Jorge Ben: 45 anos de “Bem-Vinda Amizade”

 

"Bem-Vinda Amizade", do Jorge Ben, completa 45 anos de lançamento em 2026.

Neste ano, um dos discos mais emblemáticos de Jorge Ben Jor, “Bem-Vinda Amizade”, completa 45 anos de lançamento. Gravado nos estúdios SIGLA, no Rio de Janeiro, a obra foi lançada pela Som Livre e produzida por Guto Graça Mello e Max Pierre.

Com um repertório marcado pelo balanço, por melodias envolventes e por referências à cultura nacional, o disco promove uma sonoridade descontraída, na qual a singeleza das canções se adequa com o cuidado dos arranjos e a força rítmica de suas composições.

Em 1981, Jorge Ben já havia desenvolvido uma identidade musical espontaneamente perceptível. Sua forma de tocar violão, o compasso particular de sua voz e o uso criativo das palavras faziam de suas músicas algo distinto do que se ouvia frequentemente na música brasileira. Em vez de seguir métodos estabelecidos, o compositor deparava entusiasmo nas situações cotidianas, nas relações humanas, na história e nas manifestações culturais do Brasil. Em “Bem-Vinda Amizade”, esses atributos fazem parte em uma totalidade de canções que combina leveza, criatividade e forte ligação com as raízes populares do país.

O álbum também se destaca por apresentar o violão de Jorge Ben ocupando um lugar central, acompanhado por uma base instrumental que reúne baixo, bateria, percussão e teclados. A participação de diferentes percussionistas colaborou para a riqueza rítmica do disco, enquanto os teclados, com participações de Lincoln Olivetti em algumas faixas, agregaram outras perspectivas à sonoridade. O resultado é uma produção que estima o balanço sem afetar a naturalidade das interpretações.

O título “Bem-Vinda Amizade” indica um espírito de acolhimento e convivência, conceitos que combinam com a maneira como Jorge Ben transforma experiências comuns em música.

O álbum começa com “O Dia Que o Sol Declarou o Seu Amor Pela Terra”, em que Jorge Ben Jor personifica o Sol, a Terra e a Lua para representar sentimentos humanos. O Sol demonstra seu amor pela Terra por meio do calor e da dedicação, simbolizando carinho e proteção. Já a Lua sente ciúmes dessa relação, mas, ao receber o calor do Sol, recupera sua alegria e vitalidade. De maneira leve e bem-humorada, a canção destaca o poder transformador do amor, da generosidade e do afeto nas relações.

Entre os principais destaques está “Santa Clara Clareou”, que se destaca entre as canções mais conhecidas do play. A música traz um clima luminoso, robustecendo a relação entre melodia, ritmo e expressividade que marca o trabalho de Jorge Ben. Seu título chama imagens de luz e renovação, enquanto a interpretação do artista mantém aquela combinação particular de simplicidade e força musical.

Outro tema relevante da obra é “Oé Oé (Faz o Carro de Boi na Estrada)”, uma composição que se destaca pelo título expressivo e pela ligação com imagens tradicionais da vida brasileira. A referência ao carro de boi remete a um universo rural e popular, aproximando a canção de costumes e paisagens que fazem parte da memória cultural do país.

Outra faixa importante é um dos momentos mais significativos do disco é “Curumin Chama Cunhatã Que Eu Vou Contar (Todo Dia Era Dia de Índio)”. A composição chama a atenção por abordar referências aos povos indígenas e à história brasileira, utilizando palavras de origem indígena e uma narrativa que aproxima música, cultura e memória. A canção também ficou associada à reflexão sobre o Dia do Indígena, tradicionalmente celebrado no Brasil em 19 de abril. Jorge Ben utiliza sua linguagem musical para inserir referências culturais no repertório popular, mostrando como uma canção pode despertar o interesse por aspectos da identidade nacional. Confesso que tenho minhas dúvidas se essa faixa não teria inspirado o Arnaldo Antunes em sua ótima “Inclassificáveis”, principalmente na parte em que o ex-titã elenca as diversas etnias. Afinal, ele também é fã de Jorge Ben Jor a ponta deles fazerem parcerias excelentes como em “As Árvores” e “Cabelo”, essa última eternizada na gravação feita pela saudosa Gal Costa.

