Alice Cooper Group: 55 anos de “Love It To Death”
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| "Love It To Death", do Alice Cooper Group, completa 55 anos de lançamento em 2026. |
O terceiro álbum de estúdio do Alice Cooper Group, “Love It To Death”, completa 55 anos de lançamento no último dia 9 de março. Produzido por Jack Richardson e Bob Ezrin, a obra foi gravada entre novembro e dezembro de 1970 no RCA Mid-American Recording Center, em Chicago, no Illinois, e lançado pela Warner Bros. Esse foi o primeiro disco de estúdio de sucesso comercial que edificou de vez o som agressivo do Hard Rock da banda.
A
banda, formada no final da década de 1960, tornou-se conhecida por conta de
suas performances teatrais nos shows. No entanto, o rock freak psicodélico
presente nos dois primeiros trabalhos do grupo não alavancou público cativo.
Apesar de que foi nessa época que aconteceu um evento em 1969 tenha ficado
marcado na história do rock: durante uma apresentação do grupo no Toronto Rock
And Roll Revival, Alice Cooper jogou uma galinha viva em direção do público
que, sem dó, destroçou a penosa. No entanto, o ACG mudou-se para Detroit em
1970, onde foram influenciados pela cena agressiva do Hard Rock, povoada de
nomes como o MC5, Iggy Pop e os Stooges, por exemplo.
Em
abril de 1970, Shep Gordon, empresário da banda, tentou levar o produtor Jack
Richardson, que produziu singles para o The Guess Who, para trabalhar com a
banda, porém, ele recusou e mandou um jovem chamado Bob Ezrin em seu lugar.
Inicialmente, o jovem Ezrin recusou-se a trabalhar com o Alice Cooper Group,
porém, mudou de ideia depois de ver a uma apresentação incendiária dos caras no
Max’s Kansas City, em Nova York, em outubro daquele ano. O rock teatral da
banda e a devoção dos fãs fez Bob voltar a Toronto para convencer a Richardson
aceitar o grupo, mas Jack não se mostrou disposto e propôs que Ezrin tomasse à
frente da produção e ficou a cargo da co-produção.
A
banda e Ezrin fizeram a pré-produção do álbum em Pontiac, em Michigan, em
novembro e dezembro de 1970, e gravou no RCA Mid-American Recording Center em
Chicago em dezembro. Richardson e Ezrin produziram o álbum para a Nimbus 9
Productions de Richardson, com Richardson como produtor executivo.
O
trabalho com Bob Ezrin era de dez a doze horas por dia de ensaio e o resultado
foi um conjunto de canções de Hard Rock que distanciava a pegada psicodélica do
freak-rock dos dois primeiros discos. O produtor trabalhou de forma tão
enérgica que ele fez o principal hit do álbum, “I’m Eighteen”, de uma jam de oito minutos chamada “I Wish I Was 18 Again”,
para um rock tenso de um pouco mais de três minutos, sem muita firula.
O
lendário Frank Zappa vendeu a Straight Records, a gravadora que lançou os dois
primeiros discos do ACG, para a Warner Bros. em 1970 por US$ 50 mil. Em
novembro daquele ano, o grupo lançou o single “I’m Eighteen” com “Is It My Body” no lado B e a gravadora permitiu
que a banda gravasse um disco se o single tivesse boas vendagens e se tocasse
nas rádios. Então, os caras se passaram por fãs e fez inúmeras ligações para as
rádios pedindo para tocar a música (tipo o que o finado Seu Francisco fizera
para que “É o Amor”
tocasse nas paradas em “Dois
Filhos de Francisco”, tá ligado?). E, claro, a estratégia deu certo
e a música tocou nas rádios em todo os Estados Unidos, inclusive nas emissoras
AM convencionais, e o single alcançou o 21° lugar das paradas.
Bob
Ezrin tinha como pretensão desenvolver um som coeso para o registro e a sua
seriedade serviu como fonte de inspiração de humor para a banda. Mas o
comprometimento do produtor aliado à sua competência fez prevalecer a tal ponto
que ele fez Cooper deitar-se no chão cercado por uma gaiola de cadeiras de
metal para criar um elemento de realismo nos gritos do cantor para gravar a
sequência de “I gotta get out of here”,
da faixa “Ballad Of Dwight Fry”.
A
obra começa bem cadenciado com “Caught In A Dream”, com o baixo de Dennis Dunaway
ditando o ritmo da música e um belo solo de guitarra por parte de Glen Buxton.
Em seguida, aparece a clássica “I’m Eighteen”, que apresenta uma gaita tocada por
Vicent Furnier (a.k.a. Alice Cooper), um solo curto de Buxton, um refrão pegajoso
e uma letra bem interessante que fala exatamente sobre a vida de um adolescente
de 18 anos, é claro. Um clássico absoluto do mestre do Rock Horror. O terceiro
tema é “Long Way To Go”,
uma música acelerada que apresenta a voz de Alice Cooper com efeitos e com
destaque, mais uma vez, pela linha de baixo de Dunaway. E o lado A do vinil
termina com a longa “Black
Juju”, a única faixa que foi tocada ao vivo no estúdio, que
possui nove minutos em uma tentativa de soar como The Doors, com o teclado
tomando as rédeas. A letra da música margeia um conto de terror. Mas a melhor
parte da faixa fica na segunda parte, em que o peso se faz presente, com
Furnier cantando agressivamente e Buxton executando o melhor solo da obra. Foi
a partir dela que, nos shows, Alice Cooper passou a ser “executado” em uma
cadeira elétrica durante a execução da música.
