Sepultura: 30 anos de “Roots”

"Roots", do Sepultura, completa 30 anos de lançamento em 2026.

 

Hoje, 20 de fevereiro, o sexto disco de estúdio do Sepultura, “Roots”, completa os seus 30 anos de lançamento. Gravado entre outubro e dezembro de 1995 no Indigo Ranch, em Malibu, na Califórnia, a obra foi lançada pela Roadrunner Records e produzida por Ross Robinson. Para muita gente, esse registro foi um divisor de águas na discografia do grupo por conta de ter sido o último a ter a presença do vocalista/guitarrista Max Cavalera.


O quarteto formado por Max Cavalera (guitarra/voz), Igor Cavalera (bateria), Andreas Kisser (guitarra) e Paulo Jr. (baixo) deram sequência no caminho iniciado no disco anterior – “Chaos A.D” (1993) –, ou seja, contendo mais influências da música brasileira, além do uso mais constante de percussão tribal. Outra novidade foi a influência de uma nova vertente que estava a surgir na época, o Nu Metal, com o uso de guitarras de afinação baixa, riffs rítmicos e sincopados, logo, se distanciando um pouco da pegada do Death Metal do começo da carreira. Curiosamente, uma das primeiras bandas do novo estilo, o Korn, lançara o seu ‘debut’ em 1994 e o produtor foi o mesmo que o Sepultura trouxe para comandar a mesa em “Roots”, Ross Robinson.


Outra peculiaridade que chamou bastante atenção em “Roots” foi o time de convidados especiais: Carlinhos Brown, para desespero dos mais puristas, Mike Patton, do Faith no More, que, inclusive, tornou-se palmeirense graças a Max, além de David Silveira, Jonathan Davis, do Korn e do DJ Lethal, do Limp Bizkit. Além disso, algumas faixas foram gravadas em uma tribo Xavante e teve o auxílio de alguns indígenas nos vocais.


Aliás, essa proximidade do Sepultura com a música indígena já não era novidade, uma vez que no disco anterior, a presença de elementos indígenas na faixa “Kaiowas”. Porém, o interesse dos caras em trabalhar com uma tribo indígena cresceu, especialmente por parte de Max Cavalera, depois de ter visto o filme “Brincando nos Campos do Senhor” (1991).


O Sepultura convenceu a Roadrunner Records, sua gravadora, a apoiar o projeto e, depois de Max conversar com a jornalista Angela Pappiani, do Núcleo de Cultura Indígena, o grupo escolheu a tribo dos Xavantes para trabalhar no novo disco. Originalmente, a tribo escolhida tinha sido os caiapós, porém, os caras foram alertados que eles não eram muito amigáveis. Então, todo o procedimento de abordar a gravadora e a visita do Sepultura à tribo levaram quase um ano.


Depois de ser apresentado à tribo, os Xavantes receberam o Sepultura e, assim, o grupo e o produtor embarcaram de Goiânia para a região de Camarana, no Mato Grosso, em novembro de 1995. A visita durou três dias, os integrantes aderiram a cultura da tribo, inclusive, pintando seus corpos, comendo do alimento dos índios e tomando banho de rio. A experiência inspirou o grupo a fazer a faixa “Itsári” que, assim como o “Roots”, significa “raízes”. A performance dos índios foi capturada com um gravador de oito canais alimentado com bateria de caminhões, uma vez que não havia energia elétrica no local.

E o resultado desse encontro “inusitado” foi benéfico para ambos, pois, graças a Sepultura, a tribo ganhou mais notoriedade, passaram a ser chamados pelo nome específico e não apenas pela alcunha de “índios” e que o interesse pelos Xavantes e sua produção artística cresceram por conta da colaboração deles com a banda. Por outro lado, o álbum alcançou o 27º lugar das paradas da Billboard 200 e à quarta colocação nos charts britânicos. Além disso, “Roots” rendeu ao Sepultura discos de ouro nos Estados Unidos, Canadá, Áustria, Holanda, Reino Unido e na França e tornou-se o maior sucesso comercial do Sepultura.


