Iron Maiden: 40 anos de “Somewhere In Time”
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| "Somewhere In Time", do Iron Maiden, completa 40 anos de lançamento em 2026. |
Hoje, 29 de setembro, completam-se 40 anos do lançamento de “Somewhere In Time”, sexto álbum de estúdio do Iron Maiden e um dos trabalhos mais marcantes da carreira da banda. Produzido novamente por Martin Birch, o disco saiu pela EMI e foi lançado em um momento particularmente importante para o grupo.
Depois de cinco álbuns lançados entre 1980 e 1984, de uma ascensão praticamente ininterrupta e da gigantesca World Slavery Tour, o Iron Maiden havia alcançado um nível de popularidade que poucas bandas de heavy metal poderiam imaginar. A turnê, realizada entre 1984 e 1985, ainda seria eternizada pelo clássico álbum ao vivo “Live After Death”, lançado em 1985.
Era justamente nesse cenário de absoluto sucesso que o Maiden precisava decidir qual seria o próximo passo. Em vez de simplesmente repetir a fórmula que havia funcionado tão bem nos discos anteriores da era Dickinson. O resultado foi “Somewhere In Time”, um álbum que preservou as características fundamentais do Iron Maiden, mas incorporou uma nova dimensão sonora e estética.
As gravações aconteceram nos Compass Point Studios, em Nassau, nas Bahamas, e no Wisseloord Studios, em Hilversum, na Holanda. O disco marcou a primeira utilização de sintetizadores de guitarra na história do Iron Maiden. Não eram teclados convencionais, mas efeitos aplicados às guitarras de Adrian Smith e Dave Murray, recurso que acrescentou uma atmosfera futurista às músicas e combinou perfeitamente com a proposta visual do álbum. A experiência seria mantida e desenvolvida no trabalho seguinte, “Seventh Son Of A Seventh Son” (1988).
A temática de “Somewhere in Time” dialoga diretamente com a ficção científica, especialmente com a atmosfera de filmes como Blade Runner. Essa influência aparece tanto na sonoridade quanto na extraordinária arte criada por Derek Riggs. A capa, a contracapa e o encarte formam praticamente um universo próprio, repleto de referências à história do Iron Maiden.
Na capa, Eddie aparece como um personagem cibernético, armado e inserido em uma paisagem urbana futurista. Entre os inúmeros detalhes está a placa “Acacia”, parcialmente escondida, referência a “22 Acacia Avenue”, de “The Number Of The Beast”. Há também elementos que remetem a outras músicas, personagens e acontecimentos relacionados à trajetória da banda. Na contracapa, o relógio marcando 23:58 faz referência a “2 Minutes To Midnight”, de “Powerslave” (1984). Logo abaixo aparece a inscrição “The Phantom Of The Opera”, lembrando uma das músicas mais importantes do álbum de estreia do grupo. Também há uma referência ao West Ham, clube de futebol pelo qual Steve Harris é conhecido como torcedor – LATEST RESULTS: WEST HAM 7, ARSENAL 3 -, entre dezenas de outras pequenas mensagens espalhadas pela ilustração relacionadas a outros temas da “Donzela”
O trabalho de Derek Riggs é tão detalhado que a arte de “Somewhere In Time” se transformou, ao longo das décadas, em uma espécie de jogo para os fãs. Mesmo depois de tantos anos, ainda existem referências sendo identificadas, discutidas e interpretadas pelos chamados “maidenmaníacos”.
Musicalmente, entretanto, o álbum concebeu uma mudança importante. Na época, parte do público estranhou a utilização dos sintetizadores de guitarra, principalmente porque eles alteravam a sonoridade tradicional da banda. O disco não possui exatamente o mesmo peso direto de “Piece Of Mind” ou “Powerslave”. Em compensação, apresenta algumas das melodias mais sofisticadas e memoráveis da carreira do Iron Maiden.
O trabalho de Dave Murray e Adrian Smith é um dos grandes destaques. Os famosos duetos de guitarra aparecem com enorme força, enquanto Steve Harris constrói linhas de baixo que vão muito além da simples sustentação das músicas. Nicko McBrain, por sua vez, apresenta uma performance precisa e cheia de variações. Se o álbum não é tão pesado quanto seus antecessores, ele compensa isso com velocidade, melodias elaboradas e arranjos mais ousados.
Bruce Dickinson também está em excelente forma. Sua interpretação alterna momentos agressivos, melódicos e dramáticos, demonstrando uma capacidade vocal que se adapta adequadamente nas diferentes camadas do disco. Uma particularidade importante é que Dickinson não participou das composições de “Somewhere In Time”. As músicas foram escritas principalmente por Steve Harris e Adrian Smith, com a participação de Dave Murray em “Deja-Vu”.
O álbum começa com “Caught Somewhere In Time”, uma abertura grandiosa que estabelece imediatamente a proposta do disco. A introdução apresenta as guitarras sintetizadas de maneira marcante, antes de a banda entrar com toda a força. A música trabalha com mudanças de andamento, riffs acelerados e uma estrutura relativamente complexa, preparando o ouvinte para o que viria a seguir. É uma faixa que resume muito bem a tentativa dos caras unirem sua identidade tradicional a uma estética futurista.
