Camisa de Vênus: 40 anos de "Viva"
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| "Viva", o primeiro disco ao vivo do Camisa de Vênus, completa 40 anos de lançamento em 2026. |
Neste mês de julho, outro grande álbum ao vivo completa 40 anos. O disco em questão é o “Viva”, o primeiro disco ao vivo do grupo baiano Camisa de Vênus. Produzido por Pena Schmidt e pela banda, o registro foi lançado pela RGE. O álbum foi realizado como forma de encerrar o contrato que os músicos tinham com a RGE, conforme ficou acordado com o que viria ser a nova gravadora deles, a WEA.
O
disco foi um dos primeiros a conter palavrões e imperfeições técnicas, como
microfonia, gritos do público, instrumentos mal tocados, enfim, sem overdubs,
enfim, um “disco ao vivo, ao vivo” mesmo, sem truques de alteração na mixagem,
enfim, o registro de um show “nu e cru”.
No
ano anterior ao lançamento do álbum, houve a redemocratização do Brasil, e,
como Marcelo Nova já tinha experiência em ter suas músicas censuradas, ele
aproveitou do novo momento político que o país vivia e não enviou o registro à
apreciação da Censura. Todavia, o álbum foi lançado em meados de 1986, e já
havia mais de 40 mil cópias vendidas, quando foi recolhido pela Polícia Federal
por ordens da Censura. Marceleza mesmo testemunhara a ação da PF enquanto
visitava uma loja de discos em São Paulo.
Após
este incidente, o play teve oito de suas dez músicas censuradas por trazerem
“linguagem inapropriada”. Todavia, embora a proibição de sua execução
radiofônica e, possivelmente, por conta do impulso obtido com as notícias de
censura ao álbum, as vendas alavancaram e chegou a marca de 180 mil cópias
vendidas, o que fez de “Viva”,
o segundo disco ao vivo mais vendido do rock nacional, perdendo apenas para “Rádio Pirata Ao Vivo”,
do RPM, que foi lançado no mesmo ano.
O
álbum foi gravado ao vivo no Caiçara Music Hall, em Santos (SP), em 8 de março
de 1986. Além dos sucessos do grupo lançado até à época, o registro traz ainda
cinco músicas não lançadas nos trabalhos anteriores até então. São elas: “Homem Forte”, “Solução Final”,
“Rotina”, “My Way” e “Silvia”.
O
show começa de forma avassaladora com a banda tocando a clássica “Eu Não Matei Joana D’Arc”,
seguida de “Hoje”,
música que trata em seu tema a loucura da vida nas grandes cidades. Em seguida,
aparecem as inéditas citadas exatamente na mesma ordem que aparecem no
parágrafo acima, sendo que “Bete
Morreu”, outro clássico, interrompe a sequência, entre “My Way” que,
aliás, deixou bem claro a interação entre público e banda, nessa versão
recheada de palavrões do clássico consagrado de Frank Sinatra.
E,
como o concerto foi gravado no Dia Internacional da Mulher, Marcelo Nova faz o
seguinte discurso anárquico antes de mandarem “Silvia”: “Hoje tem um monte de mulher na plateia. Hoje é o dia internacional
da mulher e nós queremos aproveitar a oportunidade… porque o Camisa de Vênus
tem sido acusado de ser uma banda machista, mas não é nada disso. Na verdade, o
Camisa de Vênus é a única banda heterossexual do planeta… e, então, a gente não
podia deixar de dizer que nós amamos as mulheres. Sem vocês, nós não viveríamos
em hipótese alguma. Inclusive, eu acho que o mundo só vai concertar o dia que a
mulher tomar o poder, tem mais tato, sensibilidade, tem mais carinho. Bem,
agora que eu já enchi o ego de vocês, podem arriar as calçolinhas e vamos lá”.
Aí, vem a música que também teve a colaboração do público que, a cada vez que a
protagonista-tema era citada por Marceleza, respondia “piranha!”.
E,
para finalizar, “Metástase”,
faixa do primeiro disco de 1983, e “O Adventista”, com mais uma participação dos fãs
ensandecidos trocando o refrão de “não vai haver amor nesse mundo nunca mais” por “não vai haver amor nessa porra
nunca mais”, enquanto isso, o vocalista se deita no palco e começa
a rezar o Pai Nosso. Que desfecho.
Anos
mais tarde, em 1992, o disco foi relançado no formato em CD, porém, sem a faixa
“Rotina” e sem o
discurso de Marcelo Nova antes de “Silvia”. Em vez disso, foram adicionadas como
bônus músicas de estúdio dos dois primeiros álbuns da banda. O que,
particularmente acredito, foi um erro por parte da gravadora, que poderia ter
mantido o show na íntegra e complementar com as versões ao vivo de outros
clássicos que ficaram de fora do vinil em virtude de sua limitação de tempo
(cerca de 35 minutos).
Em
“Viva”, podemos
notar o rock and roll em sua essência. Pois, tudo ali é genuinamente autêntico.
Um público fiel e frenético até o fim, diferentemente de hoje, em que há uma
plateia paradona e que anda mais preocupada em tirar foto e filmar do que
curtir o espetáculo de fato. O show de 1986 trata-se um rock sem frescura,
público inspirado e banda idem.
Pelo
feito, o Camisa de Vênus merece todas as honras. Afinal, o público que o grupo
formou foi conquistado através de seus incendiários shows, uma vez que a banda enfrentou
muita rejeição por parte das rádios, da TV e da imprensa como um todo. Boa
parte disso se deve ao nome da banda que, para os mais leigos, Camisa de Vênus
significa camisinha. Mas, naquela época, em que a sociedade era mais
conservadora do que hoje, o termo era considerado um palavrão, conforme Marcelo
Nova sabiamente cantarolou em “Rock And Roll” (música do álbum “A Panela do Diabo”,
lançado em parceria com Raul Seixas em 1989): “eu não podia aparecer na televisão porque a banda era nome de
palavrão”. Além disso, as declarações ácidas de seu vocalista
também não colaboravam muito para a popularidade do grupo perante as massas.
Com a fidelidade de seus fãs, que iam aos shows, sabiam todas as músicas e
embalavam a banda com o famoso bordão “bota pra fudê!”, o Camisa de Vênus chegou ao patamar
das grandes bandas brasileiras por méritos próprios, sem ajuda da mídia e sem
se render “ao sistema”.
Para
quem gosta de rock nacional e não faz “mimimi”, esse registro é obrigatório na
coleção (isso se você conseguir achar o álbum, já que ele se tornou produto
raro).
A
seguir, a ficha técnica (versões LP e CD) e o tracklist do play.
Por
Jorge Almeida

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