Aretha Sadick protagoniza Lady Macbeth: Um Ensaio Sobre o Poder, releitura de Shakespeare no Sesc Ipiranga *
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| Foto meramente ilustrativa. |
Espetáculo com tradução e adaptação de Rodrigo França e direção de Tainara Cerqueira desloca o foco da tragédia para a mulher que articula a conquista do trono e transforma em cena a relação entre poder, raça, desejo e violência
O que uma pessoa
é capaz de fazer para chegar ao poder? E o que acontece quando finalmente
consegue? Essas são algumas das questões que movem Lady Macbeth: Um
Ensaio Sobre o Poder, espetáculo protagonizado por Aretha
Sadick, com direção de Tainara Cerqueira e tradução e
adaptação de Rodrigo França, que estreia no Sesc Ipiranga
no dia 21 de agosto, com temporada até 13 de setembro de 2026.
Em Macbeth,
uma das tragédias mais conhecidas de William Shakespeare, a ambição pelo trono
desencadeia uma sequência de assassinatos e conduz o casal protagonista à
destruição. Lady Macbeth ocupa papel decisivo nesse percurso: é ela quem
transforma a possibilidade sugerida pela profecia em plano de ação e pressiona
o marido a ultrapassar o limite entre desejar o poder e agir para conquistá-lo.
A própria tradição crítica da obra costuma associá-la à ambição e à
manipulação, mas leituras contemporâneas têm ampliado a discussão sobre gênero,
poder e responsabilidade na tragédia.
É justamente essa
personagem, Lady Macbeth, que a montagem coloca no centro. Em vez de
reproduzir a tragédia de Shakespeare, a peça parte dos principais monólogos da
personagem para construir uma reflexão sobre os mecanismos da ambição. O texto
preserva passagens fundamentais da obra original, especialmente aquelas ligadas
ao planejamento dos crimes, mas Rodrigo França acrescenta reflexões de caráter
filosófico e sociológico que funcionam como uma espécie de comentário sobre a
própria ação.
A mudança de
perspectiva também altera a relação com a história conhecida. Macbeth não
aparece em cena, embora esteja presente como um espectro com quem Lady Macbeth
dialoga. A personagem recebe a carta do marido e, a partir dela, começa a
preparar o discurso que usará para convencê-lo a assassinar o rei Duncan. As
bruxas são interpretadas pela própria Aretha e aparecem no início da montagem.
A história é organizada em cinco atos e uma cena final, acompanhando a
personagem desde a preparação do crime até o momento posterior à conquista da
coroa.
A encenação
Uma situação
cotidiana dá início ao espetáculo: Lady Macbeth toma banho. A banheira, o
espelho e uma escada compõem um espaço íntimo que progressivamente se
transforma em território de disputa pelo poder. A escada ganha diferentes
significados ao longo da peça, associada tanto à ascensão ao trono quanto à
presença de Macbeth. É nesse ambiente que a personagem passa da intimidade à
estratégia, da estratégia ao crime e, finalmente, à necessidade de sustentar
aquilo que conquistou.
Em determinado
momento, Lady Macbeth se transforma diante do público: Aretha aplica maquiagem
branca no rosto e no corpo e coloca uma peruca loira para construir a imagem de
uma figura associada ao poder. A cena estabelece uma relação com a história de
Chica da Silva e com a reflexão de Frantz Fanon sobre os mecanismos de
assimilação e a construção de uma aparência associada à branquitude como forma
de acesso a espaços de poder.
A escolha de uma
atriz negra para interpretar Lady Macbeth interfere na própria leitura da
personagem. Se, na obra de Shakespeare, Lady Macbeth deseja a coroa e está
disposta a ultrapassar limites para conquistá-la, a montagem acrescenta outra
camada à pergunta: o que significa desejar um lugar de poder quando esse lugar
foi historicamente construído a partir da exclusão de determinados corpos?
Essa perspectiva
também atravessa a equipe criativa. A direção de Tainara Cerqueira,
desenvolvida em colaboração com Rodrigo França, parte do corpo e do movimento
para transformar texto, intenção e estado emocional em ação. A diretora, cuja
pesquisa passa pela dança e pelos corpos negros em cena, trabalha com Aretha
uma transformação física que acompanha o percurso da personagem. O resultado é
uma Lady Macbeth que não apenas fala sobre o poder, mas o experimenta
corporalmente.
