Mariana Enriquez abriu a porta, eu entrei por ela: horror, gordura e memória *
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| Foto meramente ilustrativa. |
Na estreia na ficção com O
que se move não precisa ser nomeado, reflito sobre como o horror e o realismo
mágico latino-americano podem revelar as violências contra mulheres e pessoas
gordas que o real
Depois de anos escrevendo jornalismo, crônica, ensaio e, mais recentemente, a autoficção radical de Porca Gorda, percebi que havia uma violência que já não cabia na linguagem do real. A violência cotidiana contra mulheres e pessoas gordas é tão naturalizada que, quando a descrevemos de maneira objetiva, ela frequentemente parece banal. Como se fosse apenas mais um dia.
Mas não é, é monstruosa.
Foi dessa inquietação que nasceu O que se move não precisa ser nomeado, minha estreia na ficção, lançada durante a Flip como parte da coleção Papéis Selvagens, organizada por Janaina Tokitaka. A coleção reúne cinco escritoras que investigam os encontros entre mulheres e animais, criando narrativas em que o cotidiano se abre ao estranho e o selvagem deixa de estar na floresta para atravessar os corpos, as memórias e as relações de poder.
Escrever esse conto me levou a um lugar onde a
lógica já não era suficiente. Descobri que precisava do horror e do realismo
mágico latino-americano para falar de violências que o realismo já não
conseguia alcançar.
Foi lendo escritoras como Mariana Enriquez, María
Fernanda Ampuero e Carmen Maria Machado que
compreendi que o horror não inventa monstros. Ele apenas revela aqueles que
sempre estiveram entre nós.
Durante muito tempo, mulheres gordas foram tratadas
como monstruosas. Comparadas a animais. Transformadas em excesso, em erro, em
algo que precisava ser corrigido. Em vez de fugir dessa imagem, decidi
devolvê-la à literatura, mas em meus próprios termos.
Em O que se move não precisa ser nomeado,
a porca deixa de ser insulto para tornar-se potência. A monstruosidade muda de
lado. A pergunta deixa de ser “quem é o monstro?” para se tornar “quem produz o
horror?”.
Compartilho esse percurso: como a autoficção me
levou ao horror, por que acredito que algumas violências só podem ser narradas
quando abandonamos a obrigação de sermos realistas e como escritoras
latino-americanas vêm reinventando o fantástico para falar de feminicídio,
memória, trauma, desejo e sobrevivência.
Penso sobre o que acontece quando o corpo deixa de
ser apenas personagem para se tornar território. Quando a gordura deixa de ser
uma característica física e passa a ser linguagem. Quando a monstruosidade
deixa de ser uma condenação para se transformar em uma possibilidade de
resistência.
Quero conversar sobre essa geração de escritoras que
me atravessou profundamente e que vem deslocando o horror de um lugar de
entretenimento para um lugar de denúncia, elaboração e imaginação política.
Mulheres que escrevem sobre casas assombradas, animais, fantasmas, monstros e
cidades em ruínas, mas que, na verdade, estão escrevendo sobre os nossos
países, sobre violência de gênero, colonialismo, desigualdade, racismo, pobreza
e sobre aquilo que insistimos em chamar de cotidiano.
Porque talvez o horror nunca tenha sido um gênero
sobre o sobrenatural. Talvez ele seja, antes de tudo, uma forma de revelar
aquilo que aprendemos a normalizar.
É por isso que, em O que se move não precisa
ser nomeado, a porca deixa de ser insulto para tornar-se potência. A água
guarda memórias. A lama devolve aquilo que foi soterrado. Os corpos carregam
histórias que antecedem a linguagem. E o fantástico não aparece para nos
afastar da realidade, mas para nos obrigar a olhá-la de outro lugar.
No fim das contas, escrever horror, para mim, é um
gesto profundamente político. É recusar a ideia de que certas violências são
inevitáveis ou naturais. É devolver estranhamento ao que a sociedade insiste em
tratar como banal. É transformar em literatura aquilo que tentaram transformar
em silêncio.
Talvez seja essa a tarefa da ficção hoje: inventar
novas linguagens para nomear o que ainda não conseguimos dizer e criar imagens
capazes de romper o pacto de normalidade que sustenta tantas formas de
opressão.
No fim, escrever horror é olhar para um mundo que
insiste em chamar de cotidiano aquilo que sempre foi aterrorizante - e devolver
o medo para quem, durante tanto tempo, acreditou que ele pertencia apenas aos
nossos corpos.
