Artista plástica Ivonne Ferrer: cartografias do corpo, do território e da memória *

Foto meramente ilustrativa.

Artista cubana, destaque da mostra coletiva "Entre Lugares", no Instituto Miguel de Cervantes, apresenta pesquisa que articula geometria, corpo, memória e deslocamento e amplia sua presença no circuito de artes visuais brasileiro

A experiência do deslocamento atravessa a trajetória da artista visual cubana Ivonne Ferrer e ocupa lugar central em uma produção construída a partir das relações entre corpo, espaço, memória, identidade e território. Nascida em Havana, em 1968, e formada pela Academia de Belas-Artes San Alejandro e pelo Taller Nacional de Serigrafía René Portocarrero, Ferrer desenvolve uma pesquisa que transita por diferentes linguagens e materiais, transformando experiências pessoais e culturais em construções visuais marcadas pela geometria e pela dimensão cartográfica.

Essa investigação esteve presente na mostra coletiva “Entre Lugares – Práticas contemporâneas entre Brasil, Cuba e Porto Rico”, encerrada na última segunda-feira (17), no Instituto Cervantes de São Paulo. Ao lado de Gerson Fogaça, Alexis Iglesias, J. Pavel Herrera e Bernardo Medina, a artista apresentou trabalhos da série “Cartografías del Ser”, aproximando sua produção do público brasileiro.

A participação na exposição representou um importante momento de diálogo entre a obra de Ferrer e o circuito de artes visuais brasileiro. Para a artista, esse encontro também revela novas possibilidades de leitura para trabalhos originalmente construídos a partir de experiências pessoais.

“Minha experiência com o público brasileiro tem sido muito estimulante. Percebo um olhar curioso, aberto e sensível, com grande disposição para se aproximar das obras e estabelecer conexões com elas. Para um artista, é especialmente enriquecedor observar como uma obra criada a partir de uma experiência pessoal pode adquirir novas leituras quando entra em contato com outro contexto cultural”, afirma.

Entre os trabalhos apresentados em São Paulo esteve “Cartografia do Entrelugar”, instalação construída a partir de um tabuleiro de xadrez fotográfico. A estrutura do jogo é retirada de sua função original e transformada em metáfora de território e, ao mesmo tempo, da posição que o indivíduo ocupa dentro dele.

A geometria, as imagens fragmentadas e a organização modular do tabuleiro estabelecem uma relação entre espaço, deslocamento e identidade. Nesse contexto, o “entrelugar” deixa de ser apenas uma localização física para assumir também uma dimensão subjetiva, cultural e afetiva.

“As imagens fragmentadas, a geometria e a estrutura do jogo aludem a essa condição de estar entre lugares, culturas, memórias e identidades”, explica Ferrer. “Trata-se de uma reflexão que inevitavelmente também se relaciona com minha própria experiência como artista cubana que viveu e desenvolveu sua obra fora de Cuba durante muitos anos.”

A dimensão cartográfica de sua pesquisa ganha outra configuração em “Cartografia do Jogo Interior”, conjunto formado por seis tapeçarias intervenidas com bordados e fragmentos de cerâmica. Fragmentos do corpo são incorporados ao tecido e conectados por fios aos bordados do fundo, criando uma estrutura que remete visualmente aos sistemas nervoso e circulatório.

Nesse trabalho, a materialidade ganha papel determinante. Tecido, cerâmica, linha, costura e fragmentos corporais deixam de funcionar apenas como elementos formais e passam a construir uma espécie de mapa afetivo, no qual memória, vulnerabilidade, identidade e transformação se entrelaçam.

“Embora sejam formalmente diferentes, ambas as propostas fazem parte de uma mesma investigação. Uma olha para o espaço que ocupamos entre diferentes territórios; a segunda se volta para esse território interior que carregamos conosco”, afirma a artista.

Na produção de Ferrer, portanto, cartografar não significa simplesmente representar espaços geográficos. O ato de mapear torna-se uma forma de investigar aquilo que constitui o indivíduo: experiências acumuladas, lugares vividos, memórias, vínculos e deslocamentos que permanecem inscritos no corpo.

