Roberto Carlos: 55 anos de “Roberto Carlos”, o “disco de ‘Detalhes’”

 

"Roberto Carlos" (1971), o "disco de Detalhes", de Roberto Carlos, completa 55 anos de lançamento em 2026.

Hoje, 19 de abril, Roberto Carlos faz 85 anos. Aproveitando a ocasião, gostaria de abordar sobre aquele que é considerado por muitos como o melhor disco da carreira de Roberto Carlos, que completa no final do ano 55 anos de lançamento. A obra em questão é o autointitulado trabalho de 1971 do cantor capixaba, o 11° álbum de estúdio, mas que ficou conhecido como o “disco que tem ‘Detalhes'”. Lançado pela CBS, a produção da obra ficou a cargo de Evandro Ribeiro e foi gravado em sua maior parte nos estúdios da CBS, em Nova York, exceto duas faixas que foram gravadas no Brasil, nos estúdios da CBS, no Rio de Janeiro: “Eu Só Tenho Um Caminho” e “Amada Amante“, ambas com arranjos do maestro Chiquinho de Moraes.

Esse trabalho foi um divisor de água na carreira do já consagrado Roberto Carlos. Nele, além de conter ótimas músicas, há também outras influências musicais, com o cantor, já com 30 anos de idade, mais maduro, casado, com filhos e, assim, aquelas abordagens de adolescente, dos brotos e tal foram dando lugar ao lado mais romântico, sem soar brega, pois há alguns elementos de Soul, Funk (não esses de hoje, claro), Gospel e por aí vai e nem tão fraco liricamente como essas letras de “sofrência” encabeçada pelos sertanejos de hoje. Esse álbum também consolida a parceria com o seu “amigo de fé, irmão, camarada”, Erasmo Carlos, logo, a nossa versão de “Lennon-McCartney” tupiniquim.

A obra começa justamente com um dos maiores sucessos da carreira de Roberto: “Detalhes”, que ele escreveu quando morava no Morumbi. Na época, ele ligou para Erasmo Carlos, que morava no Rio de Janeiro, pediu para que o amigo viesse para São Paulo para fazer a música. Com um excelente arranjo de cordas e metal, a linda canção ainda tem a participação especial de Altamiro Carrilho na flauta. A canção traz em seu enredo o eu lírico que fala de um amor que ficou distante, mas que as memórias de um bom amor serão eternas, mesmo que ambos estiverem em outros relacionamentos. Aliás, para o seu projeto em homenagem a Roberto Carlos, o próprio Roberto pediu para Nando Reis não regravar essa música para o seu álbum “Não Sou Nenhum Roberto, Mas Às Vezes Chego Perto” (2019). A faixa seguinte é “Como Dois e Dois”, com um arranjo de Blues, por conta das ótimas presenças do baixo e do piano, enquanto o backing vocal feminino leva um pouco de Soul Music. Escrita por Caetano Veloso, que se inspirou no livro “1984”, de George Orwell, a canção foi feita por Caetano pesando em Roberto Carlos como o melhor intérprete para ela. Já em “A Namorada” é outra música que um baixo marcante e os arranjos de cordas e metais incríveis, deixando-a muito intensa para que Roberto se entregue totalmente a canção que, evidentemente, é uma excelente canção de amor, mas a sua autoria fica por conta de Maurício Duboc e Carlos Colla. Na sequência, a obra vem com “Você Não Sabe O Que Vai Perder”, que contém um magnífico trabalho de órgão de Lafayette e do baixo potente de Paulo César Barros (do Renato e Seus Blue Caps), em que eles “conversam” com os demais instrumentos enquanto a letra deixa claro que o interlocutor fala à namorada que vai sair por aí para “azarar” com a disposição de encontrar alguém melhor do que ela (quem nunca pensou em fazer isso, principalmente, quando o relacionamento está em crise?). Depois, em “Traumas”, uma das faixas mais emocionantes da obra. Com um instrumental forte e uma letra impactante, pois, pela primeira vez, Roberto Carlos fala do acidente que sofrera quando era criança ao cair na ferrovia e perdeu parte da perna direita. Os Titãs mencionam um trecho dela em “32 Dentes”. E, encerrando o lado A, “Eu Só Tenho Um Caminho”, uma levada Soul-Gospel, principalmente por conta do backing vocal, mas que tem, mais uma vez, a presença firme do organista Lafayette. A letra fala do sujeito que não estava gostando do caminho que estava levando e resolve tomar uma atitude para mudar o que era necessário.

