Dia do Folclore: preservar histórias também é manter viva a memória *
Para a narradora oral, escritora e biblioterapeuta Clara Haddad,
o folclore vai muito além de personagens como Saci, Iara, Curupira e Boitatá;
ele também vive nas cantigas, brincadeiras, provérbios, mitos e saberes
transmitidos de geração em geração
No Brasil, o Dia do Folclore, celebrado em 22 de
agosto, costuma trazer à memória personagens como Saci, Iara, Curupira e
Boitatá. Mas o folclore vai muito além das lendas mais conhecidas. Ele também
está nas cantigas, nas brincadeiras, nos provérbios, nos mitos e nos saberes
que atravessam o tempo por meio da tradição oral.
Em uma época em que o cotidiano das crianças e de
muitas famílias é cada vez mais atravessado por vídeos, jogos e plataformas
digitais, uma pergunta ganha espaço: quem ainda se senta para contar uma
história, cantar uma cantiga ou ensinar uma brincadeira aprendida na infância?
Para a narradora oral, escritora e biblioterapeuta
luso-brasileira Clara Haddad, a rotina acelerada pode reduzir
justamente os momentos de partilha em que saberes, afetos e memórias encontram
espaço para continuar vivos.
“Muito antes de existir a escrita, as histórias já
eram transmitidas pela voz. As pessoas se reuniam para ouvir mitos, lendas,
fábulas e cantigas que ajudavam a explicar o mundo, ensinar comportamentos e
compartilhar conhecimentos. Essas narrativas eram contadas e recontadas,
ficavam guardadas na memória de quem ouvia e eram transmitidas a quem vinha
depois”, explica.
Uma história que começou na infância
A relação de Clara Haddad com a tradição oral
começou ainda na infância, ao ouvir as histórias contadas pela avó. Foi nesse
contato que ela descobriu o encantamento de dar vida às palavras. O
conhecimento recebido dentro de casa acabou se transformando em ofício e, mais
tarde, também alimentou sua produção literária.
Grande parte de sua trajetória nasceu desse
percurso: da escuta, do repertório de histórias populares, do contato com
diferentes públicos e da experiência de fazer uma narrativa ganhar corpo diante
de quem a ouve.
Há mais de 25 anos, Clara se dedica à arte de contar
histórias e já levou seu trabalho a mais de 12 países. A experiência em
diferentes culturas reforçou uma percepção que acompanha sua trajetória: a
maneira como uma comunidade conta suas histórias também diz muito sobre quem
ela é.
Além de pesquisar e recontar histórias da tradição
oral mundial, Clara também escreve narrativas originais e trabalha com
biblioterapia, utilizando a leitura e as histórias como instrumentos de
reflexão e cuidado emocional.
O contador de histórias como guardião da memória
Para Clara, o contador de histórias tem uma
responsabilidade que vai muito além de decorar e reproduzir um texto.
“Ser guardião da memória não significa simplesmente
repetir palavras. Exige escuta, sensibilidade e discernimento”, afirma.
Segundo a escritora, contar uma história exige
conhecer sua origem, compreender seus símbolos e perceber por que aquela
narrativa continua fazendo sentido para quem a escuta.
“Cada história contada cria uma ponte entre quem
veio antes, quem escuta agora e quem ainda virá.”
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan) reconhece diferentes manifestações da cultura popular como
patrimônio cultural imaterial. Nesse campo estão conhecimentos, celebrações,
formas de expressão e práticas transmitidas entre gerações e transformadas pelas
próprias comunidades.
E a transformação faz parte da natureza da
oralidade. Uma história contada hoje pode não ser exatamente igual àquela
ouvida por quem a transmitiu. O contador acrescenta seu ritmo, sua maneira de
falar, seus gestos e, muitas vezes, elementos da própria experiência.
É justamente esse processo que permite que uma
narrativa atravesse o tempo sem deixar de pertencer ao presente.
Entre o livro e a voz
A relação entre oralidade e literatura também faz
parte da trajetória de Clara. Para ela, os livros são fundamentais para
registrar histórias, preservar versões e permitir que elas cheguem a leitores
que talvez nunca tivessem contato com determinadas narrativas. Mas uma história
não termina quando chega ao papel.
“Eu gosto de pensar que o livro é como uma
fotografia: ele registra uma narrativa daquele jeito, naquele momento. A
oralidade é diferente, porque coloca a história em movimento. Quem conta traz a
sua voz, o seu ritmo e um pouco de si. Afinal, quem conta um conto acrescenta
um ponto — e, às vezes, omite três”, brinca.
“E é justamente isso que é bonito: quando uma
história passa pela voz de alguém, ela ganha outras possibilidades. Deixa de
ser só texto e vira encontro.”
O folclore também está nas pequenas histórias
Para a escritora, preservar o folclore significa
também olhar para histórias que muitas vezes não aparecem nos livros.
“A cantiga que uma avó ensinou, a brincadeira
aprendida na rua, o ‘causo’ repetido nas reuniões de família, o mito conhecido
em uma determinada região. São histórias que podem parecer pequenas, mas
carregam modos de viver, de lembrar e de compreender o mundo. Quando deixamos
de contá-las, corremos o risco de perder não apenas a narrativa, mas parte da
memória que ela carrega”, destaca.
Uma cultura não permanece viva apenas porque foi
registrada. Ela precisa continuar sendo compartilhada, praticada e transmitida.
Livros, arquivos e novas tecnologias ajudam a
preservar e ampliar o acesso a esse patrimônio, mas é na voz de quem conta e na
escuta de quem ouve que muitas dessas narrativas continuam circulando. É assim
que uma memória deixa de ser apenas registro e volta a fazer parte da vida das
pessoas.
Para Clara Haddad, contar histórias é um gesto
antigo que continua sendo profundamente humano.
Não se trata de algo parado no passado, mas de uma
herança de memórias que podem ser recriadas no presente e levadas adiante.
Sobre
Clara Haddad
Clara Haddad é narradora oral, escritora e biblioterapeuta
luso-brasileira. Há mais de 25 anos dedica-se à arte de contar histórias e já
levou seu trabalho a mais de 12 países. Além de pesquisar e recontar narrativas
da tradição oral mundial, desenvolve histórias autorais e atua com
biblioterapia, utilizando a literatura e a narrativa como ferramentas de
reflexão, encontro e cuidado.
Créditos: Thiago Paleari | A+ Assessoria de Imprensa
* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de
imprensa
Comentários
Postar um comentário