Rita Lee: 55 anos de "Build Up"

 

"Build Up", o primeiro disco solo de Rita Lee, completa 55 anos de lançamento em 2025.

Hoje, 8 de maio, completam-se dois anos da partida da grande Rita Lee Jones (1947-2023) e, para celebrarmos o seu legado, destacarei a respeito do álbum "Build Up", que completa 55 anos de lançamento em 2025. Esse trabalho foi o primeiro da carreira solo de Rita Lee que, na época, ainda estava n'Os Mutantes. A obra foi produzida por Arnaldo Baptista e Rogério Duprat, gravada no estúdio Scatena, em São Paulo, e CBD, no Rio de Janeiro. O trabalho saiu pela Philips, por meio do selo Polydor.

Na época, ainda casada com Arnaldo Baptista, que ajudou na direção artística do álbum, Rita também contou com o suporte dos outros 'mutantes' na gravação do álbum, além de outros colaboradores como o maestro Rogério Duprat. A ideia, a princípio, era de que ela mantivesse uma carreira solo em paralelo aos Mutantes, mas em 1972, Rita foi demitida da banda.

O disco começa com "Sucesso, Aqui Vou Eu (Build Up)", em que Rita faz uma celebração otimista para almejar a fama e o sucesso, abordando a necessidade de luta e a perseverança para almejar o sucesso e que tem uma pegada orquestrada e dramática, contrastando à psicodelia d'Os Mutantes. A faixa seguinte é "Calma", em que a cantora expressa nitidamente uma vontade intensa de liberdade e independência, e que chama atenção pela doçura da voz de Rita Lee e pelas ótimas presenças dos metais e do Hammond. O terceiro tema é "Viagem Ao Fundo de Mim", que começa com o eu-lírico chamando para explorar um mundo interno cheio de emoções e sensações, uma espécie de balada existencial, em que Rita Lee parece nos convidar para acompanhá-la para dentro de si. Os arranjos sutis dão um charme a mais na música. Posteriormente, em "Precisamos de Irmãos", que nos traz à reflexão sobre a necessidade humana de conexão, amor, compreensão, empatia e que parece ser mais atual do que nunca. Bela mensagem. E, encerrando o lado A, a cômica "Macarrão com Linguiça e Pimentão", em que a cantora celebra a simplicidade e do prazer nas pequenas coisas da vida, como cozinhar uma refeição caseira, com uma letra que traz uma receita culinária, utilizando humor e ironia, que viria a se tornar uma de suas marcas registradas.

Iniciando o lado B, o carro-chefe do disco, a maravilhosa "José (Joseph)", do egípcio Georges Moustaki e que a versão em português foi feita por Nara Leão, em que a voz de Rita é contida, triste e doce, e traz um arranjo orquestrado, com cordas suaves. A letra aborda a vida de José, de forma poética, enaltecendo as escolhas e sacrifícios que ele fez por amor a Maria e ao destino de seu filho, Jesus. A letra ainda traz uma reflexão se, em vez de Maria, José tivesse escolhido outra mulher para casar, talvez, teria uma vida "mais simples". Depois, em "Hulla-Hulla", ao melhor estilo de música havaiana, faz uma viagem psicodélica para um paraíso exótico a uma ilha fictícia e, apesar da aparência leve, há uma crítica velada ao escapismo. Na sequência, uma releitura de "And I Love Him", dos Beatles, em que Rita Lee adapta os pronomes para o feminino, mas mantém a melodia original. Fã do quarteto de Liverpool, essa gravação feita por ela soa como uma homenagem aos ídolos. Destaque para o solo cabuloso de Lanny Gordin. Posteriormente, em "Tempo Nublado", temos uma metáfora a respeito do estado emocional do eu-lírico: um coração que amanheceu "nublado", a ausência de um amor perdido. Rita usa metáforas visuais para descrever a passagem do tempo e a nostalgia. A penúltima música da obra é o tango "Prisioneira do Amor", cujo título já sugere tratar de uma dependência emocional em que ela se descreve como "cafona" por ser escravizar aos caprichos do amado. E, para encerrar, "Eu Vou Me Salvar", um rock-gospel em que Rita faz uma afirmação de autossalvação, visando a redenção, mas não deixa de ser uma crítica sutil à hipocrisia religiosa.

Quando foi lançado, “Build Up” não fez sucesso e ficou ofuscado muito por conta do trabalho d’Os Mutantes. Contudo, com o passar dos anos, tornou-se um disco ‘cult’ e essencial para compreender a transição da “Ovelha negra da família” para a sua carreira solo e independente. É um trabalho muito bom, de fato, especialmente por conta de “José (Joseph)” e o coveraço de “And I Love Her” (adaptado para “Him”).

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Build Up
Intérprete: Rita Lee
Lançamento: 1970
Gravadora/Distribuidora: Philips/Polydor
Produtores: Arnaldo Baptista e Rogério Duprat

Rita Lee: voz

Arnaldo Baptista: guitarra
Sérgio Dias: baixo
Diógenes: bateria
Lanny Gordin: guitarra
Rogério Duprat: arranjos de metais e cordas

1. Sucesso, Aqui Vou Eu (Build Up) (Rita Lee / Arnaldo Baptista)
2. Calma (Arnaldo Baptista)
3. Viagem Ao Fundo do Mim (Rita Lee)
4. Precisamos de Irmãos (Élcio Decário)
5. Macarrão com Linguiça e Pimentão (Rita Lee e Arnaldo Baptista)
6. José (Joseph) (Georges Moustaki / Versão: Nara Leão)
7. Hulla-Hulla (Rita Lee / Élcio Decário)
8. And I Love Him (Lennon / McCartney / Versão: Rita Lee)
9. Tempo Nublado (Rita Lee / Élcio Decário)
10. Prisioneira do Amor (Élcio Decário)
11. Eu Vou Me Salvar (Rita Lee / Élcio Decário)

Por Jorge Almeida

 

 

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