O lado B se inicia com uma das minhas faixas favoritas não só do disco, mas também do repertório do cantor: “Todos Estão Surdos”, que tem uma pegada voltada para a Soul Music, uma guitarra muito ‘funkeada’, baixo marcante, e backing vocal e arranjos bacanas. Acredito que a abordagem da música é meio que um pedido para Jesus voltar à Terra para ensinar novamente aos homens sobre o que é o amor. Afinal, talvez tenha sentido mesmo, já que, naqueles tempos, o Brasil e o mundo viviam momentos bem conturbados, especialmente na esfera política, como a Ditadura Militar por aqui, a Guerra do Vietnã (que durou quase 20 anos, acabando em 1975). A música ganhou diversas versões por outros intérpretes, como o já citado Nando Reis e também o saudoso Chico Science com a Nação Zumbi. Posteriormente, temos outro sucesso: “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, que Roberto e Erasmo compuseram, subliminarmente, em solidariedade a Caetano Veloso, que estava exilado na época e que, na música, eles torciam pela volta do amigo, o que ocorrera em 1972. Enquanto isso, em “Se Eu Partir”, de Fred Jorge, o ouvinte é brindado com uma ótima balada, uma das mais bonitas do disco, com o arranjo de cordas construindo a emoção da música, abrilhantada pela interpretação emocionada de Roberto Carlos. A letra fala da solidão do cara após o término de um relacionamento. Na sequência, em “I Love You”, apresenta uma sonoridade diferente do restante do disco, especialmente devido ao solo de trompete, mas a temática é bem interessante, que fala do sujeito que quer se modernizar para impressionar a “champola”, tipo, falar gírias, usar roupas da moda (se fosse hoje, diria de grife). A penúltima faixa é “De Tanto Amor”, uma música que, inclusive, o próprio Roberto admitira que não esperava que fizesse tanto sucesso, e que teve várias regravações (inclusive do próprio Nando Reis). O vocal suave acompanhado do arranjo de cordas e flautas é muito emocionante e, claro, outra com lírica amorosa, mas que trata do desespero e, ao mesmo tempo, da saudade daquele relacionamento marcante que ficou para trás (praticamente todo mundo já passou por isso, não é mesmo?). E, para finalizar, outro grande clássico de RC: “Amada Amante”, com uma letra que revela um Roberto sedutor e ousado para quem o verdadeiro amor faz as suas próprias leis. A canção é uma homenagem a Alice, a primeira esposa do cantor e foi feita na época em que eles estavam prestes a se casar e estavam em crise. Embora muitos interpretam que ele se referira a uma relação extraconjugal.

A partir desse disco, Roberto Carlos entrou de cabeça de fazer músicas mais românticas e obteve bastante êxito, mas ao longo dos anos, seu público foi ficando cada vez mais “segmentado” e o resto é história. Mas, esse álbum é uma verdadeira obra-prima da MPB. Aliás, justiça seja feita, no começo do texto foi mencionado que os arranjos de duas músicas foram feitos por Chiquinho de Moraes. Contudo, quem cuidou dos arranjos das outras, foi Jimmy Wisner, que fez um trabalho maravilhoso, por sinal.

Aliás, esse álbum, além de consagrar Roberto Carlos como um dos maiores intérpretes de música romântica, vira e mexe, sempre figura entre os melhores discos brasileiros da história. E, convenhamos, “Roberto Carlos” (1971) foi o um disco que deve ter marcado a vida de muita gente e, sem querer ser repetitivo, mas já sendo, acredito que entre esses “impactados” com a obra, por exemplo, está Nando Reis, uma vez que em seu álbum-tributo a Roberto Carlos, 1/4 das faixas regravadas são desse trabalho: “De Tanto Amor“, “Amanda Amante” e “Todos Estão Surdos“. Inclusive, fica a dica: ouça tanto esse álbum cinquentão, quanto “Não Sou Nenhum Roberto, Mas Às Vezes Chego Perto”. Mas, porém, contudo, todavia, um alerta: se você estiver terminado um relacionamento recentemente, melhor ouvir depois, quando as coisas “esfriarem”.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Roberto Carlos

Intérprete: Roberto Carlos
Lançamento: dezembro de 1971
Gravadora/Distribuidora: CBS
Produtor: Evandro Ribeiro

Roberto Carlos: voz


Rick Ferreira: guitarra
Paulo César Barros: baixo
Jimmy Wisner: arranjos
Altamiro Carrilho: flauta em “Detalhes
Lafayette: teclados e órgão Hammond em “Eu Só Tenho Um Caminho” e “Amada Amante
Chiquinho de Moraes: arranjos em “Eu Só Tenho Um Caminho” e “Amanda Amante

1. Detalhes (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
2. Como Dois e Dois (Caetano Veloso)
3. A Namorada (Maurício Duboc / Carlos Colla)
4. Você Não Sabe O Que Vai Perder (Renato Barros)
5. Traumas (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
6. Eu Só Tenho Um Caminho (Getúlio Côrtes)
7. Todos Estão Surdos (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
8. Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
9. Se Eu Partir (Fred Jorge)
10. I Love You (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
11. De Tanto Amor (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
12. Amada Amante (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)

Ah, parabéns, Roberto Carlos. Vida longa ao filho da dona Lady Laura.


Por Jorge Almeida

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