Os Paralamas do Sucesso: 30 anos de "Severino"

"Severino" / "Dos Margaritas" (como é conhecido na Argentina) d'Os Paralamas do Sucesso completa 30 anos de lançamento em 2024

O sétimo trabalho d'Os Paralamas do Sucesso, "Severino", completou no último mês de abril 30 anos de lançamento. Gravado entre o final de 1993 e início de 1994, o disco saiu pela EMI e a produção ficou a cargo de Phil Manzanera. A obra é considerada um "disco tropicalista" da banda em virtude das fortes influências do movimento liderado por Caetano, Gil e Tom Zé (que, inclusive, faz participação especial).

O início dos anos 1990, Os Paralamas se dedicaram às experimentações, a começar pelo álbum "Os Grãos" (1991), que não teve boas vendas, embora trouxesse dois sucessos - "Trac-Trac" e "Tendo a Lua". E, depois de uma pausa, em 1992, o trio retornou para em 1993 e, em dezembro do mesmo ano, o grupo foi para a Inglaterra gravar "Severino", um trabalho mais experimental e com arranjos mais elaborados.

A faixa de abertura é "Não Me Estrague o Dia", com forte presença da influência nordestina e retrata as dificuldades dos brasileiros na época de quem vendia o almoço para comprar o jantar, num país tão devastado por desigualdades sociais. Em seguida, vem "Navegar Impreciso", que tem os vocais recitados por Tom Zé e Linton Kwesi Johnson (na parte em inglês da letra), com mais presença de metais na ótima letra de Herbert Vianna. O terceiro tema é introspectiva "Varal", em que Herbert Vianna utiliza metáforas e simbolismos para explorar a complexa relação entre amor e dor. O arame tenso sob o sol significa os desafios e a tensão presentes nos relacionamentos, propondo um processo de purificação ou transformação. Em seguida, em "Requiém do Pequeno", que apresenta uma reflexão contundente sobre a maneira de como o povo conduz sua vida, muitas vezes pautadas pelo medo, pela mediocridade e pela falta de entrega às experiências mais intensas da existência. Ao mencionar Agenor, pode ser uma referência a Cartola (ou seria Cazuza?), a canção evoca a ideia de que a vida é mais do que uma sucessão de trocados ou garantias. Depois, em "Vamo Batê Lata", que vem com um excelente groove funkeado, mencionando nominalmente Carlinhos Brown e o grupo Moleque de Rua, em uma abordagem que celebra a vida urbana e a cultura de rua. O título (que seria empregado no álbum seguinte do grupo, ao vivo) sugere a improvisação e a união através do ritmo (percussivo) e da dança. A música seguinte vem a bela "El Vampiro Bajo El Sol", parceria de Herbert com Fito Paez, e com a participação especialíssima de Brian May (sim, o lendário guitarrista do Queen), para surpresa do produtor Phil Manzanera, que duvidava da presença dele na gravação. E, Brian, não só aceitou, gravou vários solos e ainda deu algumas orientações para gravar os vocais. O play chega à metade com "Músico", parceria feita com Tom Zé, com guitarras influenciadas pela surf music e, com letras cheias de metáforas e simbolismos, a música aborda temas impetuosos a respeito da existência humana e da criação.

A segunda parte vem com "Dos Margaritas" (que, na Argentina, foi a faixa-título de "Severino” e que fez um enorme sucesso por lá), com um ótimo trabalho de percussão, metais bem dosados e uma letra surreal. De imediato, vem "O Rio Severino", originalmente gravada no álbum solo de Herbert Vianna ("Ê, Batumaré", de 1992), que traz uma forte crítica social abordando a desigualdade e a negligência encaradas pelos marginalizados no Brasil. O "rio Severino" é uma metáfora de corrente de vida e morte que cruza as cidades brasileiras, em uma referência (ou inspiração) em "Morte e Vida Severina", obra-prima de João Cabral de Melo Neto. Já em "Cagaço", que faz menção ao poeta Waly Salomão, foi o primeiro single do disco, mas não emplacou, e aborda a respeito de medo, desilusão e a luta diária pela sobrevivência, destacando os medos intrínsecos do ser humano. E o tracklist original do álbum encerra com "O Amor Dorme", uma música suave, uma balada melodiosa abordando a respeito do amor, que é descrito como algo que dorme e é armazenado dentro de uma caixa, gaveta ou uma sala.

