Com 2,6 milhões de brasileiros com dificuldade para ouvir, comunicação vira frente central da acessibilidade *

 

Debate vai além da estrutura física e passa por formação de equipes, linguagem, acesso à informação e experiências culturais planejadas para diferentes formas de participação

No retrato nacional mais recente sobre pessoas com deficiência, divulgado pelo IBGE em 2025 a partir do Censo Demográfico 2022, o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais. Entre elas, 2,6 milhões têm dificuldade permanente para ouvir, mesmo com o uso de aparelhos auditivos.

O dado ajuda a deslocar uma discussão muitas vezes associada apenas à circulação física pelos espaços. Rampas, elevadores e adaptações arquitetônicas seguem fundamentais, mas a acessibilidade também passa por comunicação, linguagem, escuta, atendimento, acesso à informação e formas reais de participação em ambientes de trabalho, serviços e experiências culturais.

Na prática, falar de acessibilidade hoje significa pensar em como uma pessoa recebe uma orientação, compreende um conteúdo, interage com uma equipe, participa de uma atividade ou se reconhece como público de determinado espaço. É nesse deslocamento, da adaptação pontual para o planejamento das relações, que empresas, instituições culturais e projetos públicos vêm sendo desafiados a rever suas práticas.

Comunicação também é acessibilidade
No ambiente corporativo, uma das frentes desse debate está na preparação das equipes para lidar com diferentes formas de comunicação. A Língua Brasileira de Sinais (Libras), reconhecida por lei como meio legal de comunicação e expressão no Brasil desde 2002, é parte central dessa agenda, especialmente quando o objetivo é ampliar o atendimento, a convivência e a autonomia de pessoas surdas.

Em Itabira, a Valenet concluiu as primeiras turmas do Curso Básico de Libras para colaboradores das áreas de Logística e Frota. Ao todo, 35 profissionais participaram da capacitação, criada para ampliar a comunicação com pessoas surdas e preparar as equipes para diferentes situações da rotina de trabalho.

Para Michele Reis, sócia da Valenet, a formação ajuda a aproximar a inclusão das relações diárias. “A acessibilidade também passa pela capacidade das pessoas de se comunicarem, acolherem e compreenderem diferentes realidades. Quando uma empresa investe na formação dos seus colaboradores, ela cria condições para que a inclusão esteja presente nas relações do dia a dia, e não apenas em ações pontuais.”

A iniciativa reforça uma dimensão menos visível da acessibilidade: a preparação das pessoas que recebem, orientam, atendem ou convivem com públicos diversos. Nesse contexto, a formação em Libras deixa de ser apenas um conhecimento complementar e passa a integrar as competências necessárias para uma comunicação mais inclusiva.

Cultura do acesso
Na cultura, o tema também vem ganhando novos contornos. Em junho de 2026, o Ministério da Cultura lançou duas publicações voltadas ao fortalecimento da acessibilidade cultural e da cultura do acesso: o Guia de Leitura Acessível da Convenção sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais e o relatório Mapeamento Acessa Mais. O levantamento reuniu 3.476 cadastros de artistas e profissionais com deficiência e de profissionais que atuam no campo da acessibilidade cultural.

O movimento reforça uma mudança importante: a acessibilidade cultural não se limita à entrada no espaço. Ela envolve mediação, recursos sensoriais, informação acessível, protagonismo de pessoas com deficiência e participação efetiva no encontro com a obra.

É nessa perspectiva que a exposição “Asa de Papel – Marcelo Xavier”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH), apresenta a acessibilidade como parte da concepção da experiência. Com curadoria de Marconi Drummond, a mostra convida o público a mergulhar no universo do multiartista mineiro Marcelo Xavier por meio de instalações imersivas, obras originais, experiências sensoriais e recursos acessíveis concebidos como parte da criação artística.

O projeto reúne experiências táteis, audiodescrição, conteúdos em Libras, textos em Braille, mobiliário acessível, mediações inclusivas, audioguias e dispositivos de interação. A proposta de acessibilidade, desenvolvida pela especialista Luciana Miglio, parte do conceito de “perceber em plural” e entende a experiência cultural como um processo construído por múltiplos sentidos.

Segundo Luciana, os recursos foram pensados desde a origem do projeto. “A acessibilidade e o desenho universal não entraram no projeto como um complemento ou uma adaptação posterior. Eles fizeram parte da concepção da exposição desde o início, transformando a maneira de pensar os acervos, o percurso, a comunicação e a relação do visitante com a mostra.”

A trajetória pessoal de Marcelo Xavier também atravessa a narrativa da exposição. Cadeirante e convivendo há mais de duas décadas com os efeitos da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), o artista transformou sua experiência com a deficiência em uma reflexão sobre autonomia, pertencimento e inclusão.

Do atendimento em Libras à construção de percursos expositivos multissensoriais, a acessibilidade passa a ser tratada como uma dimensão de planejamento. Quando deixa de ser pensada apenas como adaptação final, ela orienta a forma como as pessoas trabalham, visitam, aprendem, se comunicam e participam da vida cotidiana.

SERVIÇO: 
VALENET
Instagram: @valenet_oficial
Site: www.valenet.com.br

Asa de Papel - Marcelo Xavier
Local: Galerias do Térreo – Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH)
Período: 1° de julho a 12 de outubro de 2026
Horários: Quarta-feira a segunda-feira, das 10h às 22h
Endereço: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários, Belo Horizonte
Classificação: Livre
Entrada: Gratuita, mediante retirada de ingresso pelo site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH
Instagram: @ccbbbh Facebook: /ccbbbh

Créditos: Gabriela Pacheco | Romano Comunicação

* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de imprensa

 

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