Pessoas neurodivergentes e a experiência do Campeonato Mundial de Futebol *
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| Foto meramente ilustrativa. |
Estratégias simples ajudam famílias a reduzir impactos sensoriais e transformar o universo do futebol em uma experiência positiva para todos
A chegada do Campeonato Mundial de Futebol costuma
transformar ruas, casas e cidades inteiras em cenários de celebração. Torcidas
reunidas, gritos de gol, buzinas, cornetas e uma rotina que muda em torno das
partidas fazem parte da atmosfera que mobiliza milhões de pessoas. Mas, para
muitas famílias brasileiras, toda essa intensidade também exige atenção
especial. Isso porque, segundo dados inéditos do Censo 2022 divulgados pelo
IBGE, o Brasil tem atualmente 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com
Transtorno do Espectro Autista (TEA), o equivalente a 1,2% da população.
Entre as características frequentemente presentes no
autismo e em outras neurodivergências está a hipersensibilidade sensorial,
especialmente a auditiva. Sons altos, simultâneos ou inesperados, como fogos,
cornetas, buzinas e comemorações mais intensas , podem provocar desconforto,
ansiedade e até crises sensoriais. Diante desse cenário, estratégias simples
podem ajudar famílias a reduzir impactos e transformar o universo do futebol em
uma experiência mais positiva, acolhedora e inclusiva para todos.
Ainda assim, com planejamento e estratégias simples,
o futebol pode se tornar uma poderosa ferramenta de inclusão, aprendizado e
conexão familiar. É o que destaca Luz María Romero, gestora do Instituto Buko
Kaesemodel, que desenvolve o Programa Eu Digo X, iniciativa voltada à
conscientização, pesquisa e diagnóstico sobre a Síndrome do X Frágil, condição
correlata ao autismo.
Segundo ela, a preparação antecipada é um dos
principais caminhos para transformar o Campeonato Mundial de Futebol em uma
experiência positiva. “Falar com eles sobre o que vai acontecer, sobre os
jogos, o barulho no prédio, na rua ajuda muito a prepará-los para esses
eventos”, explica.
Antecipar a rotina, mostrar vídeos curtos sobre o
ambiente das partidas, explicar que haverá comemorações e até mudanças no
comportamento das pessoas ao redor pode reduzir ansiedade e evitar crises.
Materiais lúdicos, como álbuns temáticos e recursos visuais adaptados, também
podem ajudar nesse processo de familiarização.
Luz María compartilha uma experiência que traduz bem
como pequenas ações podem gerar grandes impactos na inclusão. Durante a última
Copa, um adolescente autista de sua vizinhança, junto com a mãe, escreveu
bilhetes aos moradores pedindo que evitassem o uso de cornetas, já que o som
provocava pânico nele. Cada mensagem vinha acompanhada de um pequeno chocolate.
“Foi impressionante como todo mundo colaborou”, relembra.
Sensibilidade sensorial pede
atenção redobrada
Ambientes ruidosos e cheios, como reuniões
familiares, bares ou até estádios, podem ser especialmente difíceis para
pessoas com hipersensibilidade auditiva. Nesse contexto, proteger o sentido é
essencial. “O uso de abafadores é fundamental para esses momentos”, recomenda
Luz María.
Embora os protetores auditivos específicos nem
sempre tenham preço acessível, ela lembra que há alternativas eficazes e mais
econômicas, como equipamentos de proteção individual vendidos em lojas de
materiais industriais, que ajudam a reduzir significativamente o impacto do
som.
Além disso, escolher locais mais tranquilos para
assistir às partidas, criar espaços de pausa e respeitar o tempo de cada pessoa
são atitudes que tornam a experiência mais confortável e segura.
Mais do que entretenimento, o Campeonato Mundial de
Futebol pode ser uma oportunidade rica para estimular comunicação, atenção,
raciocínio e interação social.
Para pessoas com deficiência intelectual ou
dificuldades de processamento, compreender regras, símbolos e dinâmicas do
esporte nem sempre é imediato. Por isso, recursos concretos e brincadeiras
podem fazer toda a diferença. “Usar um jogo de botão, por exemplo, pode nos
ajudar a ensinar às nossas crianças e adolescentes algumas das regras e jogadas
que acontecem em campo. É uma forma divertida de aprender”, sugere.
Simular partidas, explicar conceitos como gols,
faltas e escanteios de forma visual e associar jogadores a personagens ou
histórias são estratégias que facilitam a compreensão e tornam o futebol mais
acessível.
Apesar dos avanços na discussão sobre acessibilidade,
Luz María acredita que ainda há um longo caminho para que grandes eventos
esportivos sejam verdadeiramente inclusivos para pessoas neurodivergentes.
“Gostaria muito que cada vez mais clubes de futebol colocassem à disposição
espaços adaptados para pessoas neurodivergentes”, afirma.
Esses ambientes, já presentes em alguns estádios e
centros culturais ao redor do mundo, costumam oferecer isolamento acústico,
iluminação controlada, apoio especializado e áreas de descompressão,
recursos que permitem que pessoas com Síndrome do X Frágil, autismo e outras
neurodivergências participem dos eventos com mais conforto e autonomia.
Mais do que adaptações físicas, a especialista
reforça que a sociedade também precisa avançar em empatia e conscientização.
Pequenos gestos, como respeitar pedidos relacionados ao barulho ou compreender
a necessidade de pausas e adaptações, podem transformar completamente a
experiência dessas famílias.
No fim das contas, o futebol tem potencial para
unir, emocionar e criar memórias afetivas para todos. E garantir que pessoas
neurodivergentes possam viver plenamente essa experiência é também uma forma de
celebrar o verdadeiro espírito do Campeonato Mundial de Futebol: o de
pertencimento e inclusão.
Créditos: Sumi Costa | Conceito Notícias
* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de
imprensa

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