Leitura também é coisa de homem: o fenômeno do Gustavo Scarpa, por Francisco Neto Pereira Pinto*
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| Foto meramente ilustrativa. |
A leitura, em particular de literatura, ao longo da história foi associada à feminilidade, o que tem afastado muitos homens da leitura. Será que isso está mudando?
O que acontece quando um jogador de futebol começa a
compartilhar suas experiências com a leitura de literatura e a recomendar
livros em sua rede social? O resultado, que ninguém poderia prever, tem sido
revolucionário. O primeiro impacto foi o desencadeamento de uma onda de adesão
às leituras recomendadas, o que é atestado pelo fato de os livros entrarem nas
listas dos mais vendidos, por exemplo, da Amazon. O segundo se relaciona à
criação, em escala, de clubes de leitura por torcidas organizadas. A iniciativa
coube à torcida do clube ao que pertence o jogador, o Atlético Mineiro, e
rapidamente se espalhou pelas de outros times.
Contudo, mais do que isso, o fenômeno Scarpa expõe
um preconceito histórico associado à leitura, em particular de
literatura, o de que leitura e virilidade não combinam. Michèle Petit,
antropóloga francesa e referência internacional sobre leitura, afirma, em seu
livro “Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva” (2008), haver um medo entre
a juventude masculina em relação à leitura. Embora esse medo se espraie em
várias direções, um aspecto específico diz respeito à ameaça de rechaçamento e,
consequentemente, exclusão do grupo de amigos, o que se daria pela percepção
histórica e compartilhada, de que a leitura depõe contra a virilidade.
Para Petit, partindo de relatos de outros
pesquisadores e escritores, essa associação negativa entre masculinidade e
virilidade não se restringe somente ao universo francês, mas se trata de algo
amplamente compartilhado entre diversas culturas, de diferentes países,
incluindo o Brasil. Essa reflexão levanta o véu e planta dúvidas em viés
discursivo que faz crer que os homens não leem por preguiça, por uma espécie de
falta de gosto em função própria do gênero ou simplesmente porque há coisas
mais interessantes para se fazer.
Fica claro que, para se cultivar uma cultura de
leitura de literatura entre os homens, é necessário jogar por terra o mito
de que a leitura efeminiza o homem, tornando-o menos viril. Ao que tudo
indica, esse pontapé já foi dado por Gustavo Scarpa, deixando-nos na torcida de
que o fenômeno prospere, espalhe e se consolide cada vez mais.
*Francisco Neto Pereira Pinto é
psicanalista, escritor e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em
Linguística e Literatura – Mestrado e Doutorado - da Universidade Federal do
Norte do Tocantins. É autor de "Civilização Selvagem ou tigelas de barro
espatifadas no chão"
Agradecimentos: Maria Clara Menezes | LC Agência de Comunicação
* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de
imprensa

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