TUSP recebe nova montagem de O Santo Inquérito, em diálogo com o Brasil de 2026 *
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| Foto meramente ilustrativa. |
Montagem dirigida por Abilio
Tavares estabelece um diálogo entre a peça escrita em 1966, o Brasil Colônia
retratado na história e questões contemporâneas como intolerância, diversidade,
liberdade e a posição de quem interpreta os fatos
Sessenta anos depois de sua criação, O Santo Inquérito,
de Dias Gomes, estreia em nova montagem da Escola de Arte Dramática
(EAD-ECA-USP), com direção de Abilio Tavares, de 12 a 23 de agosto de
2026, de quarta a domingo, às 20h, no TUSP, no Centro MariAntonia da USP,
em São Paulo. Escrita em 1966, a peça conta a história de Branca Dias, jovem
descendente de cristãos-novos perseguida pela Inquisição na Paraíba de 1750. Ao
tratar de um episódio do Brasil Colônia, Dias Gomes construía uma metáfora para
o próprio momento histórico em que vivia, marcado pelos primeiros anos da
ditadura militar. Em 2026, a nova montagem retoma a obra a partir de outra
posição no tempo e lança uma pergunta que acompanha todo o processo de criação:
por que montar O Santo Inquérito hoje?
“Talvez seja porque essa história ainda encontra eco no Brasil
contemporâneo”, afirma Abilio. Para o diretor, depois da abertura política,
textos diretamente relacionados à ditadura chegaram a parecer datados. “De uns
tempos para cá, com todo esse movimento de direita, de extrema direita, essas
evocações saudosistas do período da ditadura militar, esses textos voltaram a
ficar muito atuais.” A montagem parte da tentativa de identificar essas
conexões com o Brasil de hoje.
O diálogo com o
presente aparece desde a entrada do público na sala. O elenco já está em cena,
em um espaço marcado pelo rito da Inquisição, que Abilio define como um “rito
de morte”. O chão é povoado por carvão e restos de carvão, como resíduos de
fogueiras. “Como se fosse o resíduo de muitas fogueiras que foram queimadas,
muitas liberdades, muitas histórias que foram dizimadas ali”, explica.
Cenografia e figurinos de Marco Lima também recusam uma
reconstrução histórica do Brasil de 1750. Há referências pontuais ao período na
roupa de Branca Dias, enquanto os personagens masculinos vestem roupas
contemporâneas. A escolha desloca a ação para o presente e amplia a questão da
intolerância religiosa. “Hoje em dia a intolerância religiosa não está
circunscrita apenas à Igreja Católica, então a gente procurou ampliar esse
espectro, abrindo possibilidades de leituras nesse sentido”, diz Abilio.
Entre as questões identificadas no processo estão a intolerância
religiosa, de costumes e de modos de vida, além da resistência àquilo que é
diferente. A questão da mulher também ganha centralidade. Branca Dias é
perseguida por suas ideias e por sua disposição de questionar o poder
estabelecido. “É uma mulher que é levada à fogueira pela Inquisição, por suas
ideias, por sua ousadia de pensar fora dos cânones daquele poder estabelecido”,
afirma o diretor. Para ele, a fala da personagem de que não é a primeira e nem
será a última encontra ecos no cotidiano contemporâneo.
O texto de Dias Gomes é mantido integralmente, com pequenas
adaptações de expressões. A única inserção é o enunciado de abertura: “Brasil
hoje, Brasil Colônia, Brasil 1750, Tribunal da Inquisição, Brasil.” A partir do
texto original, outra chave da montagem está na frase de Branca Dias: “Tudo
é uma questão de interpretação. Depende da posição em que a gente se encontra.” Para
Abilio, a fala ganhou novas camadas diante da circulação de diferentes versões
dos fatos. “Depende do lado por onde você olha, você pode ter compreensões
diferentes”, afirma, aproximando a questão da interpretação do fenômeno das
fake news e da possibilidade de uma mesma história produzir compreensões
opostas e perigosas.
A própria história da peça é marcada por diferentes
interpretações. Escrita em 1966, O Santo Inquérito teve uma de
suas montagens mais conhecidas em 1976, no Rio de Janeiro, sob direção de Flávio
Rangel e com Isabel Ribeiro como Branca Dias. Em 1977, Rangel remontou o
espetáculo em São Paulo, desta vez com Regina Duarte no papel da protagonista.
