Para além da última página, eles permanecem entre nós, por Midian Rebeca Justino de Araújo*
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| Foto meramente ilustrativa. |
Porque a voz do escritor continua sendo resistência àquilo que ameaça nossa humanidade.
Há livros que terminam na última página. Outros,
porém, continuam nos lendo muito tempo depois que fechamos a capa. Permanecem
em nossa memória por meio de personagens, versos, silêncios e perguntas que
insistem em nos acompanhar quando a leitura já terminou. Talvez seja justamente
essa a marca dos grandes escritores: fazer com que a literatura deixe de ser
apenas uma história para tornar-se uma experiência capaz de transformar a
maneira como olhamos para o mundo e para nós mesmos.
Celebrar o Dia Nacional do Escritor é, portanto,
muito mais do que recordar nomes consagrados ou homenagear datas. É reconhecer
homens e mulheres que transformaram a palavra em um lugar de encontro entre
diferentes gerações. Em tempos marcados pela velocidade das informações, pelo excesso
de opiniões e pela superficialidade das relações, revisitar nossos escritores
talvez seja também um gesto de resistência. Afinal, há vozes que continuam
atravessando o tempo porque jamais escreveram apenas para a sua época.
Poucos autores brasileiros realizam esse encontro
com tanta profundidade quanto Machado de Assis. Em Dom Casmurro, acompanhamos
Bentinho enquanto seus olhos seguem Capitu descendo lentamente a escada. A cena
poderia passar despercebida, não fosse a delicadeza com que Machado transforma
um simples olhar em uma das imagens mais inesquecíveis da literatura
brasileira. Os célebres “olhos de ressaca” não descrevem apenas uma personagem;
arrastam o próprio leitor para dentro da narrativa. Quem lê já não observa Capitu
apenas pelos olhos de Bentinho, mas também pelos do próprio autor, que parece
conhecer como poucos as ambiguidades da alma humana. Não é apenas uma
‘leitura’. É a demonstração de até onde a linguagem pode alcançar quando
encontra um escritor capaz de transformar palavras em experiência.
Essa mesma capacidade de tocar o indizível aparece
na poesia de Cecília Meireles. Em Romanceiro da Inconfidência, ela escreve:
“Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que
explique, e ninguém que não entenda.” Há versos que dispensam qualquer
tentativa de explicação. Cecília não define a liberdade; ela a faz pulsar
diante do leitor. Seus poemas nos lembram que algumas verdades não são
compreendidas apenas pela razão. Antes de serem entendidas, precisam ser
sentidas. Talvez seja por isso que sua poesia permaneça tão atual: ela continua
encontrando leitores que reconhecem, em seus versos, inquietações que pertencem
a todas as épocas.
Nossa literatura é generosa nesse encontro entre
arte e humanidade. Ariano Suassuna transformou o sertão em um espaço onde
convivem humor, sofrimento, fé e esperança. Em O Auto da Compadecida, cada
personagem revela que a dignidade humana não nasce da ausência das
dificuldades, mas da extraordinária capacidade de reinventar-se diante delas.
Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Graciliano
Ramos, Érico Veríssimo e tantos outros também ampliaram nosso modo de
compreender o Brasil, revelando que a literatura não apenas registra uma
cultura, mas preserva sua memória, suas dores e seus sonhos.
Pode-se observar que os grandes escritores não
permanecem entre nós porque seus nomes figuram em monumentos, currículos
escolares ou listas de leitura obrigatória. Permanecem porque continuam
encontrando leitores dispostos a dialogar com suas obras. Cada nova leitura
renova a vida de um texto, atribui novos sentidos às palavras e confirma que a
literatura jamais pertence exclusivamente ao passado.
Celebrar o Dia Nacional do Escritor é, acima de
tudo, aceitar esse convite. Em um mundo que frequentemente nos ensina a
consumir informações com rapidez, os grandes escritores nos recordam a beleza
de permanecer, contemplar e pensar. Talvez o maior tributo que possamos prestar
à literatura brasileira não seja apenas homenagear seus autores, mas abrir
novamente seus livros. Porque, para além da última página, eles permanecem
entre nós. Permanecem sempre que um verso nos emociona, que uma personagem nos
transforma ou que uma história nos faz compreender, com mais profundidade,
aquilo que significa ser humano.
* Midian Rebeca Justino de Araújo é Licenciada em Letras (Português/Espanhol), mestranda em
Educação, professora de Língua Portuguesa, Literatura e Produção Textual.
Créditos: Midian Rebeca Justino de Araújo
** Este conteúdo foi enviado pela assessoria
de imprensa

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