O que uma cozinha pode ensinar dentro de um memorial dedicado à agricultura *
No MEA, em Horizontina, a Cozinha Experimental integra a proposta educativa do memorial e aproxima estudantes do ciclo que vai do cultivo ao preparo dos alimentos
Quando se pensa em um museu, uma cozinha talvez não
seja o primeiro espaço que vem à cabeça. No MEA – Memorial da Evolução
Agrícola, em Horizontina, no Noroeste do Rio Grande do Sul, ela ganhou uma
função que vai além das oficinas culinárias: é um espaço de aprendizagem que
aproxima estudantes de temas como agricultura, alimentação, cultura, ciência,
memória e sustentabilidade.
A ideia da Cozinha Experimental MEA é utilizar a
prática culinária como ponto de partida para preservar saberes e tradições
gastronômicas do Noroeste gaúcho e, ao mesmo tempo, estabelecer diálogos com a
agricultura, a gastronomia contemporânea e as experiências dos próprios
participantes. Nesse contexto, a cozinha é entendida como um espaço de educação
que acontece fora da escola, mas que pode dialogar diretamente com o currículo
e com a realidade dos estudantes.
Geovanni Lima, do Instituto de Artes da Universidade
Federal de Uberlândia, atuou como consultor na elaboração do Programa Educativo
da Cozinha Experimental MEA. Para o professor, uma das principais potências do
ambiente está justamente na possibilidade de transformar conteúdos abstratos em
experiências concretas.
Ao preparar um alimento, o estudante pode conhecer
ingredientes, observar transformações, conversar sobre sua origem e produção e
relacionar o que está fazendo com suas próprias memórias e experiências familiares.
“Tem uma coisa que é muito mais interessante, que é como esse currículo se
articula na vida”, resume Geovanni.
A proposta também amplia a própria ideia de
patrimônio. Segundo Carla Borba, coordenadora do MEA, falar de alimento dentro
de um memorial dedicado à agricultura é falar também de memória, cultura,
ciência, tecnologia e modos de vida.
“A receita é muitas vezes o ponto de partida”,
explica Carla. A partir dela, podem surgir conversas sobre quem produz
determinado alimento, os conhecimentos envolvidos em seu preparo, histórias de
família, mudanças nos hábitos alimentares e os impactos sociais e ambientais
das escolhas de consumo.
Do cultivo ao preparo
A Cozinha Experimental também se conecta a outros
espaços e projetos do MEA, como a Estação Cultivar. A proposta é aproximar
diferentes etapas do ciclo do alimento: compreender de onde ele vem, como é
produzido e cultivado e, depois, experimentar o seu preparo.
Essa relação entre agricultura e cozinha foi
percebida pela chef Flávia Mu, participante do Edital Sabores da Terra, durante
uma atividade com estudantes de escolas de Horizontina. Para ela, a cozinha é
uma parte fundamental da narrativa de um memorial dedicado à evolução agrícola.
Flávia também percebeu como a atividade culinária
pode revelar aspectos culturais e afetivos que ultrapassam a receita. Durante
uma oficina em que as crianças prepararam um bolo de butiá, ela se surpreendeu
ao perceber que os estudantes experimentaram a massa crua com o dedo — um gesto
que, segundo ela, remetia aos hábitos de cozinhar em família e às memórias das
casas de avós.
A experiência também mostrou diferenças na relação
das crianças com os alimentos. Os estudantes participaram de todas as etapas do
preparo, colocando a “mão na massa”, conhecendo o butiá e ouvindo histórias
relacionadas ao fruto.
Aprender fazendo
A dimensão prática é central também na experiência
da EMEF Bela União, de Horizontina, que desenvolve semanalmente atividades na
Cozinha Experimental MEA por meio do projeto Bela Mais Bela, continuidade da
iniciativa selecionada no Edital Prosas com a Escola de 2025. No turno
integral, uma turma diferente do 1º ao 5º ano participa da atividade a cada
semana.
As atividades são adaptadas às diferentes faixas
etárias. Com os estudantes menores, por exemplo, as experiências podem envolver
frutas, verduras e preparações que não exigem o uso de panelas, explorando
aspectos como cheiro, toque, textura e sabor. Em outros momentos, os alunos
participam diretamente do preparo dos alimentos.
Para a diretora da escola, Derciane Kaim Rossi, a
frequência transforma a relação dos estudantes com o museu. “O estudante deixa
de ser visitante e passa a ser protagonista”, afirma.
Segundo ela, a continuidade permite que uma
curiosidade inicial se transforme em investigação e autonomia. A escola também
tem percebido mudanças na relação das crianças com os alimentos: ingredientes
que antes geravam resistência passam a ser experimentados de outras maneiras.
“O ‘não gosto’ muitas vezes deu lugar ao ‘posso experimentar?’”, relata Derciane.
Para Carla Borba, a experiência mostra como um museu
pode ampliar sua atuação para além da preservação de objetos. “A cozinha, no
fundo, nos ajuda a ampliar a própria ideia do que pode ser o museu”, afirma.
Nesse espaço, o gesto cotidiano de preparar e
compartilhar uma refeição se transforma em oportunidade para discutir questões
maiores: a relação com a terra, os modos de produção, a cultura alimentar, as
escolhas de consumo e o futuro das relações entre sociedade e ambiente.
SOBRE O MEA
Todas as atividades do MEA são gratuitas e de
classificação livre.
Estacionamento exclusivo para visitantes. Não fecha
ao meio-dia.
Prédio do Memorial: de
quarta a domingo e feriados, das 9h às 17h (entrada na exposição até às 16h30).
Eletroposto e área externa do
MEA: de terça a domingo e feriados, das 7h às 22h.
O MEA – Memorial da Evolução Agrícola é uma
iniciativa do Ministério da Cultura e do Instituto John Deere, por meio da Lei
Rouanet de Incentivo à Cultura do Programa Nacional de Apoio à Cultura (PRONAC),
e tem como patrocinador master a John Deere Brasil.
Ocupa uma área de 64 mil m² em Horizontina, no Rio
Grande do Sul, proporcionando atividades de arte, cultura, educação, meio
ambiente, esporte e lazer. De forma tecnológica e imersiva, o MEA conta a
história da agricultura brasileira com o objetivo de provocar, trocar e
produzir conhecimento em prol da sociedade e da diversidade cultural e
ambiental. Todas as suas atividades culturais, educativas e de bem-estar são
oferecidas gratuitamente e com classificação livre. Conta com amplo
estacionamento gratuito para os visitantes.
Além do espaço da exposição de longa duração, das
oficinas culturais e das salas multiuso, o complexo tem quadras esportivas,
academia a céu aberto, parquinhos para crianças de até 12 anos, amplo espaço
para práticas ao ar livre, John Deere Store e a unidade Senai Horizontina (RS).
Créditos: Emilene Lopes | Engaje Comunicação
* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de
imprensa
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