A herança que a Copa deixou em casa: como explicar as bets para os filhos *

 

Foto meramente ilustrativa.

"Durante a Copa do Mundo, a Caru, inteligência artificial voltada para mães, saltou de menos de 10 consultas por mês para cerca de 100 por dia sobre apostas. Por trás do número, uma pergunta que pegou as famílias de surpresa: como falar de bet com uma criança de 7 anos sem acender a curiosidade de apostar?

São Paulo, julho de 2026 - A pergunta chegou no meio de um jogo. O filho de 9 anos, que tinha acabado de descobrir o futebol pela televisão, apontou para a tela no intervalo e quis saber por que aquele jogador famoso estava pedindo para todo mundo entrar em um site e apostar. A mãe travou. Não sabia se explicava, se mudava de assunto ou se desligava a TV.

Cenas como essa se multiplicaram nas últimas semanas. A Caru, inteligência artificial brasileira criada para apoiar mães na vida real, registrou durante as transmissões da Copa do Mundo uma média de 100 consultas por dia sobre apostas e crianças. Antes do torneio, o tema não passava de 10 consultas por mês. O salto revela menos uma modinha do que uma lacuna: a maioria dos pais não tem repertório pronto para esse assunto.

A Copa funcionou como porta de entrada de muita criança no universo do futebol. E, no pacote, veio a publicidade das casas de apostas, que dominou intervalos, placas de estádio, transmissões alternativas e o feed dos influenciadores que os filhos acompanham. Em junho, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) abriu investigação para apurar possíveis irregularidades na divulgação de bets durante transmissões da Copa na CazéTV, e o Conar chegou a recomendar, em caráter liminar, a suspensão de anúncios exibidos na plataforma.

Por que o assunto é maior do que parece
Os dados ajudam a dimensionar a preocupação. O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), que ouviu mais de 16 mil pessoas, apontou que 10,5% dos adolescentes brasileiros de 14 a 17 anos apostaram dinheiro no último ano. Entre meninos de 16 e 17 anos, o índice chega a 20%. Mais grave do que a prevalência é o perfil de risco: 55,2% dos adolescentes que apostaram já apresentam sinais de jogo de risco ou jogo problemático, contra 38,8% entre os adultos apostadores.

Uma pesquisa Ipsos encomendada pela Unico, com 1.200 jovens de 10 a 17 anos, encontrou resultado parecido: 11% apostaram em 2025. E revelou o gatilho principal, aquele que interessa diretamente a quem cria filhos. A curiosidade foi apontada por 41% dos entrevistados como o motivo de ter chegado às apostas, à frente da promessa de dinheiro fácil, com 34%. É exatamente por isso que a forma de explicar importa tanto quanto o ato de explicar.

Na infância e na adolescência, o núcleo accumbens, ligado ao prazer e à dopamina, funciona a todo vapor, enquanto o córtex pré-frontal, responsável por controlar impulsos e avaliar riscos, ainda não está completamente desenvolvido. Quando a aposta se apoia em algo que a criança ama, como o futebol, cria-se uma falsa sensação de controle, a ideia de que é possível prever resultados. Especialistas em psiquiatria da infância e da adolescência alertam que o contato precoce com esse mecanismo aumenta o risco de desenvolver, mais tarde, um transtorno relacionado ao jogo. O hábito não nasce pronto na vida adulta. Ele se ensaia antes, em pequenas doses, quando o comportamento ainda está sendo aprendido.

A lei mudou. O jogo de futebol, não
Do lado da regulação, o cerco apertou. Desde 17 de julho valem as regras das Portarias Interministerial nº 73/2026 e SPA/MF nº 1.964/2026, que consideram abusiva a publicidade de apostas dirigida, direta ou indiretamente, a crianças e adolescentes. A vedação inclui campanhas com imagem de menores de 18 anos, elementos especialmente atrativos a esse público ou divulgação em ambientes predominantemente frequentados por eles. Toda peça passa a exibir uma advertência do Ministério da Fazenda, ocupando pelo menos 10% do espaço do anúncio, com frases como "Apostar pode causar dependência" e "Aposta não é investimento". Lojas de aplicativos, sistemas operacionais e redes sociais também passam a ter obrigação de barrar esse conteúdo em contas de menores de 18 anos.

Só que existe um ponto cego, e ele é grande. Uma transmissão de futebol não tem classificação indicativa restritiva. É conteúdo livre, familiar, assistido em grupo, muitas vezes com os avós na sala. A publicidade que aparece ali não está tecnicamente dirigida à criança, mas chega até ela do mesmo jeito, com a voz de um jogador que o filho tem no pôster do quarto ou de um influenciador que ele vê todo dia em diversas plataformas, ainda que ele só acesse os conteúdos de maneira supervisionada. É esse detalhe que transforma a conversa em casa na única barreira realmente disponível para a família.

