Tocar violino na vida adulta pode ajudar no bem-estar? Veja o que dizem os estudos *
Interesse por atividades que exigem foco e
concentração cresce entre adultos; pesquisas associam prática musical a ganhos
de humor, cognição e conexão social, mas sem substituir tratamento
A busca por atividades que ajudem a desacelerar a
rotina colocou a música no radar de muitos adultos. O movimento aparece em um
momento de maior atenção à saúde mental no país. Neste ano, o Ministério da
Saúde iniciou a coleta da primeira Pesquisa Nacional de Saúde Mental do Brasil,
voltada a mapear a ocorrência de transtornos mentais e o acesso aos serviços de
saúde. Já o Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas Não
Transmissíveis em Tempos de Pandemia (Covitel) 2023 estimou que 26,8% dos
brasileiros tinham diagnóstico de ansiedade no primeiro trimestre daquele ano.
Entre os mais jovens, de 18 a 24 anos, a prevalência chegou a 31,6%.
Os reflexos desse cenário também aparecem no
trabalho. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por
incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais, alta de
15,66% em relação a 2024. Dentro desse grupo, os maiores volumes vieram de
outros transtornos ansiosos e de episódios depressivos, que lideraram as
concessões tanto em 2024 quanto em 2025.
Instrumentos antes vistos como distantes da vida
adulta passaram, então, a ganhar outro lugar. O violino é um desses casos. Por
muito tempo ligado à formação infantil e ao ensino clássico, ele aparece agora
também como escolha de quem procura concentração, disciplina e um aprendizado
fora da lógica automática da rotina digital.
A relação entre música e saúde não é nova, mas
ganhou base mais sólida nos últimos anos. Em relatório publicado em 2019, a
Organização Mundial da Saúde (OMS) reuniu resultados de mais de 3 mil estudos e
concluiu que as artes têm papel relevante na promoção da saúde, na prevenção de
agravos e no manejo e tratamento de doenças ao longo da vida.
Quando o recorte vai para as atividades musicais, a
direção é parecida. Uma revisão de escopo publicada em 2021 na Frontiers
in Psychology apontou que tocar um instrumento esteve associado a
melhora de saúde cognitiva e bem-estar em diferentes grupos, com efeitos
relacionados a humor, cognição, processos motores e interação social. O mesmo
trabalho observou que atividades musicais podem atuar por mecanismos
psicossociais como conexão, identidade e regulação emocional.
Para o violinista Arthur Lauton, que hoje ensina
iniciantes adultos, parte da procura vem de pessoas que sempre quiseram tocar,
mas adiaram esse plano por trabalho, falta de tempo ou pela ideia de que já
seria tarde para começar. Segundo ele, muitos interessados já têm o instrumento
em casa, mas não conseguem sair do básico. “Nas primeiras aulas de
violino é impossível tocar uma música sequer. Quem está começando passa muitas
vezes meses só para aprender a passar o arco nas cordas e produzir um som mais
decente”, afirma.
Lauton conta que já viu casos emocionantes, em que o
violino foi importante até mesmo para amenizar o sofrimento e motivar em casos
de problemas de saúde. Um deles é o de Lucia Warizaya, 70 anos, aluna que
começou a aprender violino em novembro de 2022. Segundo ele, Lucia, que luta
contra o câncer desde 2008, participou de um evento beneficente voltado à
arrecadação de recursos para exames de mamografia e papanicolau em mulheres
carentes e encerrou a programação tocando violino. “Fui convidada a
desfilar, já que sou sobrevivente, lutando contra o câncer. No final do
desfile, a cereja do bolo foi eu desfilar e tocar violino”, escreveu.
Arthur afirma ainda que Lucia costuma resumir sua trajetória em três pilares:
fé em Deus, poesia e violino.
A barreira técnica, diz Arthur, aparece logo no
início. Sem teclas ou trastes que indiquem a nota, o instrumento exige precisão
auditiva e controle corporal desde as primeiras tentativas. O violinista também
observa que o ensino para esse público precisa partir de uma lógica de
aprendizagem adulta, e não repetir modelos pensados para crianças, ponto que
ele associa à diferença entre pedagogia e andragogia.
“No piano, a nota está ali o tempo todo. Se você
apertou, é aquela nota. No violão, se colocou o dedo na casa certa, vai estar
afinado. No violino, se você coloca um milímetro para o lado, desafinou”.
Para Lauton, o ponto central está em ajustar a
expectativa de quem começa mais tarde. O foco, diz ele, não é formar músicos
profissionais, mas ajudar adultos a aprender com método e constância. “Não
existe pílula mágica. Tem que pegar o violino, fazer os exercícios e seguir o
passo a passo. Com 20 minutos por dia, em quatro ou cinco meses a pessoa já
toca alguma coisa. Com um ou dois anos, já começa a ler e tocar outras músicas
que gosta”, afirma.
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Quem é Arthur Lauton?
Formado pelas universidades USP e UFBA, estudou com mestres como
Claudio Cruz, Elina Suris e outros nomes da elite da música clássica nacional e
internacional. Já tocou nas maiores orquestras do Brasil, incluindo a OSBA,
onde ele estava no ano em que foi eleita a melhor orquestra do país em
2023. Na música popular já dividiu o palco com Caetano, Gil, Chitãozinho
& Xororó, BaianaSystem, Sérgio Reis, Saulo, entre outros gigantes da música
brasileira. Levou seu violino para 9 estados brasileiros e países como
China, EUA e Chile. É criador do canal Como Tocar Violino, que se aproxima dos
250 mil inscritos e já soma 14 milhões de visualizações. Hoje ajuda milhares de
pessoas a aprender violino do zero com leveza, didática prática e orientação
profissional.
Créditos: Camila Correa de Tullio Augusto
* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de
imprensa
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