O figurino de
Luiz Claudio Silva reforça essa trajetória. São três momentos principais: o
primeiro, marcado por uma peça preta de caráter íntimo; o segundo, por um
vestido azul usado quando Lady Macbeth se prepara para se tornar rainha; e o
terceiro, por uma alfaiataria que aparece quando a personagem já alcançou o
lugar que perseguia. O azul, associado historicamente à realeza e à ideia de
“sangue azul”, também remete à construção cultural da cor como símbolo de
distinção e poder.
A trilha
sonora original de Dani Nega acompanha a estrutura da montagem. Em
alguns momentos, ganha força e conduz o movimento da atriz; em outros, funciona
como uma camada sonora contínua para os monólogos. A iluminação de
Carol Gracindo segue uma lógica cinematográfica, com mudanças sutis de luz
durante as cenas e longos períodos de permanência em um mesmo estado. A escolha
dialoga com uma das características da montagem: em contraste com a velocidade
das imagens contemporâneas, a peça propõe ao espectador permanecer diante de
uma situação e observar suas transformações.
O ponto de virada
da personagem acontece depois da conquista da coroa. Se, até então, sua
existência estava organizada pela falta e pelo desejo
de chegar ao poder, o que resta quando o objetivo é alcançado? A partir
daí, a personagem começa a olhar para o próprio percurso e para o custo daquilo
que fez. A pergunta que abriu sua trajetória retorna sob outra forma: depois
de fazer tudo para chegar ao poder, o que fazer com ele?
Macbeth é uma obra frequentemente retomada por
sua capacidade de produzir novas leituras sobre ambição, violência e poder.
Para a Folger Shakespeare Library, a tragédia continua a falar a diferentes
gerações justamente porque suas questões são continuamente deslocadas pelos
contextos históricos e sociais em que é encenada. Em Lady Macbeth: Um
Ensaio Sobre o Poder, esse deslocamento passa pelo corpo de Aretha Sadick e
por uma pergunta que Shakespeare deixou aberta: até onde alguém está disposto a
ir para conquistar aquilo que deseja?
Aretha Sadik
Aretha Sadick,
atriz, participou em 2024 das séries "Reencarne" (Rede Globo),
"Cidade de Deus" (MAX) e "Máscaras de oxigênio não cairão
automaticamente" (MAX). Foi protagonista nos curtas "A Lama da Mãe
Morta" e "Se eu tô aqui é por Mistério" (2023). Atuou na série
infantil "A Caverna de Petra" (Canal Futura /Globoplay) e em
participações nas séries "Me Chame de Bruna" (FOX) e "Os
Ausentes" (MAX). No teatro, interpretou Macunaíma na "Ópera
Tupi" (2019), foi co-protagonista em "Jorge Para Sempre Verão"
(2022), integrou o elenco de "AQUI - elevado a 1 trilhão" (2024) e
esteve no espetáculo 'Avenida Paulista - da Consolação ao Paraíso' dirigida por
Felipe Hirsch. Em 2026 protagoniza no cinema os filmes “Baricentro”, com
direção de Raphael Gustavo e Rochelle Silva, É Nois Kita Produções e Superketa,
com direção de Gustavo Vinagre. E no teatro, estreia agora em agosto o monólogo
“Lady Macbeth”, com direção de Rodrigo França e Tainara Cerqueira.
Ficha Técnica
A partir da obra de William Shakespeare
Tradução e Adaptação: Rodrigo França
Direção Cênica e Direção de Movimento: Tainara Cerqueira
Assistente de Direção: Priscila Borges
Atuação e Concepção Cenográfica: Aretha Sadick @arethasadick
Trilha Sonora Original: Dani Nega
Iluminação: Carol Gracindo
Figurino e Adereços: Luiz Claudio Silva
Visagista: Rosa Di Carlo
Técnico de Luz: Givva
Produção e Gestão Cultural: Dani Correia, Gabi Correia, Rachel
Brumana e Veni Barbosa
Associação SÙ de Cultura e Educação
Direção de Produção: SADICK PRODUÇÕES
Créditos: Daniele Valério | Canal
Aberto
* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de imprensa

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