O destino da literatura em tempos de inteligência artificial *
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| Foto meramente ilustrativa. |
Os amantes da literatura já enfrentam grandes
desafios nos tempos atuais, como a crescente dificuldade de concentração e a
hiperconectividade, que são característicos da era digital e interferem
negativamente no desenvolvimento da leitura crítica e interpretativa. No
entanto, há uma nova preocupação: os livros gerados por inteligência artificial.
As discussões se intensificaram nas últimas semanas
quando a editora Hachette Book Group (uma das maiores do mundo), decidiu
cancelar o lançamento do livro “Shy Girl”, de Mia Ballard, após leitores
apontarem suspeitas de que a obra teria sido escrita com o auxílio de
ferramentas de IA. Esse caso intensificou no mercado o debate sobre o uso de
inteligência artificial na literatura e sobre a dificuldade de se diferenciar
textos humanos daqueles gerados por máquinas.
É inegável que entramos numa era de desconfiança.
Livros, artigos, matérias jornalísticas e publicações em redes sociais são
apenas alguns exemplos do que pode ser feito com o auxílio da inteligência
artificial. É natural que muitos leitores estejam confusos e desconfiados.
Afinal, como saber, com absoluta certeza, se o que estamos lendo provém da
criatividade humana?
Em recente reportagem do New York Times, intitulada
“Where Does Publishing’s A.I. Problem Leave Authors and Readers?” há o
relato de um autor, Antonio Bricio, que, ao testar um detector com um texto
escrito por ele próprio, obteve a resposta de que o conteúdo fora desenvolvido
por IA. Como nos protegemos de uma situação como essa? Nas palavras de Bricio,
estamos todos “pisando em ovos”.
O mercado editorial enfrenta um desafio hercúleo. De
um lado, o caso “Shy Girl” fez com que muitas pessoas questionassem como
uma das maiores editoras do mundo não detectou um suposto uso de IA; de outro,
considerando as falhas apresentadas pela tecnologia, criadores de conteúdo, de
forma geral, não terão vida fácil para comprovar a veracidade da sua própria
escrita. A julgar pelo atual estado de coisas, não surpreenderá se alguém
começar a se gravar enquanto escreve.
Para os consumidores, adquirir inadvertidamente um
livro gerado a partir da máquina pode se traduzir em violação ao dever de
transparência, previsto pelo Código de Defesa do Consumidor. O problema não é
só usar IA. É não revelar. É como adquirir um alimento “orgânico” que, na
verdade, foi produzido a partir de agrotóxicos.
Para além das implicações legais, não se pode
permitir que autores e leitores sejam desencorajados por esse temor. A
literatura não nasce apenas da capacidade de escrever, mas da experiência
humana, da sensibilidade, das emoções. É isso que conquista as gerações ao
longo do tempo. Jamais será apenas a velocidade e a eficiência com que um texto
pode ser produzido.
A euforia em torno da IA deve ser vista com cautela.
Assim como o “gênio maligno”, proposto por René Descartes, que nos leva a
duvidar até das certezas mais básicas, é preciso questionar se não estamos
sendo levados a aceitar, sem reflexão, novos critérios para definir a
inteligência humana. Ao fazê-lo, não estamos apenas validando a tecnologia, mas
rebaixando a nós mesmos.
Fonte: Stéfano Ribeiro Ferri - Advogado
- Fundador do escritório Stéfano Ferri Advocacia - Relator da 6ª
Turma do Tribunal de Ética da OAB/SP - Membro da Comissão de Direito Civil
da OAB - Campinas.
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Créditos: Bruna Ferrão | M1 Comunicação
* Este conteúdo
foi enviado pela assessoria de imprensa

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