Na sequência aparece “Wasted Years”, composta por Adrian Smith e escolhida como um dos singles do álbum. A introdução de guitarra é uma das mais reconhecíveis de toda a história do Metal, e a música rapidamente se transforma em um dos grandes hinos da carreira da banda. Apesar da energia, a letra apresenta uma reflexão sobre o tempo perdido e sobre a necessidade de apreciar o presente. O refrão extremamente marcante e o solo de Adrian Smith completam uma composição que se tornou indispensável no repertório do Iron Maiden.
O terceiro tema é “Sea Of Madness”, também de Adrian Smith, mantém a velocidade e agrega um clima mais sombrio. É uma música que muitas vezes acaba sendo colocada à sombra dos grandes singles do álbum, mas possui excelente trabalho de guitarras, mudanças de dinâmica e um refrão forte. Sua estrutura atesta como Smith estava evoluindo o seu lado compositor dentro da banda.
Depois, vem a clássica “Heaven Can Wait”, de Steve Harris, é uma das faixas mais características do disco. Sua construção é longa, progressiva e marcada por uma seção central em que os sintetizadores e os vocais criam uma atmosfera diferente daquela encontrada nas músicas mais diretas do Maiden. Com o tempo, tornou-se uma das favoritas dos fãs e também uma das músicas do álbum mais executadas ao vivo ao longo dessas quatro décadas.
A importância de “Heaven Can Wait” para a história da banda ficou especialmente evidente durante a Somewhere Back in Time Tour, quando fãs e convidados eram chamados ao palco para participar dos vocais durante a parte central da música. Essa interação ajudou a transformar a faixa em um dos momentos mais celebrados das apresentações do Iron Maiden.
Já “Loneliness Of The Long Distance Runner” é uma das faixas mais injustamente esquecidas do álbum. Inspirada no filme britânico de mesmo nome, a composição fala sobre isolamento, resistência e determinação. Musicalmente, é uma das faixas mais rápidas do play e apresenta extraordinários duetos entre Murray e Smith.
Depois, vem a cadenciada “Stranger In A Strange Land”, outra composição de Adrian Smith, foi o segundo single do álbum e representa um momento diferente. A faixa constrói sua atmosfera gradualmente até chegar a um refrão memorável. A composição foi inspirada em uma experiência envolvendo um explorador perdido no Ártico e se destaca pela interpretação de Dickinson e, principalmente, pelo extraordinário solo de Adrian Smith.
Posteriormente, em “Deja-Vu”, única composição do álbum assinada por Dave Murray, é uma faixa que ganhou status de cult entre os fãs. Sua armação é relativamente curta para os padrões do Iron Maiden, mas reúne riffs velozes, mudanças interessantes e os característicos duetos de guitarra. É também uma demonstração de que Murray tinha muito a oferecer quando recebia espaço para desenvolver suas próprias ideias.
Encerrando o álbum está “Alexander The Great”, uma das composições mais ambiciosas de Steve Harris. Com mais de oito minutos de duração, a música narra a trajetória de Alexandre, o Grande, desde sua juventude até suas conquistas militares. Harris utiliza mudanças de andamento, passagens instrumentais e diferentes atmosferas para construir uma verdadeira narrativa musical. Os fãs esperaram anos para a banda tocar esse petardo ao vivo, como pudemos testemunhar na The Future Past, turnê que passou por aqui no final de 2024.
Em 1995, “Somewhere In Time” foi relançado com um CD bônus contendo quatro lados B dos singles. O material reunia “Reach Out” e “Sheriff Of Huddersfield”, originalmente associadas ao single de “Wasted Years”, e “That Girl” e “Juanita”, relacionadas ao single de “Stranger In A Strange Land”. Essas faixas posteriormente se tornaram interessantes registros complementares para quem desejava conhecer melhor o período criativo que cercou o álbum.
A turnê de divulgação, Somewhere on Tour, começou em 10 de setembro de 1986, em Belgrado, então parte da Iugoslávia, e terminou em 21 de maio de 1987, em Osaka, no Japão. Ao todo, foram 148 apresentações. O espetáculo também acompanhava a proposta futurista do disco, com um dos cenários mais elaborados da carreira do grupo naquele período.
Passadas quatro décadas, “Somewhere In Time” segue com um dos discos mais ousados e ambiciosos do Iron Maiden: veloz, técnico e melódico, ele foi diferente de tudo que o grupo havia lançado e atestou que Steve Harris e cia. não tinham medo de experimentar algo “fora da casinha” mesmo estando no auge da popularidade. Discaço. Up the Irons!
A seguir, a ficha técnica e o tracklist da obra.
Lançamento: 29 de setembro de 1986
Gravadora/Distribuidora: EMI
Produtor: Martin “Masa” Birch
Steve Harris: baixo e backing
vocals
Bruce Dickinson: voz
Dave Murray: guitarra
Adrian Smith: guitarra e backing vocals
Nicko McBrain: bateria
Por Jorge Almeida

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