Os Paralamas do Sucesso: 30 anos de "Severino"
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| "Severino" / "Dos Margaritas" (como é conhecido na Argentina) d'Os Paralamas do Sucesso completa 30 anos de lançamento em 2024 |
O início dos anos 1990, Os Paralamas se
dedicaram às experimentações, a começar pelo álbum "Os Grãos" (1991), que não teve boas vendas, embora trouxesse
dois sucessos - "Trac-Trac" e "Tendo a Lua".
E, depois de uma pausa, em 1992, o trio retornou para em 1993 e, em dezembro do
mesmo ano, o grupo foi para a Inglaterra gravar "Severino", um
trabalho mais experimental e com arranjos mais elaborados.
A faixa de abertura é "Não Me Estrague
o Dia", com forte presença da influência nordestina e retrata as
dificuldades dos brasileiros na época de quem vendia o almoço para comprar o
jantar, num país tão devastado por desigualdades sociais. Em seguida, vem
"Navegar Impreciso", que tem os vocais recitados por Tom Zé e
Linton Kwesi Johnson (na parte em inglês da letra), com mais presença de metais
na ótima letra de Herbert Vianna. O terceiro tema é introspectiva "Varal",
em que Herbert Vianna utiliza metáforas e simbolismos para explorar a complexa
relação entre amor e dor. O arame tenso sob o sol significa os desafios e a
tensão presentes nos relacionamentos, propondo um processo de purificação ou
transformação. Em seguida, em "Requiém do Pequeno", que
apresenta uma reflexão contundente sobre a maneira de como o povo conduz sua
vida, muitas vezes pautadas pelo medo, pela mediocridade e pela falta de
entrega às experiências mais intensas da existência. Ao mencionar Agenor, pode
ser uma referência a Cartola (ou seria Cazuza?), a canção evoca a ideia de que
a vida é mais do que uma sucessão de trocados ou garantias. Depois, em "Vamo
Batê Lata", que vem com um excelente groove funkeado, mencionando nominalmente
Carlinhos Brown e o grupo Moleque de Rua, em uma abordagem que celebra a vida
urbana e a cultura de rua. O título (que seria empregado no álbum seguinte do
grupo, ao vivo) sugere a improvisação e a união através do ritmo (percussivo) e
da dança. A música seguinte vem a bela "El Vampiro Bajo El Sol",
parceria de Herbert com Fito Paez, e com a participação especialíssima de Brian
May (sim, o lendário guitarrista do Queen), para surpresa do produtor Phil
Manzanera, que duvidava da presença dele na gravação. E, Brian, não só aceitou,
gravou vários solos e ainda deu algumas orientações para gravar os vocais. O
play chega à metade com "Músico", parceria feita com Tom Zé,
com guitarras influenciadas pela surf music e, com letras cheias de metáforas e
simbolismos, a música aborda temas impetuosos a respeito da existência humana e
da criação.
A segunda parte vem com "Dos
Margaritas" (que, na Argentina, foi a faixa-título de "Severino” e que fez um enorme sucesso
por lá), com um ótimo trabalho de percussão, metais bem dosados e uma letra
surreal. De imediato, vem "O Rio Severino", originalmente
gravada no álbum solo de Herbert Vianna ("Ê, Batumaré", de 1992), que traz uma forte crítica social
abordando a desigualdade e a negligência encaradas pelos marginalizados no
Brasil. O "rio Severino" é uma metáfora de corrente de vida e morte
que cruza as cidades brasileiras, em uma referência (ou inspiração) em "Morte e Vida Severina", obra-prima
de João Cabral de Melo Neto. Já em "Cagaço", que faz menção ao
poeta Waly Salomão, foi o primeiro single do disco, mas não emplacou, e aborda
a respeito de medo, desilusão e a luta diária pela sobrevivência, destacando os
medos intrínsecos do ser humano. E o tracklist original do álbum encerra com
"O Amor Dorme", uma música suave, uma balada melodiosa
abordando a respeito do amor, que é descrito como algo que dorme e é armazenado
dentro de uma caixa, gaveta ou uma sala.
As duas faixas bônus é um cover e uma
releitura. "Go Back", dos amigos Titãs mezzo espanhol-mezzo
português, assim como "Casí Un Segundo (Quase Um Segundo)",
com o piano sendo tocado por Egberto Gismonti. Vale conferir pela curiosidade,
pois não compromete no resultado final.
Com um trabalho repleto de melodias incomuns
para os discos do grupo, "Severino",
na época, foi mal recebido, tanto por críticos e parte dos fãs, o que fez dele
um fracasso comercial. Inclusive, parece que até os próprios músicos “esqueceram”
dele, vide a coletânea “Arquivo II:
1991-2000” (2000), que não tem nenhum tema dele. Porém, no ano seguinte,
com o lançamento do ao vivo "Vamo
Batê Lata", puxado pelo sucesso da inédita "Uma Brasileira",
Os Paralamas do Sucesso retornaram com tudo, o que prosseguiu com os
posteriores "Nove Luas"
(1996) e "Hey Na Na"
(1998).
Mas, sim, “Severino”
merece uma audição mais “dedicada” por parte dos fãs não só d’Os Paralamas do Sucesso,
mas também do apreciador do rock nacional.
A seguir, a ficha técnica e o tracklista da
obra.
Álbum: Severino
Intérprete: Os Paralamas do Sucesso
Lançamento: abril de 1994
Gravadora/Distribuidora: EMI
Produtor: Phil Manzanera
Herbert Vianna: guitarra, violão de 12, E-bow e voz
Bi Ribeiro: baixo e programação de teclados
João Barone: bateria e triângulo
Eduardo Lyra: percussão
Demétrio Bezerra: trompete
Monteiro Jr.: saxofone
Senô Bezerra: trombone
Tom Zé: voz em "Navegar Impreciso"
Linton Kwesi Johnson: voz em
"Navegar Impreciso"
Fito Paez: piano em "El Vampiro Bajo El Sol"
Brian May: guitarra solo e ritmo em "El Vampiro Bajo El Sol"
Reggae Philarmonic Orchestra: em "El Vampiro Bajo El Sol" e "Músico"
Geoff Davis: sopro (cano de PVC) em "Navegar
Impreciso" e serrote em "Músico"
Phil Manzanera: guitarra solo em "O Amor Dorme"
Egberto Gismonti: piano em “Casí
Un Segundo (Quase Um Segundo)”
1. Não Me Estrague o Dia (Herbert Vianna / Bi Ribeiro)
2. Navegar Impreciso (Herbert Vianna)
3. Varal (Herbert
Vianna)
4. Réquiem do Pequeno (Herbert Vianna)
5. Vamo Batê Lata (Herbert Vianna)
6. El Vampiro Bajo El Sol (Herbert Vianna / Fito Paez)
7. Músico (Tom
Zé / Bi Ribeiro / Herbert Vianna)
8. Dos Margaritas (Herbert Vianna / Bi Ribeiro)
9. O Rio Severino (Herbert Vianna)
10. Cagaço (Herbert Vianna / Bi Ribeiro)
11. O Amor Dorme (Herbert Vianna)
12. Go Back (Sérgio Britto / Torquato Neto / Versão: Martim Cardoso)
13. Casí Un Segundo (Quase Um Segundo) (Herbert Vianna / Versão: Martim Cardoso)
Por Jorge Almeida

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