Claro que o play tem seus torpedos, a começar com a faixa de abertura, “Roots”, que tornou-se um hino do Sepultura, além das ótimas “Attitude”, “Cut-Throat”, “Spit”, “Lookaway”, “Breed Apart”, além da minha favorita, “Ratamahatta”, feita em parceria com Carlinhos Brown, e que trazia o indefectível trecho em que destacam “Zé do Caixão, Zumbi e Lampião”.


E, pelo menos com o Sepultura, nós, brasileiros, somos privilegiados. Pois, na edição brasileira de “Roots” apresenta duas faixas bônus, os covers “Procreation (Of The Wicked)”, do Celtic Frost, e “Symptom Of The Universe”, do Black Sabbath.


Claro que não podemos ignorar a icônica capa de “Roots”. O design da capa saiu de uma fotocópia de uma nota de dez mil cruzeiros, que tinha umas ilustrações tribais e, assim, o grupo enviou a cédula para Michael Whelan, que trabalhou sobre ela e cuidou de finalizar o trabalho.


Particularmente, uma das primeiras lembranças que tive de “Roots” não foi necessariamente na capa do LP/CD do Sepultura, mas sim no humorístico “A Praça É Nossa”, por conta do personagem Kelé Metaleiro, interpretado originalmente por Carlos Leite e também por Saulo Laranjeira (famoso por fazer o político corrupto João Plenário no mesmo humorístico), que vestia uma peita preta com a capa do álbum.


Infelizmente, para muitos, Max Cavalera deixou o grupo após o lançamento do play e fundou o Soulfly, que manteve a pegada do Sepultura em “Roots” e, inclusive, incluiu em seu repertório alguns temas de sua ex-banda, sobretudo desse álbum. No entanto, discordo daqueles que acham que “Roots” foi o último grande disco do Sepultura, pois, a fase Derrick rendeu bons trabalhos também, como “Kairos” (2011), “Machine Messiah” (2017) e “Quadra” (2020), só para citar alguns.


A seguir, a ficha técnica e o tracklist (da versão brasileira) da obra.


Álbum: Roots
Intérprete: Sepultura
Lançamento: 20 de fevereiro de 1996
Gravadora/Distribuidora: Roadrunner Records
Produtor: Ross Robinson

Max Cavalera: voz e guitarra
Igor Cavalera: bateria, percussão, timbau e djembê
Andreas Kisser: guitarra
Paulo Jr.: baixo e percussão

Carlinhos Brown: vocais, berimbau, timbai, wood drums, djembê, xequerê e surdo em “Ratamahatta
Mike Patton e Jonathan Davis: vocais em “Lookaway
DJ Lethal: scratch em “Lookaway
David Silveira: bateria em “Ratamahatta
Tribo Xavante: percussão e canto em “Itsári

1. Roots Bloody Roots (Max Cavalera / Sepultura)
2. Attitude (Dana Wells)
3. Cut-Throat (Max Cavalera / Sepultura)
4. Ratamahatta (Sepultura / Carlinhos Brown)
5. Breed Apart (Andreas Kisser / Max Cavalera / Sepultura)
6. Straighthate (Max Cavalera / Sepultura)
7. Spit (Max Cavalera / Sepultura)
8. Lookaway (Jonathan Davis / Sepultura / DJ Lethal)
9. Dusted (Andreas Kisser / Sepultura)
10. Born Stubborn (Max Cavalera / Sepultura)
11. Jasco (Instrumental) (Andreas Kisser)
12. Itsári (Instrumental) (Tribo Xavante / Sepultura)
13. Ambush (Max Cavalera / Sepultura)
14. Endangered Species (Max Cavalera / Sepultura)
15. Dictatorshit (Max Cavalera / Sepultura)
16. Canyon Jam (Instrumental) (Sepultura)
Faixas Bônus:
17. Procreation (Of The Wicked) (Gabriel Fischer)
18. Sympton Of The Universe (Butler / Iommi / Osbourne / Ward)

Por Jorge Almeida

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