O Brasil não tem poucos leitores, por Vinícius Ferreira*
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| Foto meramente ilustrativa. |
Toda vez que aparece uma pesquisa revelando alguma tendência de queda nos índices de leitura, o diagnóstico de que o brasileiro não aprecia ler ressurge como um fantasma. Repetida com frequência, a apressada ideia foi assumindo ares de verdade evidente. Mas não é. Aliás, está muito longe de ser. O problema no Brasil nunca foi, de fato, falta de interesse pela leitura.
A questão pode ser mais bem compreendida
quando pensamos em como o
país continua a oferecer oportunidades bastante desiguais
para que alguém se torne leitor. Nenhum leitor nasce pronto, é preciso
reconhecer isso. A leitura é uma atividade que vai
se construindo ao longo da vida, por meio da convivência
familiar, da escola, das bibliotecas, do acesso aos livros, do tempo
disponível e da mediação.
No Brasil, infelizmente, esses recursos
permanecem concentrados e são quase
exclusivos de determinadas classes socioeconômicas. Com
isso, a leitura por aqui muitas vezes constitui um verdadeiro privilégio
antes de ser um direito. Historicamente, portanto, o país
foi transformando bens culturais em marcas de distinção social.
Reconhecer essa
desigualdade pode ajudar a
explicar o paradoxo de que, em um tempo de tantos
livros, tantos textos circulando e tantas possibilidades de acesso à
informação, milhões de brasileiros permanecem distantes da literatura.
Embora seja comum responsabilizar as redes
sociais, os celulares ou as novas tecnologias pela crise da leitura, é
preciso reconhecer que o problema não foi criado a partir da sua
incontornável presença em nossas vidas.
Mesmo que os nossos modos de atenção tenham
sido modificados, as facilitações trazidas
pelas inovações tecnológicas só tornaram ainda mais
visível a desigualdade antiga, agora traduzida na imagem objetiva de
um país que universalizou o consumo de telas antes de universalizar o acesso à
formação cultural.
Se o Brasil deseja mesmo ampliar seu
número de leitores, precisa abandonar o discurso moralizante segundo o
qual bastaria somente estimular o gosto pelos livros. Gostar de ler
não é um dom, nem mesmo uma virtude individual.
A massificação da leitura só
poderá resultar de oportunidades concretas de formação,
do investimento nas escolas públicas de
base, do fortalecimento das redes de bibliotecas, da democratização do
acesso ao livro e do reconhecimento da literatura como um
direito cultural.
Essas talvez sejam medidas menos espetaculares
do que os milhares de reais investidos em campanhas de
incentivo à leitura. Porém, muito mais
eficazes para alterar a pergunta fundamental.
Afinal, ao invés de procurar saber se não
gostamos mesmo de ler, devemos nos perguntar por que o acesso à
leitura no Brasil insiste em permanecer tão desigual.
*Vinícius Ferreira é professor
de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora
(UFJF), doutor em Estudos Literários e autor do livro “Não existe acaso no
inferno”
Agradecimentos: Maria Clara Menezes | LC Agência de Comunicação
** Este conteúdo foi enviado pela assessoria
de imprensa

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