Paulo Miklos: 25 anos de “Vou Ser Feliz e Já Volto”

 

"Vou Ser Feliz e Já Volto", de Paulo Miklos, completa 25 anos em 2026.

Neste segundo semestre de 2026, o segundo disco solo de Paulo Miklos, “Vou Ser Feliz e Já Volto”, completa 25 anos de lançamento. Produzido por Dudu Marote, o álbum foi gravado no Estúdio Dr. D.D, na Zona Oeste de São Paulo, e lançado pela (hoje extinta) Abril Music.

Em 2001, Paulo Miklos ainda seguia como membro dos Titãs e, assim como Arnaldo Antunes e Nando Reis, apostou nos trabalhos solo para ter oportunidade de abordar outros direcionamentos musicais e mostrar uma parte distinta do estilo que o consagrou com a banda paulista. E, diferentemente dos dois colegas citados, Miklos ainda estava respirando ares fora da música. Enquanto os Titãs aproveitavam suas férias, além de gravar o seu disco solo, ainda se aventurou na carreira de ator, inclusive, sendo protagonista do filme “O Invasor” (2002), quando estreitou uma amizade com o rapper Sabotage.

Mas, voltando para o álbum, “Vou Ser Feliz e Já Volto” é um trabalho bacana, melódico e intensamente sereno, privilegiando as canções e os arranjos em vez de arriscar no rock mais agressivo. Os violões marcam presenças praticamente em todo o disco, servindo como base para as guitarras bem trabalhadas por Emerson Villani (que estava em alta entre os Titãs, pois, além de Miklos, ele também trabalhou para Sérgio Britto e, após a morte de Marcelo Fromer, tocou com o grupo por um tempo), teclados e participações especiais e uma diversidade sonora bem interessante, que permite ao ouvinte deparar-se com um Paulo Miklos mais focado em valorizar suas composições e explorar seu lado mais melódico.

O play começa com “Vai Acontecer de Novo”, que serviu como um excelente cartão de visitas. A música traz guitarras bem difundidas e muito espaço entre os instrumentos e frases rítmicas fecundas de Villani, que trouxe personalidade à canção. Destaque para a ótima atuação de Paula Lima, que levou frescor nos trechos em que responde a Paulo. Depois, em “Mamãe Disse... Papai Disse”, a atmosfera tranquila prosseguiu, apesar de ter um momento mais perto de um rock. A música fala a respeito de sonhos, expectativas e a forma de como enxergamos a felicidade. Já “Em Todo o Tempo”, aborda um lado mais contemplativo. Lenta e delicada, a música é marcada por guitarras de timbres cativantes. E a participação do saudoso Luiz Carlini com a sua lap steel guitar agrega bastante à canção, pois sua atuação se adequada perfeitamente com a proposta da canção.

Outro destaque do play é “O Que Você Diz”, que dá mais agilidade e que corrobora com a obra pode sair do clima calmo sem deixar perder sua identidade. As guitarras seguem com desempenho fundamental, com poucas intervenções que incrementa o arranjo, enquanto Ed Cortês, com seu sax tenor, aparece de forma discreta e hábil. Na sequência, aquela que particularmente considero a melhor do disco: “Hoje”, que mantém o pique e traz um som mais encorpado. As guitarras têm peso, mas não com a intenção de transformar em um rock pesado. A faixa ganhou um videoclipe, no qual aparece o visual loiro de Paulo Miklos, associado à capa e a Anísio, personagem que ele interpretou no já citado “O Invasor”. Se encaixaria facilmente em um disco dos Titãs. O sax tenor volta a aparecer, mas de forma mais destacada em “Por Querer”, um pop de melodia deleitosa e um arranjo exitoso e, assim como a anterior, poderia fazer parte de um disco dos Titãs.

Depois, em “Lâmina de Vidro”, o play volta à atmosfera meditativa. As guitarras chamam atenção seja pelas frases ou pela qualidade dos timbres, originando uma sonoridade envolvendo. Vale destaque para o solo de baixo de Lee Marcucci (ex-Rita Lee e Tutti Frutti) que, logo depois, quebrou um galho nos Titãs quando Nando Reis “deu linha na pipa” da banda. Outro grande momento do disco vem com “Orgia”, que chama atenção pela agregação de letra e música, que cultiva a fantasia, o desejo e a distância entre o que queremos e o que podemos oferecer ao outro. A participação de Marina Lima agrega uma elegância à parte, complementando a interpretação de Paulo Miklos.

Evidentemente que o velho parceiro de Miklos não poderia ficar de fora do projeto. Em “Sem Amor”, o cantor divide os créditos com o parceiro Arnaldo Antunes. E o resultado disso é uma música que se adequa espontaneamente na concepção da obra. A composição robustece o valor da melodia e assegura como Paulo consegue circular por distintos climas sem deixar a singularidade artística. Posteriormente, em “Sinos Entre os Anjos”, o ouvinte é conduzido pelo dedilhado no violão em uma pegada mais romântica e afetuosa. A faixa tem uma estrutura pop bem trabalhada e sem exageros.

E, para finalizar, outro grande trunfo de Paulo Miklos: a peculiar releitura de “O Milagre do Ladrão”, canção de Léo Canhoto e Zilo, popular no meio sertanejo e que Miklos optou em abordá-la sob outra perspectiva. Ou seja, trocou o sertanejo pelo Country-Blues, que foi abrilhantado pelo violão e o dobro tocado por Luiz Carlini (olha o homem aí mais uma vez!).

No todo, “Vou Ser Feliz e Já Volto” é um trabalho pop aprimorado, acessível e bem produzido, que mescla com qualidade o rock, o folk e música brasileira com naturalidade e um legítimo atestado a respeito da versatilidade de Paulo Miklos. É um disco que merece atenção não apenas por quem gosta de Titãs, mas também para quem aprecia boas composições e arranjos sofisticados.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Vou Ser Feliz e Já Volto
Intérprete: Paulo Miklos
Lançamento: 2001
Gravadora/Distribuidora: Abril Music
Produtor: Dudu Marote

Paulo Miklos: voz, guitarra e violão

Emerson Villani: guitarra, violão e violão de aço
Lee Marcucci: baixo
James Müller: bateria e samplers

Paula Lima: voz em "Vai Acontecer de Novo"
Marina Lima: voz em "Orgia"
Luiz Carlini: lap steel guitar em "Em Todo o Tempo", violão e dobro em "O Milagre do Ladrão"

1. Vai Acontecer de Novo (Paulo Miklos)
2. Mamãe Disse... Papai Disse... (Paulo Miklos)
3. Todo o Tempo (Paulo Miklos)
4. O Que Você Me Diz? (Paulo Miklos)
5. Hoje (Paulo Miklos)
6. Por Querer (Paulo Miklos)
7. Lâmina de Vidro (Paulo Miklos)
8. Orgia (Paulo Miklos)
9. Sem Amor (Paulo Miklos / Arnaldo Antunes)
10. Sinos Entre os Anjos (Paulo Miklos)
11. O Milagre do Ladrão (Paulo Miklos)

Por Jorge Almeida

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