Com streaming em 85% da receita, ensino musical busca novos formatos, por Rodolfo Vidal*
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| Foto meramente ilustrativa. |
No Brasil, de acordo com a Pro-Música Brasil, o
streaming supera 85% da receita do setor, consolidando um padrão de
comportamento em que o acesso é instantâneo, amplo e personalizado. Esse número
não é apenas um retrato do consumo, mas um indicativo direto de como o público
passou a se relacionar com a música. Quem monta repertórios sob demanda,
descobre artistas por recomendação algorítmica e transita entre gêneros em
poucos cliques dificilmente se adapta a um modelo de ensino baseado em
progressões fixas, tempo predeterminado e pouca autonomia. O descompasso entre
essas duas experiências ajuda a explicar por que o formato tradicional perde
adesão.
A dimensão global reforça essa leitura. Segundo
a IFPI, no Global Music Report 2024, o streaming já responde por mais de
65% da receita mundial da indústria fonográfica. Isso significa que a principal
porta de entrada para a música hoje é mediada por plataformas que organizam
conteúdo de forma personalizada e contínua. Quando esse mesmo usuário busca
aprender um instrumento, a expectativa já foi moldada por essa lógica. O
problema do ensino tradicional não está apenas no formato presencial, mas na
incapacidade de dialogar com um repertório que deixou de ser linear. A aula
estruturada em etapas rígidas entra em conflito com uma escuta que é, por
definição, não sequencial.
No campo educacional, o movimento segue na mesma
direção. De acordo com o Censo EAD mais recente da ABED, a educação a
distância cresce de forma contínua no país, com aumento de matrículas e
expansão de formatos. Esse avanço não se sustenta apenas por conveniência, mas
por uma mudança na forma como o aluno organiza seu tempo e define prioridades.
No ensino de música, isso se traduz na busca por conteúdos que possam ser
acessados fora de horários fixos, revisitados conforme a necessidade e
aplicados de forma imediata. A rigidez do modelo tradicional, que pressupõe
evolução uniforme entre alunos diferentes, deixa de fazer sentido quando o
aprendizado passa a ser guiado por objetivos individuais.
A defesa de que o ensino clássico garante
profundidade técnica ignora que a própria ideia de progresso uniforme já não se
sustenta. Plataformas digitais têm incorporado mecanismos de acompanhamento que
permitem identificar erros recorrentes, sugerir exercícios específicos e
adaptar o nível de dificuldade com base no desempenho do aluno. Esse tipo de
ajuste fino dificilmente ocorre em turmas padronizadas, onde o ritmo coletivo
tende a nivelar por baixo ou excluir quem não acompanha. Ao mesmo tempo, a
indústria musical tem mostrado que trajetórias formativas fora de instituições
tradicionais não são exceção, mas parte relevante da formação contemporânea de
músicos. O ponto não é substituir completamente o ensino formal, mas reconhecer
que ele deixou de ser referência única.
A consequência mais evidente dessa mudança aparece
no acesso. Quando o aprendizado depende de presença física, disponibilidade de
tempo e capacidade de pagamento por aulas regulares, ele se restringe a uma
parcela limitada da população. Ao contrário, formatos digitais ampliam o
alcance e permitem que o contato com a música aconteça de maneira mais
distribuída. Em um país como o Brasil, onde desigualdades educacionais são
persistentes, insistir em um modelo pouco adaptável não é apenas uma escolha
pedagógica, mas uma barreira concreta à formação musical.
O ensino de música está sendo reorganizado a partir
de um novo ponto de partida, que não é mais a sala de aula, mas o comportamento
do usuário. Os dados de consumo e de educação apontam na mesma direção e deixam
pouco espaço para interpretações alternativas. A permanência do modelo
tradicional não depende de sua defesa abstrata, mas de sua capacidade de se
ajustar a esse cenário. Sem isso, deixa de ser uma opção relevante e passa a
ocupar um espaço cada vez mais residual.
*Rodolfo Vidal, CEO
da Kords, iniciou sua jornada aos 18 anos em uma aceleradora de startups,
adquirindo experiência estratégica e operacional no desenvolvimento de
negócios. Aos 20, fundou sua primeira startup e se consolidou como especialista
em negócios digitais, marketing e vendas orgânicas. Atualmente, é CEO da Kords,
edtech musical lançada em 2025, com a ambição de impactar 1 milhão de alunos
até 2030.
Agradecimentos: Gabriel Moreira | Mention
** Este conteúdo foi enviado pela assessoria
de imprensa

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