Série audiovisual inédita vai contar a história de Lia de Itamaracá, a maior cirandeira do Brasil *
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| Foto meramente ilustrativa. |
Produção dirigida pela cineasta Lia Letícia e pelo produtor Beto Hees tem seis episódios e mistura documentário e ficção para revisitar a vida de Maria Madalena, desde a infância na Ilha de Itamaracá até o reconhecimento nacional e internacional. Artista busca patrocínio para gravar material
A voz de Lia de Itamaracá atravessa décadas como
quem carrega o mar dentro do peito. Figura central da cultura popular
pernambucana, a artista prepara agora um novo mergulho em sua própria
trajetória com a série Maria Madalena – Lia de Itamaracá, produção
audiovisual em seis episódios de 23 minutos que pretende revisitar não apenas a
artista conhecida pelo Brasil, mas sobretudo a mulher por trás do mito. O
piloto da produção, incentivado com recursos do Funcultura Audiovisual, começou
a ser gravado essa semana na praia de Jaguaribe, em Itamaracá. O episódio
servirá para a equipe da Ciranda Produções buscar patrocínio para a gravação da
obra.
Entre documentário e ficção, a série vai reconstruir
caminhos, dores, afetos e conquistas de Maria Madalena Correia do Nascimento,
que transformou a ciranda em símbolo de identidade cultural brasileira. A
produção acompanha desde a infância marcada pela pobreza e pela exclusão até o
reconhecimento nacional e internacional.
“Eu sempre soube que seria artista. O povo ria de
mim quando eu dizia isso ainda menina, porque naquele tempo uma mulher preta,
pobre e da Ilha sonhar isso tudo parecia impossível. Mas eu nunca deixei de
acreditar na minha voz, na minha ciranda e na minha história”, relembra
Lia.
A estrutura narrativa da série mistura relatos
íntimos da artista, encenações ficcionais com atores e atrizes, imagens de
arquivo e performances musicais conduzidas pela própria Lia. Cada episódio será
guiado por uma música, uma lembrança e um espaço simbólico da Ilha de
Itamaracá. Com essa intimidade que a série conduz, a sobrinha Maria Salete, que
carrega o apelido de “Preta”, e sua filha, Pietra Victória, 3 anos,
sobrinha-neta de Lia, farão os papeis da artista na infância e no começo da
vida adulta e artística. As duas atrizes foram escolhidas pela cirandeira para
interpretá-la. “Preta” também já esteve no papel da sua avó e mãe de Lia, Dona
Matilde, no curta Dorme Pretinho (2024), baseado na música da cirandeira. O
filme foi exibido em mais de 30 festivais de cinema e conquistou prekär
miações, como o de melhor trilha no 15º Festival de Triunfo (Pernambuco) e
melhor filme no 5º Festival de Cinema Negro em Ação (Rio Grande do Sul).
A proposta da série nasce do desejo da própria
artista de registrar aquilo que ela chama de “a Lia antes da Lia”. Ou seja: a
trajetória de Maria Madalena antes da consagração nos palcos e da fama. Uma
história atravessada por questões raciais, sociais e territoriais, mas também
pela força simbólica de uma mulher negra que transformou adversidade em
permanência.
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Lia
lançou quatro álbuns, tornou-se Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana,
recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de
Pernambuco e foi homenageada por instituições no Brasil e no exterior. Sua
trajetória também dialoga com o cinema, tendo participado de produções de nomes
como Tizuka Yamasaki, Lírio Ferreira e Kleber Mendonça Filho, em Bacurau e
Recife Frio. Ao longo de 10 anos, uma equipe liderada pela cineasta Lia Letícia
e pelo produtor Beto Hees já produziu mais de 10 mini-docs sobre Lia de
Itamaracá, além de videoclipes e curta-metragens, como Encantada (2012).
“Essa série tem um diferencial, ela não pretende
apenas reverenciar uma trajetória individual. A Ilha de Itamaracá surge como
ambiente central da narrativa. O território, marcado pela força da pesca
artesanal, pelas tradições populares e também pelo abandono histórico, aparece
como extensão da própria artista. A produção constrói um mapa afetivo da vida
de Lia, conectando lembranças, paisagens e sons da ilha às memórias narradas
pela cantora”, explica Beto Hees, produtor e empresário da cantora há 30
anos.
“Contar a história de Lia é também contar a história
de um Brasil profundo, popular e muitas vezes invisibilizado. Quando falamos de
Lia, não estamos falando apenas de uma artista consagrada, mas de uma mulher
negra, nordestina e periférica que atravessou décadas resistindo através da
cultura. A trajetória dela reúne questões de território, ancestralidade,
memória, racismo, pertencimento e sobrevivência”, afirma a diretora Lia
Letícia.
Aos 82 anos, Lia segue em movimento. Recentemente, a
cirandeira lançou o quinto disco de sua carreira em parceria com a cantora
baiana Daúde. Intitulado Pelos Olhos do Mar, o trabalho chegou às
plataformas de streaming pelo SeloSesc e reúne um repertório que atravessa
diferentes sonoridades, aproximando a cultura popular pernambucana de elementos
do bolero, dub e linguagens urbanas contemporâneas. Entre faixas inéditas e
releituras, o álbum dialoga com composições de nomes como Emicida, Russo
Passapusso, Céu, Otto e Chico César. Nos últimos anos, Lia participou da feira
internacional de música Womex, em Lisboa, foi tema de ocupações culturais em
São Paulo e no Recife e inspirou enredos de escolas de samba como a Império da
Tijuca e a Nenê de Vila Matilde.
Agora, transforma a própria vida em narrativa
audiovisual. Uma história onde memória, território, música e resistência
caminham de mãos dadas, como numa grande roda de ciranda à beira-mar.
Créditos:
Pedro Cunha
* Este
conteúdo foi enviado pela assessoria de imprensa

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