Chico Science & Nação Zumbi: 30 anos de “Afrociberdelia”

 

"Afrociberdelia", o segundo disco da Nação Zumbi (o último com Chico Science), completa 30 anos de lançamento em 2026.

Nesta sexta-feira, 15 de maio, o segundo álbum do Chico Science & Nação Zumbi, “Afrociberdelia”, completa 30 anos de lançamento. Gravado nos estúdios Nas Nuvens, no Rio de Janeiro, e no Estúdio Mosh, em São Paulo, a obra saiu pelo selo Chaos e foi co-produzido por Eduardo BiD e Chico Science & Nação Zumbi. Infelizmente, foi o último registro da banda com Chico Science nos vocais, antes de sua morte precoce ocorrida no ano seguinte.

Considerado um dos principais álbuns dos anos 1990, a obra é uma das mais importantes do manguebeat e chama atenção pela riqueza sonora. O título sintetiza perfeitamente a proposta do disco: uma combinação de referências africanas, tecnologia e psicodelia, tudo conectado ao universo urbano e cultural do Recife.


Logo na abertura, “Mateus Enter” atua como um portal para esse universo. Tem pouca duração, mas é intensa e já deixa nítido a atmosfera da obra, quase como um lembrete de que o ouvinte está entrando em outra constância. Em seguida, “Cidadão do Mundo” traz uma das marcas mais intensas do disco: a mistura de ritmos. A música perambula pelo rap, pelo groove e pelo rock, enquanto Chico Science garante a identidade do manguebeat com versos definidos e cheios de atitude.


Etnia” talvez seja uma das faixas que melhor traduzem a essência do Nação Zumbi. Maracatu, hip hop, guitarras e percussão se encontram de forma adequada, cunhando um som contemporâneo e, simultaneamente, fortemente brasileiro. Já a instrumental “Quilombo Groove”, atesta o poder da banda na construção de ambientes. A música cresce aos poucos, com as alfaias e guitarras se misturando até alcançar um peso encantador.


O disco também permite momentos mais suaves e afetuosos. “Amor de Muito” traz um clima mais romântico, com uma sonoridade que lembra ritmos nordestinos dançantes. Em “Macô”, a banda amplia ainda mais suas influências ao lado de Gilberto Gil e Marcelo D2, criando música repleta de groove, samples e experimentações.


Outro grande momento do álbum é “Um Passeio no Mundo Livre”, que contém forte crítica social e surge de experiências reais vividas pelos integrantes da banda. Já “Manguetown” retoma a relação entre Recife, os mangues e as transformações urbanas da cidade, reforçando o olhar crítico e poético que Chico Science tinha sobre o Brasil.


Obviamente, é impossível falar de “Afrociberdelia” sem citar “Maracatu Atômico”. A releitura da música de Jorge Mautner se tornou um dos maiores símbolos da banda. Ficou tão boa que, de tão boa, na época, causou-me uma certa frustração em saber que era um cover, e ajudou a levar o som do manguebeat para um público ainda maior. É uma faixa explosiva, vibrante e que até hoje representa a força criativa do disco.

A versão LP tinha apenas 13 músicas, começando em "O Cidadão do Mundo" e terminando em "Amor de Muito", omitindo as faixas entre "Sangue de Bairro" e "Criança de Domingo". Uma reedição em vinil pela Polysom em 2010 para a coleção "Clássicos em Vinil" incluiu as faixas "Mateus Enter" e "Sangue de Bairro" como primeira e oitava faixa do lado A, respectivamente.


Musicalmente, “Afrociberdelia” é mais aprimorado e ousado do que “Da Lama ao Caos”. O resultado é um trabalho que mistura maracatu, rock, rap, música eletrônica, samba e psicodelia sem perder identidade.


Enfim, escutar essa obra-prima é entender por que Chico Science e Nação Zumbi mudaram a história da música nacional.

A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.

Álbum: Afrociberdelia
Intérprete: Chico Science & Nação Zumbi
Lançamento: 15 de maio de 1996
Gravadora/Distribuidora: Chaos
Produtores: Eduardo BiD e Chico Science & Nação Zumbi

Chico Science: voz
Dengue: baixo e baixo fretless em "Um Passeio no Mundo Livre" e "Samidarish"
Lúcio Maia: guitarra e viola em "Criança de Domingo"
Pupilo: bateria
Toca Ogam: percussão e voz
Gilmar Bolla 8, Gira e Jorge Du Peixe: alfaias

Fred 04: cavaquinho em "Samba do Lado"
Marcelo D2 e Gilberto Gil: backing vocais em "Macô"
Bidinho: trompete em "Etnia" e "Um Passeio no Mundo Livre"; flugelhorn em "Amor de Muito"
Eduardo BiD: guitarra dub em "Etnia"; arranjos de metais
Gustavo Didalva: percussão em "Samba do Lado"
Hugo Hori: flauta em "Macô" e "Amor de Muito"; sax em "Etnia" e "Um Passeio no Mundo Livre"
Lucas Santana: flauta em "Manguetown"
Marcelo Lobato: teclados em "Um Satélite na Cabeça (Bitnik Generation)"
Serginho Trombone: trombone em "Etnia", "Um Passeio no Mundo Livre" e "Amor de Muito"; arranjos de metais
Tiquinho: trombone em "Etnia", "Um Passeio no Mundo Livre" e "Amor de Muito" 

1. Mateus Enter (Chico Science & Nação Zumbi)
2. O Cidadão do Mundo (Chico Science & Nação Zumbi / Eduardo Bidlovski)
3. Etnia (Chico Science / Lúcio Maia)
4. Quilombo Groove (Instrumental) (Chico Science & Nação Zumbi)
5. Macô (Chico Science / Jorge Du Peixe / Eduardo Bidlovski)
6. Um Passeio no Mundo Livre (Dengue / Gira / Jorge Du Peixe / Lúcio Maia / Pupilo)
7. Samba do Lado (Chico Science & Nação Zumbi)
8. Maracatu Atômico (Jorge Mautner / Nelson Jacobina)
9. O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu (H.D. Mabuse / Jorge Du Peixe)
10. Corpo de Lama (Chico Science / Jorge Du Peixe / Dengue / Gira / Lúcio Maia)
11. Sobremesa (Chico Science & Nação Zumbi / Jorge Du Peixe / Renato L)
12. Manguetown (Dengue / Lúcio Maia)
13. Um Satélite na Cabeça (Bitnik Generation) (Chico Science & Nação Zumbi)
14. Baião Ambiental (Instrumental) (Dengue / Gira / Lúcio Maia)
15. Sangue de Bairro (Chico Science & Nação Zumbi / Ortinho)
16. Enquanto O Mundo Explode (Chico Science & Nação Zumbi)
17. Interlude Zumbi (Gilmar Bolla 8 / Gira / Toca Ogam)
18. Criança de Domingo (Cadão Volpato / Ricardo Salvagni)
19. Amor de Muito (Chico Science & Nação Zumbi)
20. Samidarish (Instrumental) (Dengue / Lúcio Maia)
21. Maracatu Atômico (Atomic Version) (Jorge Mautner / Nelson Jacobina)
22. Maracatu Atômico (Ragga Mix) (Jorge Mautner / Nelson Jacobina)
23. Maracatu Atômico (Trip Hop) (Jorge Mautner / Nelson Jacobina)

Por Jorge Almeida

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