A obra ainda tem “Era Uma Vez Um Aposentado Marinheiro”, que é uma faixa bem ‘suingada’, agradabilíssima de ouvir e traz uma abordagem simples e direta. Sim, fala de um marinheiro que só queria viver em uma ilha no Atlântico Sul com as nativas de lá, mas não tinha condições financeiras para realizar o sonho.

Bom, para quem conhece a obra de Jorge, evidentemente, as inspirações nas mulheres não ficariam de fora. No disco, as “contempladas da vez”, foram “Lorraine”, uma faixa melódica e emotiva, e “Katarina, Katarina”, que é mais balanceada e o eu-lírico expressa nitidamente a saudade intensa da personagem-tema. A "brasilidade" e a inspiração no universo feminino seguem na sequência com "Ela Mora Em Matogrosso Fronteira Com o Paraguai", em que ele enaltece a diversidade cultural e étnica do Brasil, especialmente ao se referir o seu fascínio por uma jovem mameluca pantaneira, expressando o seu tom carinhoso ao adjetivá-la como "princesinha do Pantanal".

Na reta final, o álbum ainda traz "Para Que Digladiar", outra faixa cheia de suingue em que Jorge leva a mensagem direta para valorizar a paz e a simplicidade do dia-a-dia. Ele sugere que investir no bem-estar, fazer coisas como "cozer" (referente a cozinhar) e "coser" (costurar) é melhor do que "digladiar" (brigar). Nos tempos atuais, em que a violência doméstica lamentavelmente aflora, a temática é mais que necessária.

Por fim, em E, para finalizar, "Luiz Vagner Guitarreiro", que é uma homenagem de Jorge Ben ao renomado músico que fez parte de sua banda tocando baixo, mas que é considerado um dos pioneiros e principais nomes do Samba-Rock e do surgimento do Reggae no Brasil.

Enfim, em “Bem-Vinda Amizade” a identidade brasileira não se faz presente apenas nos temas das letras, mas também na forma de cantar, na organização dos ritmos e na relação entre os instrumentos. A mistura de samba, funk, soul e outras referências da música popular mostra como Jorge Ben desenvolveu uma linguagem capaz de ultrapassar fronteiras entre gêneros.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Bem-Vinda Amizade
Intérprete: Jorge Ben
Lançamento: 1981
Gravadora/Distribuidora: Som Livre
Produtores: Guto Graça Mello e Max Pierre

Jorge Ben: voz, violão, guitarra e percussão

Roberto Dargbli: baixo
Bomba Sjostedt: piano e órgão
Miss Lynn Pena: bateria
Nenem, Bidu, Luiz Carlos, Cowbel, Joãozinho, Luizinho e Naila: percussão
A Banda do Zé Pretinho, As Gatas: backing vocal
Lincoln Olivetti: órgão
Jane Duboc, Guilherme Lamounier, Sonia Bournier e Robinson Jorge: coro
Mu: teclados
Chiquinho do Acordeon: acordeão
Serginho: trombone
Luiz Vagner: guitarra em "Luís Guitarreiro"

1. O Dia Que o Sol Declarou o Seu Amor Pela Terra (Jorge Ben)
2. Santa Clara Clareou (Jorge Ben)
3. Oé Oé (Faz o Carro de Boi na Estrada) (Jorge Ben / Augusto de Agosto)
4. Era Uma Vez Um Aposentado Marinheiro (Jorge Ben)
5. Lorraine (Jorge Ben)
6. Curumim Chama Cunhantã Que Eu Vou Contar (Todo Dia Era Dia de Índio) (Jorge Ben)
7. Katarina Katarina (Jorge Ben)
8. Ela Mora Em Matogrosso Fronteira Com o Paraguai (Jorge Ben)
9. Para Que Digladiar (Jorge Ben)
10. Luís Wagner Guitarreiro (Jorge Ben)

Por Jorge Almeida

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