As duas faixas bônus é um cover e uma releitura. "Go Back", dos amigos Titãs mezzo espanhol-mezzo português, assim como "Casí Un Segundo (Quase Um Segundo)", com o piano sendo tocado por Egberto Gismonti. Vale conferir pela curiosidade, pois não compromete no resultado final.

Com um trabalho repleto de melodias incomuns para os discos do grupo, "Severino", na época, foi mal recebido, tanto por críticos e parte dos fãs, o que fez dele um fracasso comercial. Inclusive, parece que até os próprios músicos “esqueceram” dele, vide a coletânea “Arquivo II: 1991-2000” (2000), que não tem nenhum tema dele. Porém, no ano seguinte, com o lançamento do ao vivo "Vamo Batê Lata", puxado pelo sucesso da inédita "Uma Brasileira", Os Paralamas do Sucesso retornaram com tudo, o que prosseguiu com os posteriores "Nove Luas" (1996) e "Hey Na Na" (1998).

Mas, sim, “Severino” merece uma audição mais “dedicada” por parte dos fãs não só d’Os Paralamas do Sucesso, mas também do apreciador do rock nacional.

A seguir, a ficha técnica e o tracklista da obra.

Álbum: Severino
Intérprete: Os Paralamas do Sucesso
Lançamento: abril de 1994
Gravadora/Distribuidora: EMI
Produtor: Phil Manzanera

Herbert Vianna: guitarra, violão de 12, E-bow e voz
Bi Ribeiro: baixo e programação de teclados
João Barone: bateria e triângulo

Eduardo Lyra: percussão
Demétrio Bezerra: trompete
Monteiro Jr.: saxofone
Senô Bezerra: trombone
Tom Zé: voz em "Navegar Impreciso"
Linton Kwesi Johnson: voz em "Navegar Impreciso"
Fito Paez: piano em "El Vampiro Bajo El Sol"
Brian May: guitarra solo e ritmo em "El Vampiro Bajo El Sol"
Reggae Philarmonic Orchestra: em "El Vampiro Bajo El Sol" e "Músico"
Geoff Davis: sopro (cano de PVC) em "Navegar Impreciso" e serrote em "Músico"
Phil Manzanera: guitarra solo em "O Amor Dorme"
Egberto Gismonti: piano em “Casí Un Segundo (Quase Um Segundo)

1. Não Me Estrague o Dia (Herbert Vianna / Bi Ribeiro)
2. Navegar Impreciso (Herbert Vianna)
3. Varal (Herbert Vianna)
4. Réquiem do Pequeno (Herbert Vianna)
5. Vamo Batê Lata (Herbert Vianna)
6. El Vampiro Bajo El Sol (Herbert Vianna / Fito Paez)
7. Músico (Tom Zé / Bi Ribeiro / Herbert Vianna)
8. Dos Margaritas (Herbert Vianna / Bi Ribeiro)
9. O Rio Severino (Herbert Vianna)
10. Cagaço (Herbert Vianna / Bi Ribeiro)
11. O Amor Dorme (Herbert Vianna)
12. Go Back (Sérgio Britto / Torquato Neto / Versão: Martim Cardoso)
13. Casí Un Segundo (Quase Um Segundo) (Herbert Vianna / Versão: Martim Cardoso)

Por Jorge Almeida

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Psicodramas insurgentes *

Artigo: Salve, Jorge!

Musical Minha Estrela Dalva *