Metallica/Lou Reed: 15 anos de “Lulu”
![]() |
| O contestável "Lulu", parceria entre Metallica e Lou Reed, completa 15 anos de lançamento em 2026. |
Hoje, 31 de outubro, o álbum “Lulu”, uma colaboração (inusitada) entre Lou Reed e Metallica, completa 15 anos de lançamento. Gravado entre abril e junho de 2011 no Metallica's HQ, em San Rafael, o disco saiu pela Warner Bros./Vertigo e produzido por Greg Fieldman, Metallica, Lou Reed e Hal Willner. A versão norte-americana saiu em 1° de novembro.
A
improvável parceria que resultou em “Lulu” teve início em 2009 quando os
músicos se encontraram durante uma apresentação em comemoração aos 25 anos do
Rock And Roll Hall Of Fame. A ideia de os dois artistas com estilos, trajetórias
e estilos bem diferentes começou a ganhar forma nos anos seguintes, até que Lou
Reed propôs ao Metallica algumas composições que havia criado para uma produção
teatral inspiradas nas pelas de Frank Wedekind, dramaturgo alemão. No contexto,
a história aborda a respeito de Lulu, uma personagem caracterizada por desejos,
conflitos, relações destrutivas e situações extremas. Com o envolvimento do
Metallica nos arranjos e na instrumentação, o material recebeu uma nova
estrutura, o que resultou em uma produção musical de 90 minutos.
Os
músicos deixaram evidente que “Lulu” não se trata de um disco tradicional. A
ideia é explorar exatamente a junção de dois estilos diferentes. Enquanto pelo
lado do Metallica, a base instrumental construída é pesada, constituída por
riffs repetitivos, distorções, ruídos e longas passagens, Lou Reed, por sua
vez, adota uma postura mais vinculada da declamação do que do canto habitual. Sua
voz soa falada, recitada e, em certas ocasiões, teatral.
E é exatamente essa combinação que fez o álbum ser tão difícil de assimilar. Para quem esperava ouvir o peso e a agressividade dos trabalhos costumeiros do Metallica, a experiência pode ser decepcionante. Da mesma maneira, quem procurava as melodias e a sensibilidade mais franca de Lou Reed possivelmente deve ter se deparado uma obra bastante incômoda.
A abertura com “Brandenburg Gate” proporciona uma das tentativas mais atraentes de beirar os dois universos. A participação vocal de James Hetfield ajuda a instituir um afronte mais contrabalançado com a interpretação de Reed, deixando que a música tenha períodos de maior familiaridade para os ouvintes do Metallica. Ainda assim, a faixa mantém o modo teatral e pouco convencional que acompanha todo o álbum.
Em seguida, “The View”, que foi lançada como primeiro single, tornou-se possivelmente a música mais popular do projeto. Seu instrumental exibe uma composição relativamente próxima da fase “Load” e “Reload”, com riffs pesados e uma construção que cresce gradualmente. Entretanto, a interpretação de Lou Reed é bastante típica, principalmente quando ele repete frases como se estivesse lendo um texto sobre a base instrumental. O trecho em que James Hetfield canta - “I am the table!”- acabou se tornando um dos momentos mais comentados e avacalhados da obra, contribuindo para a repercussão negativa da colaboração.
Já faixas como “Pumping Blood” e “Mistress Dread” representam alguns dos momentos mais hostis e experimentais do trabalho. Na primeira, a repetição das frases de Reed acompanha uma instrumentação dosada de tensão, ruídos e mudanças de acuidade. O resultado pode trazer desconforto, mas também confirma a finalidade dos músicos de construir uma atmosfera carrancuda e perturbadora. Já “Mistress Dread” apresenta uma participação instrumental mais próxima da característica do peso do Metallica, com riffs marcantes e uma sonoridade que remete aos momentos mais agressivos da banda.
Em “Iced Honey”, o play traz uma das composições mais acessíveis do disco. Com uma estrutura que tem um pé no Hard Rock, a faixa apresenta maior sensatez entre os instrumentos e a interpretação vocal. A presença de Hetfield também coopera para tornar a música mais familiar, enquanto as letras de Reed mantêm o estilo poético e metafórico da obra.