Há
alguns anos, quando comecei a escrever Porca Gorda, uma das minhas maiores inquietações era
perceber como havia tão poucos livros que tratassem a gordofobia como
estrutura, e não apenas como experiência individual. Eu sabia que a minha
escrita partia da memória, da literatura e da autoficção. Mas também sabia que
essa conversa precisava ser maior do que eu.
Por isso, encontrar o trabalho da Néli Simioni foi, para
mim, um desses momentos em que a pesquisa acadêmica e a literatura se encontram
para abrir caminhos.
Tornar-se gorda nos
oferece ferramentas para compreender como a gordofobia foi construída
socialmente e como ela atravessa discursos, instituições, afetos e o cotidiano.
Néli faz aquilo que considero fundamental: ela desmonta a ideia de que a
violência contra corpos gordos é apenas uma sucessão de episódios isolados. Ela
demonstra que estamos falando de um sistema que organiza quem merece cuidado,
desejo, respeito e humanidade.
É bonito perceber que chegamos à Flip por caminhos diferentes,
mas movidas por perguntas muito parecidas. Ela, pelo ensaio, eu pela
autoficção. Ambas tentando disputar as narrativas sobre os nossos corpos.
A programação paralela da Flip reúne nossos livros justamente
porque eles se complementam. Enquanto eu transformo lembranças, vergonha,
desejo e violência em literatura, Néli oferece uma leitura crítica que ajuda a
entender por que essas experiências se repetem tantas vezes na vida de pessoas
gordas.
Tenho dito que a literatura pode mudar a maneira como olhamos
para nós mesmos. A pesquisa também, e quando elas caminham juntas, algo muito
potente acontece.
Não estamos apenas contando histórias sobre corpos gordos.
Estamos construindo repertório para que esses corpos deixem de ser lidos apenas
pelo preconceito.
Também me emociona dividir esse momento com a Néli porque nossa
parceria vai além dos livros. Juntas, criamos o Clube do Livro Meu Corpo Sou Eu,
um espaço onde leitura, escuta e experiência caminham lado a lado. É um lugar
em que percebemos, a cada encontro, que os livros não encerram uma conversa -
eles a inauguram.
Levar essa discussão para Paraty tem um significado enorme. A
Flip é um espaço de circulação de ideias, de encontros e de disputas de
imaginário. Fazer com que a gordofobia ocupe esse território, seja pela
literatura, seja pela pesquisa, significa afirmar que nossos corpos também
produzem conhecimento, pensamento e arte.
Espero que quem passe por nossas mesas e lançamentos saia com
mais perguntas do que respostas.
Porque, para mim, é exatamente isso que um bom livro faz: não
entrega certezas, mas muda a maneira como enxergamos o mundo - e, às vezes, a
maneira como enxergamos o próprio corpo.
Disponível no site da editora, Amazon e em livrarias parceiras.
Aprender
com as margens também é uma forma de imaginar outros mundos
Há uma pergunta que me acompanha há muito tempo e que atravessa
quase tudo o que escrevo, leio e faço: quem pode ser chamado de mestre?
O que me interessa nesse livro não é apenas o percurso
geográfico, mas o deslocamento político, porque reconhecer um mestre também é
decidir quem merece ser ouvido e essa é uma das disputas mais importantes do
nosso tempo.
Tenho pensado muito que a literatura pode ampliar o mundo
justamente quando nos obriga a desaprender certezas. Quando deixa de procurar
respostas apenas nos lugares legitimados e passa a escutar quem construiu
inteligência a partir da experiência, da sobrevivência, do cuidado e da
coletividade. É exatamente isso que Giselle faz.
Ela nos convida a abandonar a ideia de que conhecimento é
sinônimo de diploma e nos apresenta agricultores, educadoras populares,
lideranças comunitárias, mulheres das periferias e pessoas que, mesmo longe dos
centros de poder, vêm produzindo respostas para algumas das maiores crises do
nosso tempo.
Num momento em que discutimos emergência climática, desigualdade,
fome, racismo e colapso democrático, talvez a pergunta mais urgente deixe de
ser “quem
sabe?” e passe a ser “por que continuamos ignorando
quem sabe?”
Nesta conversa, quero partir do livro da Giselle para pensar
justamente isso: como podemos reaprender a olhar para as margens não como
lugares de ausência, mas como territórios de invenção, de inteligência coletiva
e de futuro.
