Entre o cavalete e o pergaminho, por Ivan Hegen*
![]() |
| Foto meramente ilustrativa. |
Quando falamos mais de um idioma, percebemos com mais nitidez a arbitrariedade da relação entre significado e significante. Ao deslizar de uma língua para outra, constatamos a fragilidade com que tentamos, através das palavras, corresponder à realidade. A distância entre idiomas evidencia que não há jamais encaixe perfeito entre o referente e suas convenções linguísticas. Tal percepção pode ser ainda mais aguçada na mente de criadores que manejam duas expressões artísticas, como a literatura e as artes visuais.
A desnaturalização da
linguagem é intensa em obras como as de Nuno
Ramos, Iberê Camargo e Elvira Vigna, por exemplo, que se dedicaram à
produção plástica e à escrita. Também há que se considerar aqueles que
priorizaram a literatura, mas demonstravam ter nas artes visuais uma fonte
de inspiração fundamental, como William Carlos Williams, que
“traduzia” pinturas em poemas; Clarice Lispector, que muito aprendeu
com o não-verbal da pintura; Samuel Beckett, admirador de Bram
Van Velde; além de grandes poetas que se dedicaram à crítica de arte,
como Baudelaire, Apollinaire, Mario de Andrade e Ferreira Gullar.
Escritores e artistas
visuais já estiveram mais próximos, já se influenciaram mais,
mutuamente. Hoje é quase inimaginável qualquer reedição viva de André
Breton reunindo pintores, escultores e poetas para compartilhar de um
significativo movimento coletivo, como ocorreu no surrealismo. Tampouco há
notícia recente de qualquer reunião significativa como a da Semana de
22 ou do Neoconcretismo. Entre as razões
para esse distanciamento, talvez haja uma especialização
dos respectivos mercados, a exigir um profissionalismo mais dedicado ao nicho
restrito. Poucos acompanhariam com afinco tanto as
vernissages quanto as feiras literárias, sendo diferentes os públicos
e os tópicos de discussão.
Se já é uma façanha
desenvolver uma obra considerável em uma única expressão artística,
não se pode exigir de ninguém que se desdobre
em multimodalidade, como uma Marina Colasanti ou um
Arnaldo Antunes. Nem todo espírito criador se interessa muito por outras
linguagens que não sejam a de sua atuação, mas algo se
perde em possibilidades sinestésicas e de efeitos de estranhamento
quando pouco se atenta a outras vertentes artísticas.
Teria Manet ousado
tanto com as tintas sem a troca poética de sua
amizade com Mallarmé? Será que Mira Schendel saberia
gravar a sutileza em papel de arroz se não fosse um amor às letras?
E teria Lourenço Mutarelli publicado alguns dos melhores livros
contemporâneos se não houvesse se experimentado antes com
traços e cores?
Assim como, em contato
com o estrangeiro, intuímos uma realidade a que o idioma
materno alude, mas não pode efetivamente alcançar, pode ser
no vão, no intervalo entre uma expressão artística e outra, que vislumbramos
algo sobre a imperceptível e jamais plenamente explicável
necessidade que temos de redimensionar a vida perante a
arte. Aguçando os ouvidos, nos deleitamos com o rumor do
constante diálogo entre as mais diversas expressões artísticas.
*Ivan Hegen é
autor de “Livre Associação”, doutorando em Teoria Literária e Literatura
Comparada pela USP e professor formado em Artes Plásticas.
Agradecimentos:
Victória Gearini | LC Agência de Comunicação
** Este
conteúdo foi enviado pela assessoria de imprensa

Comentários
Postar um comentário