Exposição “Di Cavalcanti: Militante, Boêmio, Brasileiro” no MAC-USP
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| "Sem Título (Crucificação)" (1952), de Di Cavalcanti, em exposição no MAC-USP. Foto: Jorge Almeida |
O Museu de Arte
Contemporânea da USP (MAC-USP) está com a exposição “Di Cavalcanti: Militante,
Boêmio, Brasileiro” em cartaz até o próximo domingo, 1° de novembro, que reúne
115 desenhos do artista produzidos entre 1920 e 1950. A mostra é decorrência de
uma pesquisa de pós-doutorado e sugere um diagnóstico de sua trajetória
artística a partir de sua biografia, de seu contexto histórico e das
contradições que distinguiram sua vida e obra.
A exposição tem
como base o acervo de 561 desenhos de Emiliano Di Cavalcanti (1897–1976), centralizados
pelo próprio artista e hoje pertencentes ao MAC USP. Considerada a maior
coleção de desenhos do artista reunida em uma única instituição museológica no
Brasil, a coleção propicia seguir distintas fases de sua produção gráfica. Além
das obras selecionadas desse conjunto, a mostra expõe obras oriundas do
Instituto de Estudos Brasileiros da USP, do Museu de Arte Brasileira da
Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), da Biblioteca Mário de Andrade, da
Pinacoteca de São Paulo e de coleções particulares. Uma projeção audiovisual
também exibirá os 561 desenhos que integram o acervo do museu.
Com curadoria de
Helouise Costa e Marcelo Bortoloti, a exposição lança uma dimensão menos notória
da produção de Di Cavalcanti. Embora tenha se solidificado como um dos
principais ícones da pintura modernista brasileira, o artista começou sua
trajetória através do desenho, que se tornou um espaço de experimentação
estética, liberdade temática e diálogo com outros artistas. A mostra exibe essa
produção em relação aos episódios políticos, sociais e culturais que marcaram o
Brasil ao longo das primeiras décadas do século XX.
O título da
exposição sintetiza três aspectos fundamentais de sua trajetória: o militante,
associado ao engajamento político e à defesa da justiça social; o boêmio,
ligado à valorização da liberdade e de um estilo de vida sem amarras; e o
brasileiro, relacionado à busca por uma identidade cultural nacional. Essas
características se manifestam em seus desenhos e ajudam a compreender tanto
suas escolhas artísticas quanto as transformações de seu pensamento ao longo do
tempo.
Nascido em 1897,
Di Cavalcanti estabeleceu uma carreta marcada por distintas experiências e
posicionamentos. De origem familiar ligada a senhores de engenho, militares e
abolicionistas, tornou-se um dos protagonistas do modernismo no Brasil. Sua
produção foi entusiasmada por pontos como a desigualdade social, a militância
comunista, a aderência ao catolicismo e a oposição ao abstracionismo, despontando
as tensões de um período de intensas modificações na sociedade e nas artes.
A representação
da população negra brasileira toma um lugar respeitável em sua obra. Na década
de 1920, o artista pintou mulheres negras e pardas como símbolos da identidade nacional,
em um tempo de construção de novas referências para a arte brasileira.
Entretanto, ao longo de sua trajetória, essas representações também calharam a
reproduzir estereótipos raciais e visões que, sob um ponto de vista
contemporâneo, exigem uma análise crítica.
Ao pautar os desenhos
à biografia do artista e à conjuntura histórica em que foram produzidos, a
exposição procura ampliar a compreensão de sua obra, sem ignorar suas
ambiguidades. A proposta é proporcionar ao público subsídios para refletir
sobre as contribuições de Di Cavalcanti para a arte brasileira, bem como sobre
os limites e as contradições de suas representações.
A mostra também situa
relações entre sua produção e a de artistas contemporâneos, permitindo analisar
aproximações e diferenças na ampliação da arte moderna no país. Com isso, a exposição contém um panorama de sua
produção gráfica e convida o visitante a reconsiderar a trajetória de um
artista cuja obra permanece relevante para o debate sobre a identidade cultural
brasileira e suas representações.
Em meio aos
destaques estão obras como cinco fotos de Walter Firmo que, em 2013, fotografou
algumas modelos retratadas por Di Cavalcanti nas décadas de 60 e 70, todas
acima dos 70 anos; “Paisagem Marítima com Duas Moças” (1937), um óleo sobre
tela, de Noêmia Mourão; “A Realidade Brasileira” (1930), do próprio Di
Cavalcanti, uma impressão sobre papel; “Sem Título (Crucificação)” (foto), de 1952,
um crayon sobre papel; além de “São Francisco de Assis” (1945), de Alfredo
Volpi; e reproduções de documentos como a ficha prisional de Di Cavalcanti
datada em julho de 1936.
SERVIÇO:
Exposição: Di Cavalcanti:
Militante, Boêmio, Brasileiro
Onde: Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP) – Av. Pedro
Álvares Cabral, 1301 – Vila Mariana
Quando: até
1°/11/2026; de terça a domingo, das 10h às 21h
Quanto: entrada gratuita
Por
Jorge Almeida

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