 30 artistas contemporâneos das Américas, do Caribe, da África, da Europa e da Ásia, que desenvolvem esses assuntos para o presente através de produções visuais, sonoras e espaciais.

Entre os destaques estão obras como "Antiestático e teu silêncio" (2025), tinta acrílica sobre tela de linho cru, de Aislan Pankararu; "The Wait (Móveis Como, 1953)" (foto), de 2025, de Tarik Kiswanson, resina, fibra de vidro, pintura e jacarandá brasileiro; "Série Titanic", dec. de 1970, pastel seco sobre papéis, de Antonio Seguí, com dez obras; e "The Book Of Violette: The Raft" (2025), uma acrílica sobre tela, de Kally Sinnapah Mary.

 

SERVIÇO:

Exposição: A Terra, o Fogo, a Água e os Ventos – Por Um Museu da Errância com Édouard Glissant

Onde: Instituto Tomie Ohtake – Av. Brigadeiro Faria Lima, 201 (entrada pela Rua Coropés, 88) - Pinheiros
Quando: até 25/01/2025; de terça a domingo, das 11h às 19h
Quanto: entrada gratuita


Por Jorge Almeida

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