Língua de herança, bilinguismo e integração: desafios do português em contextos migratórios *
No Dia do Português (5 de maio) como Língua de Herança, debate
destaca desafios do bilinguismo e o papel da língua na construção de vínculos
culturais em comunidades migrantes
O português, enquanto língua de herança, afirma-se
como um elemento de ligação entre gerações e territórios, mas enfrenta desafios
crescentes em contextos migratórios marcados pela mobilidade global. O tema
ganha especial destaque em 5 de maio, data assinalada como Dia do Português
como Língua de Herança, e se insere no debate mais amplo sobre integração,
bilinguismo e identidade linguística.
A data, instituída pela UNESCO, costuma ser marcada
por números — mais de 260 milhões de falantes, presença em vários continentes e
crescimento demográfico. Mas, muitas vezes, são as histórias individuais que
melhor revelam o alcance real de uma língua.
Para comunidades migrantes, o idioma deixa de
funcionar apenas como meio de comunicação e passa a atuar como elo afetivo com
a memória, a cultura e o pertencimento. Nesses cenários, o português é frequentemente
transmitido no ambiente familiar — um fenômeno que a sociolinguística define
como língua de herança: um idioma aprendido em casa, cuja continuidade depende
do uso constante no cotidiano. Sem essa prática, crianças e jovens tendem a
compreender a língua, mas deixam de utilizá-la com fluência, preservando-a
sobretudo como referência afetiva.
Nesses contextos, o bilinguismo é parte central da
experiência migratória. Diferentemente da relação entre Brasil e Portugal — que
envolve variações de uma mesma língua —, o bilinguismo diz respeito à
convivência entre o português e a língua dominante do país de acolhimento.
Estudos indicam que, quando bem acompanhado, esse
processo não prejudica o desenvolvimento linguístico. Pelo contrário, pode
ampliar repertórios cognitivos, culturais e sociais, além de facilitar
processos de integração. É nesse campo de mediação entre língua, educação e
cultura que se insere o trabalho da escritora, contadora de histórias e
biblioterapeuta Clara Haddad, que atua há mais de duas décadas entre Brasil e
Portugal com projetos ligados à literatura e à narração de histórias. Seu
trabalho envolve crianças, famílias, professores e ações formativas.
A atuação da artista busca ampliar a circulação da
literatura infantil entre os dois países, em um cenário no qual autores
portugueses ainda têm presença limitada no Brasil, enquanto escritores
brasileiros desse segmento chegam de forma reduzida ao mercado editorial
português. Nesse sentido, seu trabalho assume uma função de mediação cultural,
ao promover o contato entre diferentes repertórios literários e favorecer uma
aproximação mais natural entre variantes da língua portuguesa.
Essa iniciativa contribui para que essas variantes
sejam recebidas de maneira mais acessível e respeitosa, sobretudo na infância.
As ações também se estendem a países como Suécia, Espanha e Itália, em
colaboração com projetos como Pirulito e Bambalão, ligados à rede POLH —
Português como Língua de Herança —, que promove o ensino e a valorização do
idioma em comunidades da diáspora. Nesses espaços, Clara Haddad realiza
formações de professores, narração de histórias, apresentações de livros e
mediação de leitura de suas obras e de outros autores da lusofonia e da
tradição oral mundial.
“A vivência de crescer entre línguas e culturas é
cada vez mais comum”, afirma Clara Haddad. “Recentemente, muito se falou sobre
o atleta Lucas Pinheiro Braathen, que exemplifica essa realidade: nascido na
Noruega e com ligação familiar ao Brasil, ele representa uma geração que constrói
sua identidade em trânsito, entre múltiplas referências. Trabalho com muitas
crianças que vivem essa realidade, assim como com famílias brasileiras que
vivem fora do país e desejam preservar a língua de herança enquanto se integram
às sociedades onde vivem.”
A partir de sua experiência, Clara Haddad desenvolve
atualmente um novo projeto literário voltado às temáticas da imigração, do
pertencimento e da identidade em contextos bilíngues. A obra tem publicação
prevista para o próximo ano, em Portugal, pela Fábrica das Histórias. No
Brasil, a edição ainda não tem previsão de lançamento.
Em um cenário no qual os movimentos migratórios e
culturais redesenham fronteiras, o português como língua de herança se afirma
como um espaço de continuidade e transformação. Entre casa e escola, entre
países e gerações, a língua permanece em circulação — como elemento de ligação
e construção de identidade.
Créditos: Thiago Paleari | A+ Assessoria
* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de imprensa
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