O sertão que pouca gente conhece e as mulheres que pranteavam defuntos, por Lita Maria*
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| Foto meramente ilustrativa. |
As carpideiras, mulheres chamadas para acompanhar enterros com choros, cantos e lamentos, não podem ter o seu papel reduzido a “chorar por encomenda”. Fincadas na oralidade, com quase nenhum acesso aos saberes escritos, essas mulheres ajudavam a conduzir os rituais da morte. Não havendo almas para serem encomendadas, as carpideiras, muitas vezes, palmilhavam as redondezas do seu sertão em protagonismos de cura, através de rezas, ensinamentos sobre o manuseio de plantas e benzimentos. Para os males do corpo, as garrafadas, as mezinhas, as beberagens.
Mulheres protagonistas desde o nascimento, pelas
mãos das parteiras ou na hora do passamento, pela goela das carpideiras. No
percurso do meio, a vida escoando em labuta, com elas nos afazeres de trabalhos
de parto, benzendo quebranto, ferida, febre, mau-olhado, espinhela caída e as
dores do corpo e da alma.
As rezas, cuidadosamente ornadas pela
ancestralidade, traziam a pujança da oralidade, da resistência e das memórias!
Fica a pergunta: “Os conhecimentos das carpideiras, das benzedeiras e
raizeiras, nos rituais de morte, foram amplamente preservados? Essas memórias
chegaram aos documentos e registros oficiais?”. Para além do cultivo de
saberes, essas práticas também demarcam formas de pertencimento ao território.
As gotas d’água aspergidas com um raminho de arruda em um benzimento,
cadenciadas pela modulação da voz em uma ladainha proferida baixinho, já
ecoaram em muitos quintais Brasil afora e povoam a memória de muitos
brasileiros e brasileiras.
Em um contexto no qual somente a palavra de um homem
valia, as mulheres precisaram aprender outras maneiras de falar. Uma reza, uma
ladainha ou uma história contada no terreiro, à boca da noite, podiam carregar
e eternizar saberes. E é justamente esse sertão, com as lembranças dos
casamentos impostos, das regras sociais duríssimas sobre as mulheres, com os
seus “costumes” e violências mascaradas em tradição que está em
discussão.
Na literatura, nas páginas dos livros, as vozes das
mulheres do sertão precisam primeiro ser ouvidas, para romper com um sertão
narrado majoritariamente pelas vozes dos homens. Uma história que foi contada
da mesma forma por tempo demais precisa sair de outras goelas, trazendo para
reflexão, quem sabe, em “incelências ou ladainhas literárias”, um sertão e suas
violências legitimadas como tradição.
*Lita Maria é mestra e
doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Tocantins, além de autora dos
romances “A Casa de Todos os Santos”, “O canto da carpideira” e “Sobre Dora e
Dores”, que está em processo de adaptação para o audiovisual.
Agradecimentos: Victória Gearini | LC Agência de Comunicação
** Este conteúdo foi enviado pela assessoria
de imprensa

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