O que a busca das mães revelou
Na Caru, o volume repentino de perguntas obrigou a plataforma a rever a própria forma de responder. Não bastava informar o que é uma bet. Era preciso responder sem transformar a explicação em propaganda involuntária.

“Quando a mesma pergunta chega cem vezes por dia, ela deixa de ser dúvida individual e vira sintoma coletivo. Percebemos que uma resposta correta, mas mal calibrada, poderia despertar exatamente a curiosidade que a mãe estava tentando evitar. Por isso passamos a alimentar a base da Caru com teses acadêmicas e literatura de profissionais de saúde mental e do comportamento, para ajustar a sensibilidade das respostas por faixa etária” Daniela Seibel, CEO da Canguru e idealizadora da Caru 

O ajuste mudou o desenho das respostas. Em vez de descrever mecânica de aposta, odds ou funcionamento de plataforma, a IA passou a devolver às mães roteiros de conversa organizados por idade, com foco em risco, dinheiro e senso crítico sobre publicidade. E passou a evitar, de forma deliberada, qualquer detalhe operacional que pudesse funcionar como manual.

COMO EXPLICAR O QUE É UMA BET, POR FAIXA ETÁRIA
De 7 a 10 anos. Use a lógica do jogo justo, que essa idade domina bem. Explique que existem empresas que ganham dinheiro pedindo para as pessoas adivinharem resultados e que elas só existem porque, no fim, quase todo mundo perde. Vale a comparação: é como um jogo em que a regra já foi feita para você não vencer. Evite números, valores e nomes de plataformas.

De 11 a 13 anos. Aqui entra a leitura de publicidade. Pergunte quem está pagando aquele anúncio e por quê. Explique que o jogador ou o influenciador recebeu para falar aquilo, que ele não mostra o dinheiro que perdeu e que ninguém publica o prejuízo. É a fase de treinar a pergunta "quem ganha com isso?" diante de qualquer conteúdo.

De 14 a 16 anos. Fale abertamente de risco, dívida e dependência, sem sermão e sem drama. Traga os dados: mais da metade dos adolescentes que apostam já apresenta sinal de comportamento de risco. Combine também o acordo prático da casa, incluindo o uso do CPF de adultos, prática comum para burlar a verificação de idade.

Em qualquer idade. Não faça da conversa um evento solene. Aproveite o gancho natural, como o intervalo do jogo, e responda com naturalidade. Silêncio e proibição sem explicação costumam aumentar o interesse.

Da sala de estar para a sala de aula
Há consenso entre especialistas de que a conversa não pode terminar no sofá. O tema atravessa educação financeira, alfabetização midiática e saúde mental, três frentes que hoje aparecem de forma dispersa no cotidiano escolar.

“A casa não dá conta sozinha, porque a exposição não acontece só em casa. Esse assunto precisa chegar à escola, à consulta pediátrica e à formação de professores, com a mesma naturalidade com que hoje falamos de bullying ou de tempo de tela. Nosso papel é apoiar quem cuida, mas a proteção real só acontece quando pais, educadores e profissionais de saúde falam a mesma língua”

Daniela Seibel, CEO da Canguru e idealizadora da Caru 
Enquanto isso, a recomendação prática é mais simples do que parece. Assistir junto, comentar o anúncio em voz alta, nomear o que está acontecendo. A criança que ouve um adulto dizer "esse aí está sendo pago para falar isso" aprende, no mesmo intervalo do jogo, a primeira lição de defesa contra um mercado que se tornou parte da paisagem do futebol brasileiro.

Fontes utilizadas 
·  LENAD III (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas), Unifesp e Ministério da Justiça e Segurança Pública: 10,5% dos adolescentes de 14 a 17 anos apostaram no último ano; 55,2% dos que apostaram apresentam sinais de jogo de risco ou problemático. 
·  Ipsos, encomendada pela Unico, com 1.200 jovens de 10 a 17 anos: 11% apostaram em 2025; curiosidade (41%) e dinheiro fácil (34%) como principais motivadores. 
·  Portaria Interministerial MF/Secom/MJSP nº 73/2026 e Portaria SPA/MF nº 1.964/2026, em vigor desde 17 de julho de 2026. 
·  Lei nº 14.790/2023, marco regulatório das apostas de quota fixa, e decisão do STF de 2024 que suspendeu publicidade de bets dirigida a crianças e adolescentes. 
·  Senacon: investigação aberta em junho de 2026 sobre divulgação de bets em transmissões da Copa na CazéTV. Conar: recomendação liminar de suspensão de anúncios. 
·  Hospital Pequeno Príncipe e literatura de neurodesenvolvimento: maturação do córtex pré-frontal e papel do núcleo accumbens na vulnerabilidade de crianças e adolescentes.

Créditos: Emília Rebelo | AMB Comunicação

* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de imprensa

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