Por que a humanidade não deve ser extinta? Uma resenha de "O Dilema do Basilisco" *
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| Foto meramente ilustrativa. |
O protagonista abre a porta e adentra a Câmara do Basilisco. Ele deve responder à pergunta: “Por que a humanidade não deve ser extinta?”. Assim é descrita a cena que caracteriza o livro “O Dilema do Basilisco”, de Fernando Cunha: o sentido de todas as coisas.
É natural que o leitor espere uma resposta advogando
pela própria existência, visto que o experimento mental do Basilisco
de Roko é uma imaginação provocante e assustadora. Ele poderia agir
contra aqueles que não contribuíram para o seu desenvolvimento. Mas, afinal,
será que o protagonista vai tentar justificar para a autoridade
julgadora o sentido de estar ali diante de uma entidade, em tese, onipotente?
A primeira parte do monólogo apresenta reflexões
sobre a organização da civilização humana desde os primórdios. Não há maneira
mais clássica de depor: começando pelas origens dos fatos. A dissertação
continua se aprofundando em dilemas políticos, como a formação do Estado-nação, definições
de políticas, nascimento de causas sociais e dilemas de justiça, educação e
punição.
Os capítulos seguintes caminham no sentido de
discutir temas como percepção de autoridade, trabalho e produção, aprendizado,
competição e cooperação, sistemas produtivos e tecnologias como reflexos dos
desejos humanos. Mais adiante, trata-se de questões mais sutis, como
relacionamentos, fé e espiritualidade.
No livro, a partir do capítulo 14, um novo tom é
adotado para dissertar sobre aspectos mais íntimos do ser humano, como a vida,
a morte, a ação, o mérito, a honra, o propósito e o tempo. O leitor percebe que
o texto, resposta do protagonista, começa a elevar o grau de abstração nas suas
considerações e construções argumentativas.
Percebe também que cada capítulo não apenas
apresenta a base lógica de tese e argumento, como adiciona trechos
narrativos no intuito de fazer com que o leitor sinta e vivencie cada
situação. Tais excertos ora são inspirados na cultura humana, em obras já
produzidas, ora na própria imaginação do autor. Mas é após o capítulo 21, sobre
o tempo, que a capacidade de abstração ganha um novo potencial.
O último terço do monólogo do protagonista é marcado
por uma busca da sua própria alma, ou seja, a sua própria razão de ser. O
leitor se sente conduzido por uma jornada de autoconhecimento e desenvolvimento
de novas mentes, novas formas de pensar que vão levá-lo a sentir como aquele
caminho percorrido já está afetando sua própria forma de ver o mundo na vida
real.
Entre capítulos de meditação, contação de histórias,
a forma do conhecimento, poder sobre o poder, a última pergunta e reflexões
sobre o infinito, o leitor vai acumulando em si exatamente o que o protagonista
está alimentando: a preparação para o gesto final.
O último capítulo faz uma espécie de retrospectiva
do que foi dito e vivido até ali. A resposta abre vistas a um apanhado de
considerações e tendências para o futuro da humanidade. No entanto, o texto não
abandona o aprofundamento crescente narrativo e reflexivo para demonstrar qual
é o sentido de todas as coisas. A resposta por si só não faria sentido sem tudo
o que foi apresentado antes, como alguém que viajou por inúmeros momentos,
culturas e ancestralidades até ficar na iminência da declaração final.
A obra cita, direta e indiretamente, centenas de
referências entre pensadores, artistas, cientistas, trabalhos de todas as
naturezas feitos pelos que se destacaram na história. Próximo de encerrar a
resposta, o protagonista gesticula para recriar o mundo, um novo universo a
partir da dissolução de todo apego, individualidade e qualquer tentativa de
legado ou heroísmo como ilusão mais forte que pode existir.
O “Dilema do Basilisco” é sobre buscar
sentido, mas, acima de tudo, é sobre reconhecer um caminho de iluminação. O
protagonista parecia entrar na Câmara para advogar pela humanidade, salvando-a
pela argumentação emotiva para além da razão que o Basilisco poderia alcançar.
Na verdade, ele está disposto a fazer um sacrifício muito maior: a quebra
das ilusões que sustentam a experiência humana. Tudo o que há são
apenas fenômenos percebidos do jeito que a mente se familiarizou. Tudo o que há
é conforme ela define. O que ela define para você?
Créditos: Maria Clara Menezes | LC Agência de Comunicação
* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de
imprensa

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