O
quinto tema do play é a ótima “Is It My Body”, com o baixo de Dunaway se
sobressaindo sobre as guitarras, uma ótima música. Aliás, ela foi regravada
pela banda de rock alternativo Sonic Youth (lançado como bônus do álbum “Dirty”, de 1992) e
que é uma das faixas favoritas da vocalista/baixista Kim Gordon. Em seguida, em
“Hallowed Be My Name”
(não confundir com a faixa quase homônima do Iron Maiden, por favor), que começa
com o teclado bem presente, mas é, talvez, uma das faixas menos inspiradas do
play, tanto que o refrão não chega a empolgar. E essa também foi regravada pelo
Sonic Youth, que a creditou como “Hallowed Be Thy Name” na trilha sonora do filme “Lovedolls Superstar”
(1986). Na sequência, um dos momentos épicos da obra: “Second Coming”,
com Alice Cooper cantando muito, o teclado bem executado pelo guitarrista
Michael Bruce, mas todo o destaque fica para a ótima batida da bateria de Neil
Smith. E a religião é o tema abordado na música, em que Furnier canta em alguns
versos algo sobre andar sobre a água, falar com os anjos e que “não ponha
outros deuses diante de mim”. Já “Ballad Of Dwight Fry” aparece praticamente
emendada com o final de “Second
Coming”. A canção tem uma bela letra, que fala sobre um
prisioneiro em um asilo para doentes mentais. Alice alcança notas bastante
altas e a música foi feita em homenagem a Dwight Fry, do filme “Drácula” (1931) e,
esse negócio de fazer o fadeout de uma música emendar com a intro da faixa
seguinte parece ser a especialidade de Bob Ezrin (vide também o final de “Detroit Rock City”
com “King Of The Night Time World”,
de “Destroyer”,
do Kiss) e o produtor faz isso mais uma vez quando acaba “Ballad Of…”
para começar “Sun
Arise”, a última faixa da obra, que, apesar de uma letra
despojada, melodicamente é bela, por conta da harmonia da cozinha de Smith e
Dunaway. O refrão é grudento, repetitivo, mas o backing vocal é excelente e
encerra de forma louvável essa obra-prima.
O
legado que “Love
It To Death” deixou é inegável. Além do já citado Sonic Youth
que fez não apenas um, mas dois covers do disco, outros nomes do rock também
foram impactados pela obra, como Joey Ramone, que se inspirou em “I’m Eighteen”
para criar o riff do clássico ramônico “I Don’t Care”. Já John Lydon, do Sex Pistols,
escreveu “Seventeen” como
uma “resposta” para a mesma música. Ainda sobre a música, o Kiss foi acusado de
ter supostamente plagiado a faixa “Dreamin’”, de “Psycho
Circus” (1998), o que levou a editora de Cooper a entrar
com o processo, mas que foi resolvido fora dos tribunais. Outra banda que
gravou o clássico foi o Anthrax em seu ‘debut’ “Fistful Of Metal” (1984). Em 1982, a Hit Parader
incluiu o disco em seu Hall da Fama do Heavy Metal. Sem contar as inúmeras
publicações que colocaram a obra em seus rankings.
Mas
a obra também foi um divisor de águas na carreira de Bob Ezrin que, além de seguir
trabalhando com Alice Cooper Group (exceto em “Muscle
Of Love”, de 1973) até o fim da banda, em 1974, mas
seguiu com o cantor em sua carreira solo. O produtor também chamou a atenção de
outros grupos, como o Aerosmith, Kiss e Pink Floyd, que contrataram o cara para
assinar as produções de “Get
Your Wings” (1974), o citado “Destroyer” e o megaclássico “The
Wall” (1979), respectivamente.
E,
como não poderia deixar de ser, a polêmica não poderia ficar de fora em se
tratando de Alice Cooper. A capa original do álbum apresentava o cantor que
posou com o polegar para fora, o que fez muitos a pensarem em tratar-se do
pênis do vocalista. Então, a Warner Bros. já tratou de substituí-la por uma
versão censurada.
Embora
tenha deixado o lado freak-rock de lado, claro que a parte teatral foi mantida.
Na turnê de “Love
It To Death”, uma verdadeira aula de Rock Horror: durante a
execução de “Ballad
Of Dwight Fry”, Alice Cooper era levado para fora do palco e
voltaria em uma camisa de força e o clímax da performance ficava por conta da
falsa execução do cantor durante “Black Juju”.
E,
assim, meio século depois, Alice Cooper brindava o mundo do rock com um
trabalho estupidamente maravilhoso e cravou de vez seu nome na história para
aterrorizar e, não à toa, é aclamado até hoje como mestre na arte de misturar
música boa, com teatro e terror.
A
seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.
Bob
Ezrin: teclados
em “Caught In A Dream“,
“Long Way To Go“, “Hallowed Be My Name“,
“Second Coming” e “Ballad Of Dwight Fry“
Por
Jorge Almeida

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