Agora, seis décadas depois, uma nova geração assume a obra.
O elenco reúne sete estudantes do quarto e último ano da EAD:
Abraão Kimberley, Dennys Roberty Evangelista, Felipe Andrade, Hysnaip, Marília
Viana, Rodrigo Kantovitz e Vitor Ugo. A montagem não altera a dramaturgia para
atualizá-la, mas estabelece o contato entre diferentes tempos por meio dos atores,
da cena e do espaço. A concepção sonora, assinada por Abraão Kimberley e Abilio
Tavares, utiliza referências musicais e elementos sonoros para criar atmosferas
de opressão ao longo do espetáculo.
A apresentação no TUSP Maria Antônia acrescenta outra camada
histórica à montagem. O edifício que hoje integra o Centro MariAntonia abrigou
a antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e foi, nos primeiros
anos da ditadura, um importante espaço de produção intelectual e liberdade de
expressão. Em 1968, o local foi palco da Batalha da Maria Antônia, conflito que
culminou na morte do estudante secundarista José Guimarães e na saída da USP
daquele endereço.
Para Abilio, há uma proximidade histórica entre o espaço e a obra
de Dias Gomes: “O que é similar entre aquilo que o Dias Gomes estava escrevendo
como resistência, como um grito de liberdade quando ele escreve O Santo
Inquérito em 1966, e o que estava acontecendo naquele mesmo período
aqui em São Paulo nesse histórico prédio onde o TUSP hoje está instalado.”
A montagem integra a programação EAD Celebra os 60 anos da
ECA, que reúne atividades da Escola de Arte Dramática, da Escola de
Comunicações e Artes, do Teatro da USP, do Cinema da USP, do Centro MariAntonia
e da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária.
Mais do que atualizar O Santo Inquérito, a montagem
procura observar o que acontece quando uma obra muda de lugar no tempo. Para
Abilio, “a intolerância com a alteridade” e a mudança de posição de quem olha
são as duas grandes questões que a peça apresenta ao público em 2026. A
resposta para a pergunta sobre por que remontá-la hoje permanece aberta: cabe
também ao espectador encontrá-la.
FICHA TÉCNICA
O SANTO INQUÉRITO, de Dias Gomes
Turma 75 - Escola de Arte Dramática - EAD ECA USP
Elenco: Abraão Kimberley (Notário), Dennys
Roberty Evangelista (Guarda), Felipe Andrade (Simão
Dias, Hysnaip (Augusto Coutinho), Marília Viana (Branca
Dias), Rodrigo Kantovitz (Visitador), Vitor Ugo (Padre
Bernardo)
Encenação e Direção Geral: Abílio Tavares
Diretor Pedagogo: Ruy Cortez
Orientação Teórica: Antônio Rogério Toscano
Orientação no Trabalho de Voz: Mônica Montenegro
Cenário e Figurino: Marco Lima
Iluminação: Mário de Castro
Assistente de Iluminação: Alice Penido
Assistente de Direção e Operação de Som: Eduardo Barros
Concepção Sonora: Abraão Kimberley e Abílio
Tavares
Preparação Musical: Abraão Kimberley
Preparação Corporal: Felipe Andrade
Cenotécnicos: Alicio Silva e Zito
Rodrigues
Pintura de Arte: Danndhara Soyama e Paulo Sérgio Basílio
Costureira: Silvana Carvalho
Designer Gráfico: Gabriel Franco
Fotos: Manoela Rabinovitch
Produção: Abílio Tavares e Karina Cardoso
Realização: EAD - ESCOLA DE ARTE DRAMÁTICA e ECA – ESCOLA
DE COMUNICAÇŌES E ARTES DA USP – ECA 60 ANOS
SERVIÇO
O SANTO INQUÉRITO
Temporada: de 12 a 23 de Agosto de 2026
Dias e horários: Quarta a Domingo, às 20h
TUSP - TEATRO DA USP
Rua Maria Antônia, 294 - Vila Buarque - Sāo Paulo - SP
Lotação 100 lugares | Duração 100 minutos | Recomendação 12
anos
Entrada Franca – Retirada de ingressos com uma hora de antecedência, na
bilheteria do Teatro
Siga o perfil da peça no Instagram: https://www.instagram.com/santoinquerito
Créditos: Daniele Valério | Canal
Aberto
* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de
imprensa

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