Porque talvez as respostas que tanto procuramos nunca tenham
estado no centro.
Talvez elas sempre tenham vivido nas quebradas, nas comunidades,
nos quintais, nas roças, nos terreiros e nas pessoas que seguimos chamando de
periféricas, quando, na verdade, são elas que continuam ensinando outras formas
de habitar o mundo.
É esse convite que Mestres das Kebradas nos faz. E é sobre ele
que quero conversar.
SERVIÇO
Livro: Mestres das Kebradas – uma reportagem poética sobre aprender com
as margens
Autora: Giselle
Paulino
Editora: Jandaíra
Lançamento
nacional: durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), entre 22 e 26 de julho.
Link: https://www.editorajandaira. com.br/humanidades/mestres- das-kebradas-uma-reportagem- poetica-sobre-aprender-com-as- margens
A literatura nunca
mudou o mundo sozinha: mas nunca deixou de tentar
Mais do que um festival, o Rabiscos é um encontro de ideias,
literatura e afeto. Agora, precisamos da ajuda de quem acredita que a cultura
pode transformar pessoas e cidades
Tem
uma frase que me acompanha há anos: a literatura não serve para fugir da
realidade. Ela serve para voltar para ela diferente. Foi acreditando nisso que
nasceu o Rabiscos – A Festa.
Todo ano alguém me pergunta por que insistimos em fazer um
festival literário em Poços de Caldas (MG). A resposta nunca foi tão simples
quanto “porque gostamos de livros”.
Em 2026, nossa festa vai ocupar a Mostra Integrada de Artes
(MIA) nas ruas de Poços de Caldas, nos dias 20 e 22 de agosto. Juntos, vamos
levar literatura, pensamento crítico, arte, música e presença coletiva para os
espaços públicos do centro da cidade, ocupando estes locais com corpos que até
então não atravessavam o corpo turístico e hostil do município.
O Rabiscos nasceu para ser um lugar de encontros. Entre
escritores e leitores. Entre artistas e estudantes. Entre quem já frequenta a
literatura e quem talvez esteja entrando em contato com ela pela primeira vez.
É por isso que nossa programação nunca se resume a lançamentos
de livros. O Rabiscos reúne mesas literárias, shows, oficinas, conversas,
sessões de autógrafos, atividades para crianças, podcasts ao vivo e encontros
que atravessam a literatura para falar do mundo em que vivemos. Um festival
onde a palavra encontra a música, o pensamento, a arte e as pessoas. Um espaço
gratuito e aberto para que diferentes vozes possam ocupar a cidade. Este ano
queremos ir além.
Queremos realizar uma série de conversas sobre as urgências do
nosso tempo. Democracia, inteligência artificial, mudanças climáticas, direitos
humanos, cultura, desinformação e os desafios que atravessam o presente. A
ideia é reunir pessoas de diferentes áreas para pensar, em conjunto, o que
fazemos diante de um mundo que parece exigir respostas todos os dias.
Acreditamos que a literatura não serve apenas para contar
histórias. Ela também nos ajuda a formular perguntas melhores.
Mas tudo isso só acontece porque existe uma comunidade que
acredita junto, é por isso que lançamos a nossa campanha de financiamento
coletivo.
Quando você faz uma doação, não está apenas ajudando a realizar
um evento. Está garantindo que estudantes possam participar gratuitamente, que
autores independentes encontrem seus leitores, que artistas ocupem os palcos da
cidade e que conversas importantes aconteçam fora dos grandes centros.
Está dizendo que Poços de Caldas merece estar no mapa dos
grandes encontros literários do país e que a cultura continua sendo uma das
formas mais bonitas de imaginar outros futuros.
Se você acredita nisso tanto quanto nós, peço que caminhe
ao nosso lado.
Cada contribuição faz diferença, cada compartilhamento também,
porque o Rabiscos nunca foi construído por uma única pessoa, ele sempre foi
feito por uma comunidade inteira.
Se puder apoiar, acesse nossa campanha e ajude a tornar esta
edição possível. Porque nenhum festival é feito apenas por quem sobe ao palco.
Ele é construído, sobretudo, por quem acredita que vale a pena
continuar criando espaços onde a palavra ainda pode mudar alguma coisa.
Nos encontramos no Rabiscos.
Créditos: Jéssica Balbino
* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de imprensa

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