Por outro lado, em “Cheat On Me”, os músicos apostaram em uma abordagem mais lenta e atmosférica. Com mais de onze minutos de duração, a música cresce suas ideias gradualmente, alternando andamentos de tensão e passagens mais suaves. É uma das faixas em que a sugestão teatral de “Lulu” fica mais notório, estabelecendo paciência e atenção do ouvinte.
Enquanto isso, em “Frustration”, eles seguem um caminho ainda mais desconfortável. A interpretação de Lou Reed é intensa, quase temperamental, enquanto o Metallica escora uma base instrumental pesada e cíclica. A música demonstra como a combinação pode trabalhar como uma representação de sentimentos extremos, embora sua execução também possa ser considerada exagerada. A repetição de determinadas frases e a ausência de uma estrutura convencional tornam a audição árdua.
Em “Little Dog”, a instrumentação acústica proporciona uma mudança conveniente de atmosfera, criando uma discrepância com os momentos mais pesados do álbum. Já “Dragon” se destaca pelo riff principal, que expõe uma das ideias instrumentais mais acentuadas do disco. São exemplos de como, mesmo em meio ao experimentalismo, o Metallica consegue erguer passagens que chamam a atenção individualmente.
O encerramento fica por conta da longa “Junior Dad”, uma composição de aproximadamente dezenove minutos que resume boa parte da proposta do projeto. Com um clima melancólico, arranjos de violino e uma construção lenta e contemplativa, a faixa se distancia bastante do que normalmente se espera de um álbum de Heavy Metal. Sua longa duração pode separar os ouvintes menos pacientes, mas também proporciona um encerramento grandioso e emocional, funcionando como uma espécie de epítome da experiência proposta pelos dois artistas.
A recepção de “Lulu” foi amplamente negativa, especialmente entre os fãs do Metallica. Muitos não conseguiram aceitar a forma como a banda abdicou boa parte de sua estrutura tradicional para acompanhar as interpretações de Lou Reed. O disco também recebeu avaliações bastante contrárias de parte da crítica especializada, tornando-se “Lulu” constantemente como um dos lançamentos mais questionáveis da carreira dos envolvidos.
Mais do que uma obra do Metallica ou de Lou Reed, “Lulu” é a crônica de uma experiência que poucos artistas teriam ousadia de concretizar. E, involuntariamente de ser avaliado um fracasso ou uma obra incompreendida, continua sendo um dos projetos mais excêntricos e discutidos da história do rock.
A seguir,
a ficha técnica e o tracklist da obra.
Álbum:
Lulu
Intérpretes:
Metallica e Lou Reed
Lançamento:
31 de outubro de 2011
Gravadora/Distribuidora:
Warner Bros. / Vertigo
Produtores:
Greg Fidelman, Metallica, Lou Reed e Hal Willner
Lou
Reed: guitarra e voz
James
Heffield: guitarra rítmica e vocal de apoio
Kirk
Hammett: guitarra solo
Robert
Trujillo: baixo
Lars
Ulrich: bateria
Sarth
Calhoun: eletrônica
Jenny
Scheinman: violino, viola, arranjos de cordas
Gabe
Witcher e Megan
Gould: violinos
Ron
Lawrence: viola
Marika
Hughes: violoncelo
Ulrich
Maas: violoncelo em "Little Dog" e "Frustration"
Rob
Wasserman: baixo vertical elétrico em "Dad Junior"
Jessica
Troy: viola em "Junior
Dad"
CD
1:
1. Brandenburg
Gate (Lou Reed / Metallica)
2. The
View (Lou Reed / Metallica)
3. Pumping
Blood (Lou Reed / Metallica)
4. Mistress
Dread (Lou Reed / Metallica)
5. Iced
Honey (Lou Reed / Metallica)
6. Cheat
On Me (Lou Reed / Metallica)
CD
2:
1. Frustration
(Lou Reed / Metallica)
2. Little
Dog (Lou Reed / Metallica)
3. Dragon
(Lou Reed / Metallica)
4. Junior
Dad (Lou Reed / Metallica)
Por
Jorge Almeida

Comentários
Postar um comentário