Da tela para a economia: como a cultura coreana conquistou espaço no cotidiano dos brasileiros, por Yoo Na Kim*

 

Foto meramente ilustrativa.

Durante muitos anos, quando eu falava sobre a cultura coreana no Brasil, precisava primeiro explicar a Coreia. Onde ficava, quais eram seus costumes, como era sua gastronomia e por que aquele país, geograficamente tão distante, poderia despertar o interesse dos brasileiros. Hoje, o cenário é completamente diferente.

A Coreia do Sul entrou na casa, no celular, no guarda-roupa, na rotina de beleza e até no orçamento de milhares de brasileiros. O que começou para muitos com uma música, um grupo de K-pop ou um dorama transformou-se em uma relação cultural que movimenta consumo, cria comunidades, estimula novos negócios e aproxima dois países que, à primeira vista, poderiam parecer muito diferentes.

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Pesquisa realizada pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box mostra que 76% dos entrevistados têm interesse ou curiosidade pelo universo coreano. Entre eles, 47% gastam até R$ 250 por mês com produtos e experiências relacionados à Coreia do Sul e 49% afirmam já ter ultrapassado o valor que pretendiam gastar.

Esses dados mostram que a chamada Hallyu, a onda cultural sul-coreana, já não pode ser analisada apenas como um fenômeno do entretenimento. Ela também se tornou um fenômeno de comportamento e de consumo.

Quem começa assistindo a um dorama pode ficar curioso para experimentar o prato que apareceu em uma cena. Depois, procura um restaurante coreano, conhece os ingredientes, acompanha perfis nas redes sociais, descobre produtos de beleza, passa a ouvir música coreana e, em alguns casos, começa até a estudar o idioma e planejar uma viagem para a Coreia.

A pesquisa confirma esse movimento. Os K-dramas são apontados como a principal porta de entrada para esse universo, citados por 26% dos entrevistados, seguidos pelas redes sociais, com 19%, e pela música, com 14%. É uma cadeia de descoberta que se transforma em experiência e, posteriormente, em consumo.

Talvez uma das maiores competências desenvolvidas pela Coreia do Sul nas últimas décadas tenha sido compreender que cultura não precisa ficar restrita às fronteiras de um país. Quando uma produção audiovisual, uma música, uma receita ou uma tendência de beleza desperta curiosidade, ela também abre uma porta para que o público queira conhecer tudo aquilo que existe ao redor.

Por isso, o sucesso da cultura coreana não beneficia apenas grandes empresas de entretenimento. Ele cria oportunidades para restaurantes, cafeterias, lojas, escolas de idiomas, empresas de cosméticos, organizadores de eventos, produtores culturais, agências de turismo e pequenos empreendedores.

Em São Paulo, basta caminhar pelo Bom Retiro para perceber essa transformação. O bairro, historicamente ligado à presença de diferentes comunidades de imigrantes e também à comunidade coreana, ganhou nos últimos anos uma nova dinâmica. Todos os dias jovens circulam em busca de restaurantes, cafeterias, sorveterias, lojas, cosméticos e experiências ligadas à Coreia. Muitos talvez tenham conhecido aquele universo primeiro pela tela do celular ou da televisão. Agora querem vivenciá-lo.

Isso mostra como a influência cultural pode ajudar também a transformar espaços urbanos e criar novas vocações econômicas.

Mas há outro aspecto que considero fundamental para compreender esse fenômeno. Sempre digo que brasileiros e coreanos possuem mais pontos em comum do que se imagina. Somos povos que valorizam as relações pessoais, a convivência, a família, a comida e as celebrações. Também somos intensos na forma de viver nossas emoções.

Vejo até uma relação curiosa entre o K-pop e o Carnaval brasileiro. Evidentemente são manifestações culturais diferentes, mas ambas trabalham com música, dança, figurino, coreografia, performance e energia coletiva. São experiências que convidam o público a participar.

Nos doramas acontece algo semelhante. Por trás das histórias, o brasileiro encontra relações familiares, conflitos, sonhos, dificuldades e sentimentos universais. Ao mesmo tempo, descobre costumes diferentes e é essa combinação entre identificação e novidade que torna a experiência tão poderosa.

Há também uma dimensão aspiracional nessa relação. Segundo a pesquisa, 48% dos entrevistados sonham em conhecer a Coreia do Sul, 43% gostariam de estudar o idioma, 26% pretendem fazer intercâmbio e 25% desejam assistir a um show de K-pop. Por outro lado, 65% afirmam já ter deixado de realizar algum desejo relacionado ao país por questões financeiras.

Esse dado revela uma oportunidade importante. Existe uma demanda que ainda não consegue ser plenamente atendida. Isso significa espaço para novos produtos, serviços, experiências e iniciativas que tornem esse universo mais acessível no próprio Brasil.

É nesse ponto que cultura e empreendedorismo se encontram. Empresas brasileiras precisam observar esse movimento não apenas como uma tendência passageira, mas como um mercado formado por consumidores interessados, conectados e organizados em comunidades. Existem oportunidades para marcas brasileiras dialogarem com esse público, para pequenos empreendedores criarem produtos e experiências e para iniciativas que aproximem ainda mais os dois países.

A própria Coreia do Sul demonstrou como a cultura pode ser um ativo capaz de gerar desenvolvimento, fortalecer a imagem de um país e abrir portas para outros setores da economia. Cultura gera curiosidade que gera aproximação que pode gerar oportunidades econômicas.

Tenho acompanhado a relação entre Brasil e Coreia há mais de duas décadas e talvez essa seja uma das transformações mais bonitas que presenciei. Durante muito tempo, nosso trabalho era apresentar a Coreia aos brasileiros. Hoje, são os brasileiros que querem saber mais.

Eles querem conhecer a história por trás do dorama, entender os costumes, aprender o idioma, provar a comida e participar. Por isso, acredito que estamos entrando em uma nova etapa da Hallyu no Brasil. A primeira foi a descoberta. A segunda, a popularização. Agora estamos vivendo a fase da integração.

O grande desafio daqui para frente é transformar essa proximidade em uma ponte cada vez mais sólida entre os dois países e perceber que a cultura pode aproximar pessoas e que dessa aproximação podem nascer conhecimento, respeito, amizade e novas oportunidades.

*Sobre Yoo Na Kim
Yoona Kim é jornalista, escritora e uma das principais vozes de divulgação da cultura coreana no Brasil. Coreana radicada no país, dedica-se há mais de duas décadas à aproximação cultural entre Brasil e Coreia do Sul, atuando na difusão da história, dos costumes e das manifestações culturais coreanas.

Autora de livros e documentários sobre a cultura e a presença coreana no Brasil, acompanha de perto a expansão da Hallyu — a onda cultural sul-coreana — desde muito antes de o K-pop, os doramas, a gastronomia e a K-beauty alcançarem a atual popularidade entre os brasileiros.
Instagram: @yoonakim.info

Site oficial: yoonakim.com.br

Créditos: Renata Furlan Rebesco | Matéria Primma

* Este conteúdo foi enviado pela assessoria de imprensa

 

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