Camisa de Vênus: 40 anos de “Correndo o Risco”
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| "Correndo o Risco", do Camisa de Vênus, completa 40 anos de lançamento em 2026. |
Neste sábado, 7 de novembro, o disco “Correndo O Risco“, o terceiro trabalho de estúdio do Camisa de Vênus, completa 40 anos de lançamento. Produzido por Pena Schmidt, o álbum foi gravado entre agosto e setembro de 1986 no Estúdio RAC, em São Paulo (SP) e lançado pela WEA (o primeiro com a gravadora) e distribuído pela RCA Victor.
Pouco tempo antes de soltar o disco, o Camisa de Vênus havia soltado em julho o clássico álbum ao vivo “Viva” (1986) por questões de acordo com a antiga gravadora dos caras, a RGE, pois a banda precisava cumprir o acordo com a empresa. Com a WEA, o Camisa de Vênus inaugurou a nova aparelhagem de 24 canais no estúdio, além de ter vários convidados participando das gravações.
O disco abre com o clássico rockabilly de “Simca Chambord“, referente ao clássico carro que marcou a indústria automobilística brasileira, mas aqui foi usado metaforicamente sobre a Ditadura Militar, citando o governo do presidente João Goulart até o golpe militar, deteriorando a classe média, quando Marceleza vociferara que “vieram com jipes e tanques que mudaram os nossos planos” e quando “acabaram com o Simca Chambord“. A acidez do grupo deu continuidade na sequência do álbum, dessa vez, o alvo foi a religião com “Mão Católica” em uma crítica direta à Igreja Católica que, para expandir o Cristianismo pelo mundo, usava a repressão e alienação para com as pessoas e Marcelo, que teve a experiência em um semi-externato quando era mais novo, fala a respeito do sentimento de culpa. O terceiro tema é a mórbida “Morte Ao Anoitecer“, um Blues bem soturno e que, diferentemente do estilo punk da banda, a sonoridade ficava mais próximo de uma banda gótica. Voltando ao tema da religião, o Camisa manda muito bem na divertida “Deus Me Dê Grana“, que fala de alienação religiosa ao mesmo tempo uma crítica social ao abordar do sujeito que recorre a Deus para pedir dinheiro, sanar suas dívidas, tirá-lo da penúria e, quem sabe, manter uma vida sexual ativa. E, encerrando o lado A, uma releitura punk e atualizada de “Ouro de Tolo“, de Raul Seixas, com direito a Marceleza substituir o Corcel 73 pelo Monza 86, o tobogã pelo videogame e a cidade maravilhosa por “cidade marabichosa”.
O lado dois do vinil começava com outro clássico: “Só O Fim“, com uma letra apocalíptica em que temas como angústia, medo e insegurança da sociedade contemporânea se faziam presentes e o refrão fazia referência a “Gimme Shelter“, dos Rolling Stones. Na sequência, a debochada e sexista “O Que É Que Eu Tenho Que Fazer?“, com uma abordagem bem típica da banda em que Marcelo Nova deixa claro que é válido fazer qualquer coisa para conseguir passar uma noite com a garota. A penúltima faixa é “Tudo Ou Nada“, com uma abordagem que trata do mundo competitivo e materialista. E, por fim, a épica “A Ferro e Fogo“, em que o grupo é acompanhado por uma orquestra tocando sob a batuta do maestro Armando Ferrante Júnior. Na música, Marcelo narra a saga incontrolável de homens em navegar os sete mares, sem temer as tempestades.
Contrariando os fãs mais radicais, que não curtiram a ideia de a banda ter ido para uma grande gravadora, o álbum agradou público e crítica, vendendo mais de 300 mil cópias, fazendo de “Correndo O Risco“, o trabalho mais vendido do grupo baiano, com turnê nacional com shows lotados e hits radiofônicos liderados por “Simca Chambord“, “Deus Me Dê Grana” e “Só O Fim“.
Aliás, a regravação de “Ouro de Tolo” permitiu a proximidade do Camisa de Vênus, especialmente Marcelo Nova, com o conterrâneo Raul Seixas que, na época, estava beirando o ostracismo. Essa relação, permitiu que a banda convidasse Raulzito a participar no disco seguinte, na autoria de “Muita Estrela, Pouca Constelação“, que saiu em “Duplo Sentido” (1987) e, pouco depois, Marcelo Nova e Raul Seixas se juntaram para gravarem o disco derradeiro de Raul: “A Panela do Diabo” (1989), que saíra apenas a dois dias antes da morte do eterno Maluco Beleza.
Em relação à obra, “Correndo O Risco” é um ótimo registro de rock. Infelizmente, para quem tem bom humor e um pouco de deboche no seu DNA, o material não saiu em CD. Mas, por outro lado, em tempos dessa porcaria de “politicamente correto”, certamente essa galera se manifestaria por aí pedindo o “cancelamento” do Camisa de Vênus. Então, caros jovens “alecrins dourados”, esse disco não é para vocês ou, como preferirem, esse álbum é coisa de “cringe”, não ouçam e deixem para os “milenials” apreciarem. Um clássico absoluto do BRock.
A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.
Álbum: Correndo O Risco
Marcela Nova: voz
Por
Jorge Almeida

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