Geometria, arquitetura e experiência
A pesquisa de Ivonne Ferrer terá continuidade em uma agenda internacional que inclui projetos no México, nos Estados Unidos e no Brasil. Em setembro de 2026, a artista apresentará a exposição “Geometrias Habitadas. Corpos, espaços e arquiteturas na obra de Ivonne Ferrer”, na Universidade Autônoma de Mérida, no México, como parte da programação comemorativa do 53º aniversário da instituição.

A exposição reunirá trabalhos de diferentes séries e momentos de sua trajetória, incluindo pinturas e instalações têxteis. A seleção foi realizada pelo crítico e curador David Mateo, que acompanha e pesquisa a presença da geometria e da arquitetura na produção da artista.

Paralelamente, o Museum of Contemporary Art of the Americas (MoCAA) apresentará, no Museu da Cidade de Mérida, uma seleção de sua coleção de arte cubana. A iniciativa estabelece uma ponte entre Miami, Cuba e México e contará também com a presença de Ferrer por meio de uma instalação pertencente à sua série mais recente, “El Lenguaje del Silencio”.

No Brasil, a artista prepara ainda uma exposição individual no Museu de Goiânia, prevista para novembro. Posteriormente, participará, em Britânia, no Vale do Araguaia, de uma exposição vinculada à inauguração do Instituto Urukum.  “O Brasil tornou-se um território de encontro não apenas expositivo, mas também humano e criativo”, afirma.

A atuação de Ferrer também se estende à pesquisa, à organização de exposições e ao intercâmbio institucional. Nesse contexto, participa de um projeto editorial dedicado a registrar e contextualizar diferentes aspectos de sua trajetória como subdiretora do MoCAA e sua relação com a coleção da instituição.

Segundo a artista, a publicação não pretende funcionar como um catálogo convencional, mas como um documento sobre a trajetória da coleção, as exposições realizadas em diferentes instituições e os intercâmbios culturais construídos ao longo dos anos.  Essa atuação dialoga com uma dimensão recorrente de seu percurso: a criação de pontes entre diferentes geografias da arte e entre experiências culturais distintas, estabelecendo zonas de contato e circulação.

Uma cartografia em permanente construção
Ao observar o conjunto da produção de Ivonne Ferrer, a cartografia surge como uma das chaves para compreender sua pesquisa. Não se trata apenas de representar mapas ou territórios, mas de investigar os processos pelos quais os indivíduos constroem sua relação com os lugares que habitam, deixam, recordam ou carregam consigo.

Cuba, Espanha, Estados Unidos, México e Brasil constituem, nesse percurso, mais do que referências geográficas. São territórios de experiência que atravessam uma produção construída a partir da circulação entre linguagens, materiais, culturas e memórias.

“Em todos os meus projetos mantenho a característica de minha obra, com um trabalho contínuo em torno da memória, do corpo, da geometria, do deslocamento e da identidade. Cada exposição é, para mim, uma nova possibilidade de reorganizar esse mapa. Talvez por isso a ideia de cartografia apareça cada vez com mais força em minha obra: porque todos nós estamos, de alguma maneira, construindo continuamente o mapa do lugar que ocupamos e do lugar ao qual pertencemos”, conclui.

Sobre Ivonne Ferrer
Nascida em Havana, Cuba, em 1968, Ivonne Ferrer formou-se pela Academia de Belas-Artes San Alejandro e pelo Taller Nacional de Serigrafía René Portocarrero. Sua produção compreende diferentes linguagens e procedimentos, entre eles pintura, escultura, arte pública, cerâmica, serigrafia e colagem, além de pesquisas com materiais têxteis e instalações.

A artista viveu na Espanha e, desde 1995, reside nos Estados Unidos. A experiência entre diferentes contextos culturais tornou-se parte constitutiva de sua pesquisa artística, marcada por questões relacionadas à memória, ao corpo, à geometria, à arquitetura, ao território, ao deslocamento e à identidade.

Sua obra pode ser compreendida como uma investigação sobre os lugares físicos e simbólicos que constituem a experiência humana e sobre a maneira como esses lugares permanecem inscritos na memória e no corpo.

Créditos: Davi Brandão

* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de imprensa

 

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